Memórias Paroquiais

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Mértola - Corte do Pinto

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1758 Maio 25 - Corte do Pinto
Memória Paroquial de Corte do Pinto, Mértola
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 11, n.º 387, pp. 2617 a 2625]

 

Resposta ha noticia que Sua Majestade que Deus guarde pede desta aldeya da Corte do
Pinto , termo da villa de Mertolla, cuja refiro pella forma seguinte.

[Terra]

[1] Fica esta aldeya na província do Alentejo, junto à raya de Castella, no sitio a que
chamão Destricto de Cambas que he entre o rio Guadiana e a ribeira de Chança, que
serve da divizão dos Reinos de Portugal e Castella. He arcebispado de Evora, comarca
de Ourique e termo da villa de Mertolla.

[2] Como a dicta villa de Mertolla he de El Rey Nosso Senhor, o he tãobem esta aldeya,
como tãobem as mais deste termo.

[3] Tem esta aldeya outenta vizinhos, que compoem trazentos e dezanove pessoas:
homens sento e dezouto, mulheres sento e duas; menores varões vinte e quatro; fêmeas
vinte e duas; creanças varões vinte e outo, fêmeas vinte e sinco, que fas o dicto numero
de trazentos e dezanove pessoas.

[4] Está situada em serra, e ocupa sua situação parte de montes e parte de valle, e terá de
circuyto a quinta parte de huma legoa. E desta aldeya se descobrem duas povoações do
Reyno de Castella, huma a que chamão Puebla de Gusman e dista esta aldeya quatro
legoas pequenas e a outra se chama Santa Barbara, e dista outras quatro legoas mas
grandes. E antes de esta, na distancia de duas legoas, está outro lugar tãobem de Castella
a que chamão Paymogo, mas não se descobre desta aldeya por estar situado em hum
valle. //

[5, 6] Está a parochia dentro da mesma aldeya, e não tem esta freguezia mais povoação
que a dicta aldeya, nem monte algum, e só tem huma orta a que chamão Val de Ovelha,
que dista desta aldeya a duodesima parte de huma legoa.

[7] He o orago desta freguezia Nossa Senhora da Concepção, cuja imagem está
collocada em hum nicho na cappella maior. Tem mais dous altares para os lados, hum
dentro de huma cappella que he da Senhora do Rozário, outro à face que he das Santas
Almas.
He a dicta igreja de doze varas de comprido e mais de quatro de largo, não tem naves
nem arcos mais que o que devide a cappella maior e a cappella da Senhora do Rozário,
cujas são de abobedas e tudo o mais he forrado de madeyra. Tem três irmandades, huma
do Santissimo Nome de Jesus, outra da Senhora do Rozário e outra das Santas Almas.

[8, 9] O parocho desta aldeya e freguezia he cura, cuja aprezentação he de Sua
Excellencia Reverendissima. Tem de próprio sento e outenta alqueres de trigo, pagos
pellos mesmos freguezes e adeantados pello São João de cada hum anno. O contigente a
que chamão pé de altar renderá huns annos por outros sincoenta mil reis. Não tem
beneficiados nem cappellão algum a mais que o dicto parocho.

[10, 11, 12, 13, 14] No destricto desta freguezia não há convento algum, nem nesta
aldeya há hospital ou Caza de Mizericordia. //
Há nesta freguezia duas ermidas, ambas destruhidas há mais de cem annos, e ainda
conservão as paredes principais dellas, ambas fora desta aldeya: huma na distancia de
meya legoa que era a Santa Luzia e a outra na distancia de meyo quarto de legoa que era
São Simão. E há tradição que esta fora antiguamente a parochia por se acharem
próximos à tal igreja varios edeficios demolidos de obra muito tosca.

[15] Os fructos que recolhem os moradores desta aldeya são trigo, sevada, senteyo,
porque não vivem de outra couza senão de suas lavouras com seus rebanhos de gados,
tanto de lam como de cabello. Tãobem recolhem fructos de mel e sera, por tractarem
muitos dos moradores de colmeias, que os fructos que as terras tem proprios são de
azinho e louro, e todos os fructos são sem muita abundancia.

[16] Não tem esta aldeya mais justiça que hum Juiz vintaneyro e hum escrivão sujeitos à
justiça de Mertolla, como factura sua.

[17, 18] Não he couto, cabeça de conselho, honra ou behetria, nem há memoria de que
desta aldeya sahissem ou florecessem senão alguns homens desulutos com pouco temor
de Deus.

[19, 20] Não tem feyra nem correyo, e se vallem do correyo de Mertola que dista desta
aldeya tres legoas grandes.

