Memórias Paroquiais

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Évora - Torre de Coelheiros

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1758 Junho 19 - Torre de Coelheiros
Memória Paroquial de Torre de Coelheiros, Évora
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 37, nº 74, pp. 653 a 658]

Satisfazendo a ordem de Vossa Excelência direi o que a minha deligencia poude
alcançar no breve tempo, que tenho asistido como em comendado nesta freguezia. A
Igreja de Nossa Senhora do Rozário da Torre dos Coelheiros(1), termo da cidade de
Évora, distante della três legoas, três da Villa de Portel, duas e meya de Vianna, huma
da aldea de Sam Manços, outra de Montte de Trigo e vintte da capital deste Reyno. He
Padroeyro della Diogo Xavier de Mello Cogominho, Senhor da ditta Torre e Solar da
Caza de Cogominho. Foi fundada, e eregida em Parrochial no tempo do Concilio
Tridentino(2) no anno de 1535 no reynado do Rey Dom João treceyro por duas Bulias
Ponteficias do Santissimo Padre Paulo treceyro da feliz recordação concedidas à
instância de seu ceisto avô Nuno Fernandes Cogominho.
Por virtude das quais hé a aprezentação desta igreja dos Senhores da ditta Torre e
Morgado, os quais “ad libitum” podem anualmente pôr e remover o parracho, por ser
“ad carum nudum”, como seria das ditaz Bullas: Déllas consta que o parracho he
puramente hum capelão, aquem seguindo o costume desta Provincia chamão
regularmente Prior como no Minho aos priorez com a mesma equivocação intitulão abades. Sobre o direyto e posse desta sua aprezentação tem havido em diverços tempos
varios pleitos, mas tem sido sempre todos sentenciados a seu favor contra os Senhores
Arcebispos de Évora, e parrachos removidos, de cujas sentenças por serem extenças não
remeto as cópias, o que farão sendo previsto. A Corographia Portugueza tras lotado o
seu rendimento em duzentos mil reys.
Tem esta igreja(3) três altares o mayor he de Nossa Senhora do Rozário (que hé a
invocação da ditta Igreja) e actualmente se lhe estão fazendo em Évora hum retabolo
com a mayor decencia que pode adimitir o ambito da Capella, para cujo efeito manda o
Padroeyro acrescentála (não abestante tella feito ha quatro annos a fundamentis) por se
achar a antiga sumamente aruinada com o tempo. Fica a Senhora em hum trono
levantado em quatro colunas, e revestindo todo o retabolo as quatro imagens do
gloriozo Doutor da Igreja Santto Agostinho, Sam Miguel, Sam Matheus, e Santo
Estapino adovogado da gotta. Ao lado do Evangelho está a cadeyra do Padroeyro,
abayxo do Presbitério comformandoçe nesta parte com cerimonial romano. E da parte
da Epístola está a boca de huma tribuna em que asiste aos officios Divinos a Sua
família. O cruzeyro está todo debayxo de hum zimbório com quatro ganellas
porporcionado tudo a altura da Igreja // (Da Igreja) que tambem mandou fazer o
Padroeyro á quatro annos: nelles estão os dois altares colatterais à face da mesme Igreja.
Em hum está colocada a Imagem de Nossa Sanhora da Asumpsão e Santa Maria
Margarida, no outro a de Nossa Senhora do Rozário (a pequena Imagem de grande
devoção), Santo António, Santo Amaro e Sam Braz.
As armas, que neste templo se achão são as dos Cogominhos(4) seus fundadores não só
em varias pedras antigas mas também pintadas a fresco na abobada da capela mor
seguindo nesta parte a idea da Igreja, que toda se acha pintada nesta forma: as pedras
dos escudos mostrão em si sinco chaves mouriscas de prata postas em aspas em campo
de sangue. Na capella mór está huma campa de pedra mármore com sinco chaves e este
letreyro: Sepultura dos filhos de Nuno Fernandes Cogominho, que fez de novo esta
Igreja falecerão na era de mil e quinhentos e sincoenta e quatro annos. No adro a
entrada do alpendre estão duas sepulturas de marmore mas sem armas, o letreiro de
huma não se pode ler por estragado, e a outra diz: sepultura de Marcos Affonço e de
seus herdeiros. E não se achão mais letreiros nesta Igreja por serem todas as mais
sepulturas de adôbes.
O ditto Nuno Fernandes Cogominho fundador, e primeyro Padroeyro desta Igreja viveo
alguns annos em Évora, e muntos nesta Torre. Era filho de Fernam Gonsalves
Cogominho, netto de Nuno Fernandes Cogominho, bisneto de Gonçalo Mendes
Gogominho, treceyro netto de Mem Fernandes Cogominho, quarto netto de Dom João
Fernandes Cogominho, em quem acaba o Conde Dom Pedro o título dos Cogominhos, e
foy o terceyro Senhor de Aguiar e Oriola, alcaide mor de Évora e ceisto netto de
Fernam Gonsalves Cogominho senhor das dittas villas, meyrinho mór, copeiro mór, rico
homem e grande valido do Rey Dom Affonço o quarto, com quem se achou na batalha
do Salado; instituidor deste morgado, o qual Fernam Gonsalves Cogominho está
sepultado na Igreja de Sam Francisco dessa cidade de Évora no magnifico túmulo dos
Cogominhos na sua capella do Espírito Santo, que hé a primeyra à mão // direita quando
se entra pella porta da Igreja e tem este letreyro: - Aqui jás o munto honrrado Fernando
Gonsalves Cogominho Senhor que foi das Villas de Aguiar e Oriola, instituidor do
morgado da Torre dos Coelheiros fidalgo de El Rey Dom Affonço o quarto - faleceo na
era de mil e trezentos, e secenta e quatro.
Os livros que se comservão dos Baptizados, Cazados, e Obitos principiarão no anno de
mil quinhentos, e secenta e quatro. Tem huma comfraria de Nossa Senhora do Rozário,
da qual são juízes perpétuos os padroeiros. Estas são as notícias, que poço dar a Vossa
Excelência desta Igreja, e deste morgado se acham no Real Archivo da Torre do Tombo,
em cujos rezistros se acha lançada a sua instituição, e copiados os seus previlégios de
coutada comcedidos pellos senhores Reys Dom Pedro Primeyro, e Dom Fernando
comfirmados por todos os Reys de Portugal seus suseçores e prezentemente pella
clamentissima bondade de nosso augustissimo soberano, o senhor Dom Jozé primeyro,
a Diogo Xavier de Mello Cogominho, com a clauzola, de que tanto se honrrão os
senhores deste morgado, de que faltando a sua descendência não paçe o morgado a
Corôa, mas que se instituão tantas capelas, quanto poder chegar o seu rendimento, e que
se digão diariamente estas missas pella alma do Senhor Rey Dom Affonço, o quarto.
Talvez e na memória daquela emcomparável honrra de ficar este monarcha por fetor, e
testamenteyro dos filhos do Almeyrante Nuno Femandes Cogominho como diz Brandão
na Monarchia Luzitana tom 50 Livro Cap. 17.
Sendo que a Torre dos Coelheyros excede monto em antiguidade a todas estas
memórias, pois não se lhe sabendo princípio se sabe que era senhor della Pedralvez
Cogominho // que se achou com Giraldo Pestana o Sem Pavor na tomada de Évora, e
levou a coimbra as chaves das sinco Portas daquela praça a El Rey Dom Affonço
Henriquez que lhas deu por armas; e por seu respeito e interseção perdoou a Giraldo, e
seus companheyros, como escreveo Brito na Cheronica de Cister primeira parte, livro
primeiro cap. treze folhas trezentas, e dezasete; Villas Boas na Nobliarchia Portugueza e
outros muntos. O mesmo historiador na segunda parte da Monarchia Lusitana folhas
cento e sinco, insine citando e seguindo ao Mestre Andre de Rezende sóbe de ponto esta
antiguidade nestas formais palavras.
Entre os primeyros, que forão reconhecidos por christãos e dadas em memorial ao tirano
foy o gloriozo Santo Vicente, mancebo nobre, natural daquela cidade, e sem ter André
de Rezende, que durão hoje seus descendentez com o sobrenome de Cogominhos, os