[21] Desta aldeya à cidade de Évora cappital deste arcebispado, há dezacette legoas, e
da côrte de Lisboa dista trinta legoas. //

[22] Os priveligios que tem não só os moradores desta aldeya mas tãobem todos os mais
moradores deste Destricto de Cambas, que comprehende outra freguezia que há neste
destricto chamada de Santa Anna e alguns montes da freguesia da Villa de Mertola, he
de desfructarem toda a serra, assim do que nella semeyão como dos fructos das arvores
que são sovreiras, sem pagarem mais que o dizimo dos fructos do que semearão, dizem
que per (...) ley que os Senhores Reys antigos lhe fizerão. Verdade que elles abuzão de
tal sorte deste privilegio que o vão destruhindo de tal sorte que não só cortão as arvores
que querem ainda as queymão com tanto prejuizo do bem comum.

[23, 24] Meya legoa distante desta aldeya está hum pego cujas agoas curão os enfermos
da sarna. Chamace o tal pego de São Dominguos por estar próximo a huma ermida do
dicto Santo que he da freguezia de Santa Anna. Será prencipalmente por virtude do
santo, mas a tal agoa tem sabor de enchofa.

[25, 26] Não há nesta aldeya e seu districto torre, castello, ou couza digna de memoria.
E no terremoto de mil e settecentos e sincoenta e sinco não houve mais ruinas que a da
igreja desta aldeya que em breves annos virá de todo a cahir pellas poucas posses e
menor zelo que há para se reparar. //

[Serra]

[1, 2] Fica esta aldeya próxima à serra a que se chamão de Mertola, só com a distancia
de hum quarto de legoa, cuja lhe fica pella parte do Norte, e tem de comprimento três
legoas e de largura legoa e meya.
Prencipia a tal serra no sitio de Val Covo, e finaliza na foz dos Alcaydes que he hum
ribeyro que entra em a ribeyra de Chança.

[3] A tal serra comprehende alguns valles, sendo os prencipais Val de Paredes e Val de
Pereyro.

[4] Não tem em si rio algum, mas vários barrancos, sendo o prencipal o barranco dos
Alcaydes, cujo corre do Norte para o Sul athé entrar na dicta ribeyra de Chança, que he
a que vay devedindo os Reynos.

[5] Não há na dicta serra povoação alguma, tendo somente algumas malhadas de
colmeyas.
[6] Tãobem não há fontes especiais, antes sim muitas faltas de agoa.

[7] E ainda que na dicta serra senão achão minas de qualidade alguma, próximo à
mesma serra, em terras de particulares, junto á ribeyra de Chança, estão várias minas e
há tradição que dellas se tirava ouro.

[8] Há na dicta serra várias ervas de que os montanhezes se aproveytão pera várias
enfermidades, como erva arcar para inflamações, tasneyras para curar chagas, e alecrim
pera várias enfermidades. De plantas excecto sovreyras, que se a não cortacem se via
abundante, só tem mattos infrutiferos. He cultivada o mais della
semeandoce de trigos,// sevadas, senteyos, que deste género he mais abundante.

[9] Não há na dicta serra igreja ou mosteyro, ainda que nella se encontrão alguns
edifficios muito toscos.

[10] O temperamento da dicta serra he frio, ainda que não muito desmaziado.

[11] Na dicta serra creão o moradores deste destricto os seus gados, prencipalmente de
cabello e tem em si bastante caça de coelhos e perdizes, algumas lebres e rezes servuas.

[Rio]

 

[1] Próximo a esta aldeya, porque só dista meya legoa, corre o rio de Chança, o qualnasce em huma povoação de Castella chamada Corteganna, de huma fonte que está em
huma rua da tal povoação de cuja fonte toma o tal rio o nome.

[2] Não nasce caudaloso, nem o he em parte alguma, ainda que em suas enchentes
arebatado pello despenhado de suas correntes. Mas em annos secos a maior parte do
Verão em várias partes nem corre.

[3] Neste tal rio ou ribeyra de Chança entrão vários regattos ou barrancos que só correm
enquanto chove. Entre todos, os principais são três: he o primeiro, o barranco de
Alcaydes, que prencepia dentro da serra e em parte devide a serra da terra dos
particulares, e entra em Chança no sitio aonde chamão as Varges Largas. Corre o tal
barranco de Norte para o Sul athé entrar na dicta ribeyra pella parte de Portugal. // O
segundo se chama Chumbeyro e tãobem corre do Norte pera o Sul, e vay meterce em
Chança aonde chamão o Moinho de Nossa Senhora, tãobem pella parte de Portugal. O
terceyro se chama Malagão, cujo entra na tal ribeyra pella parte de Castella, e corre de
Nascente pera o Poente. Entre os três este tal Malagão he o maior e corre a maior parte
do anno.