quais viverão naquela cidade em tempo dos mouros sempre respeitados, e havidos por
gente nobre, e antiga, e sendo asim não prova pouca nobreza, quem mostra ter
ascendentes illustres a mil, e trezentos annos.
Hé esta Torre(5) entre as quais estão no campo fora das cidades, ou praças de armas a
mais forte, e mayor desta Província. Está cituada em hum alto della se descobrem vários
lugares de Portugal como são Monçaráz, Trena, Landroál, Portel, Évora cidade, Évora
Monte, Monte de Trigo, toda a Serra de Ossa pella parte de Sul, parte da Serra Morena
em Hespanha. Por sima hé toda cercada de ameyas, e com huma atalaya pella parte de
fora. Comprehende em sy várias cazas em três andares, ou pavimentos. Diogo Xavier //
(Diogo Xavier) de Mello Cogominho a tem aumentado e em nobrecido notavelmente,
acrescentandolhe hum quarto, que corre para a parte do Nortte e remata no um com
outra torre de igual altura que antigamente com tal fortaleza pellas muntas linhas de
ferro com que a forteficou, que não sentio ruina com cideravel no terremoto do primeiro
de Novembro de mil e sette centos e cincoenta e sinco. Actualmente se acha ajuntando
os matriais, quebrando pedras, fazendo fornos de cal e ladrilho para entrar este anno a
fazer para a parte do Sul outro quarto. Com respondente a este ficando no meyo huma
nobilissima escada de pedra mármore em dois lanços, a que com responde hum patio de
cecenta paços em quadra, temdo já em canado a agoa de huma copioza fonte por hum
aquedutto subterranio para dois tanques, e deste pasava para, hum lago com huma
cascata, em que finaliza a quinta pavoada de muntaz frutas, com huma rua, que vay
parar no meyo do lago, em que cabem dois coches à vontade, e tem sette centos paços
de comprido.
O território desta freguezia produz bastante trigo, sevada, senteyo, e grandes montados
de azinho, e sovro. As pastagens, ainda que não sejão as mais abundantes todavia são de
excelente qualidade para os gados; e seposto, que o ditto morgado tem mais de huma
legoa de comprido a sua freguezia se extende com mayor ambito comprehendendo fora
do ditto morgado algumas herdades, e tem ao prezente sincoenta vezinhos e athe
trezentas pessoas de sacramento.
Nesta freguezia da Torre dos Coelheyros nas terras do morgado aonde chamão a
Defeza de baixo ha hum sitio todo cheyo de minas e alicerces de cazas e muros em larga
distancia, e hums paredoens a que chamão a Mesquita(6), dentro das quais minaz se achão
grandissimas azinhevras; corre por elle huma ribeyra chamada dos Degolados depois de
aver corrido, e paçado por hum valle do mesmo nome. Tem por trasdirção [sic] os
senhores desta torre, que seus ascendentes (expuna) // expugnarão aquela terra, e
ganharão aos mouros; e que desde aquele tempo ficara áquele valle e ribeyra o nome
dos Degolados.
Porem disto não há mais certeza, que huma verossimilidade por no ser defilcultoza que
huma família, que teve parte tão principal na conquista de Évora, e de outras muntas
terras deste Reyno, e de Hespanha, como teve do Conde Dom Pedro, títolo trecevro. E
afirmão gravissimos historiadores destrohice aquela povoação e ganhacem a seu
território estando tão perto da sua torre. O que se acredita porque tendo, como fica ditto,
as terraz que os Cogominhos pesuem nesta freguezia mais de uma legoa de extenção, e
mais de quatro de circumferencia sem títolo de herança, compra, robrogação, doação ou
qualquer outro, são senhorez delas desde aquele tempo immemorial.
Isto he, o que posso informar a Vossa Excelencia a quem Deos guarde muntos annos
para amparo da pobreza, creditto de Potugal e exzemplar dos prelados. Torre dos
Coelheyros 19 de Junho de 1758.
O Padre Joseph Gomes Saramago