[4, 5] O tal rio de Chança não he navegavel nem o pode ser, não só pellas poucas
agoas que conserva mas tãobem pello apertado do rio, porque o mais delle corre entre
rochedos, e por esta cauza tanto mais cheyo quanto mais arebatado.

[6] Corre o tal rio do Nacente ao Poente.

[7] Cria muita abundancia de peches a que chamão barbos, e desta espece maior
abundancia dos pequennos, tãobem cria algumas eirós. Como o tal rio se vay meter em
o rio de Guadianna, do tal rio lhe entrão vários muges e alguas (sic) solhos, mas não
podem subir por Chança acima pelos açudes que tem de alguns moinhos.

[8, 9] Não há noticia que na tal ribeyra de Chança haja mais de hum caneyro de
madeira, que no tempo da vazante de qualquer cheya apanha abundada de barbos,
picões e algumas eyrós, cuja pescaria he de hum sujeyto de Portugal senhor de hum
moinho a cujo açude está acima do tal caneyro. De Inverno uzão muitos de pescaria de
canna e de Verão uzão alguns de redes que são rojos, tresmalhas e atarrafos. // As tais
pescarias são livres sem pensão alguma pera todos os que quizerem uzar dellas.

[10] Em alguns citios fás suas vargens e estão (sic) se semeyão de trigo, sevada e
senteyo; outras vezes as rezervão para se semiar nelas meloais e alguns milhos grossos e
aboberas. E não há nas dictas vargens arvores algumas mais que hum grande romeyral
que fica no fim da tal ribeyra próximo à entrada de Guadianna, cuja fazenda he da
confraria do Santissimo Sacramento da freguesia de Santa Anna destte destricto de
Cambas.

[11] Não há notica (sic) de que suas agoas tenhão virtude alguma.

[12, 13, 14] Sempre teve o mesmo nome desde que nasce da tal fonte de Chança athé se
meter no rio de Guadianna.

[15] Não há notia (sic) de que tenha ponte alguma e os mesmos açudes dos moinhos lhe
servem de ponte.

[16] Desde que a tal ribeyra de Chança prencepia a servir de divizão dos dous Reynos,
Portugal e Castella, athé se meter no rio Guadianna, tem em si vinte moinhos e hum
pizão, cujos são de particulares de hum e outro Reyno porque estão de huma parte e
outra, todos com seus açudes.

[17] Não há memoria que de suas areas se tirace ouro em tempo
algum.

[18] Conservace a posse de se poderem uzar de suas agoas sem
pensão alguma. //

[19, 20] Tem tal ribeyra de Chança vinte e huma legoas desde que nasce athé que entra
no rio Guadiana aonde fenece. Passa pelo lugar de Aroche, lugar de Castella, muito
próximo à tal povoação; passa com meya legoa de distancia de Ficalho, lugar de
Portugal; passa com outra meya legoa de distancia desta aldeya de Corte de Pinto e
outra meya legoa de distancia da aldeya de Santa Anna deste destricto de Cambas.
Desde Corteganna aonde nasce, athé Aroche, fazem duas legoas, desde Aroche athé
Ficalho, aonde prencepia a devidir os Reynos, fazem sette legoas; desde Ficalho athé ao
Carril, que hé no direyto desta aldeya, fazem outo legoas; desde o Carril athé ao direyto
da aldeya de Santa Anna, fazem duas legoas, e athé se meter no rio Guadianna fazem
outras duas legoas, que todas fazem vinte e huma desde que nasce athé que morre.
Chamace este citio aonde entra a tal Ribeyra de Chança em o rio Guadianna, o citio da
Mesquita, em cujo já chega agoa de maré, e athé ao mar aonde se sepulta o rio
Guadianna fazem outo legoas.

São as noticias que poude descobrir desta aldeya e freguezia, da serra e rio.

Corte do Pinto, 25 de Mayo de 1758.

O Parrocho Silvestre António Martins Gonçalo


Transcrição: Joaquim Ferreira Boiça e Maria de Fátima Rombouts Barros


BOIÇA, Joaquim Ferreira; BARROS, Maria de Fátima Rombouts – As Terras as Serras
os Rios: As Memórias Paroquiais de 1758 do Concelho de Mértola. Mértola: Campo
Arqueológico, 1995.
7

Actualizado em Segunda, 07 Março 2011 11:47  


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