(1) Torre de Coelheiros: Freguesia rural do Concelho de Évora. O principal núcleo populacional e sede de freguesia é Torre de Coelheiros.
No séc. XVIII, S. Jordão, S. Bento de Pomares, S. Marcos da Abóbada e Torre de Coelheiros constituiam
freguesias autónomas; de 1911 a 1930, Torre de Coelheiros esteve anexada a S. Marcos da Abóbada, mas
em 1936 (DL n°. 27 424 de 31 de Dezembro), foi novamente dexanexada e ficou autónoma; em 1946 (DL
n°. 35 927 de 1 de Novembro) as três primeiras deixam de existir e passam a integrar a freguesia de Torre
de Coelheiros.
Área: 22 623 ha.
População presente: 802 hab. (Censos 1991)
O seu nome deriva da Torre construída pela família dos Cogominhos; é das aldeias mais antigas do
concelho de Évora, havendo prosas documentais da sua existência já em 1357, quando é constituido o
morgado da Quinta da Fonte dos Coelheiras.

(2) Concílio de Trento: “Décimo-nono Concílio ecuménico, convocado pelo Papa Paulo III. Abriu em 1545 e concluiu os seus trabalhos em 1563. Foi a necessidade de uma reforma na Igreja e a perturbação lançada nos espíritos pelas heresias de Lutero que determinaram a convocação deste concílio. Paulo III escolheu a cidade de Trento, situada no Tirol, porque ficava a meia distância da Alemanha e da Itália e parecia satisfazer os que recusavam um ou outro destes paises. Todavia, os protestantes, embora convidados com plena liberdade de discussão, não quiseram comparecer.” - Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira,
Vol. XXXII, pág. 719b)

(3) Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Torre de Coelheiros: o actual templo, embora profundamente modificado, conserva a fachada e o corpo da nave da época da fundação, que se deve a Nuno Fernandes Cogominho, no ano de 1554. A portada principal tem molduras renascentistas e o altar é barroco possuindo uma interessante escultura de Nossa Senhora do Rosário, datada do séc. XVII. No seu interior merece destaque a pia baptismal quinhentista, dois bancos de madeira trabalhados do séc. XVIII, estatuária, pintura, alfaias religiosas e alguns ex-votos populares do séc. XIX.

(4) Solar dos Morgados Cogominhos: Teve origem em meados do séc. XIV, quando foi construído o paço acastelado de Fernão Gonçalves Cogominho. Nos sécs. XVII e XVIII acrescentaram-lhe dois corpos laterais “com frente regular de dez janelas, cindo por banda de entrada, sobre dupla escadaria de granito. “Os primeiros Gogominhos comtenteram-se com a tôrre; depois fizeram alas só com pavimento térreo, no começo do século XVI ergueram o segundo pavimento só para salões” - Gabriel Pereira, Estudos Diversos, pág. 192. Em 1957, já em avançado estado de degradação, este edifício foi doado à CME pelo seu último proprietário, João Antonio Lagartixa, ficando então estipulado que as ruinas do edifício, devidamente restaurada sob planos a aprovar pela Direcção Geral do Monumentos Nacionais, seria destinado a edifício escolar, junta de freguesia e casa do povo.
Está classificado como “Imóvel de Interesse Público” - DL 41 191, de 18/7/1957.

(5) Existem neste local abundantes vestígios romanos, que ainda não foram alvo de estudo arqueológico, nomeadamente nos lugares denominados “Casarão da Mesquita”, “Atafonas” e “Atafoninhas”. É interessante e muito significativa a descrição destas ruinas apresentada por Mário Sá, As grandes vias da Lusitânea, Livro XIV, pp. 15-16, 53-56.

(6) Sobre a genealogia da Família Gogominha veja-se, por exemplo: A. F. Barata, Évora e seus arredores.
pp. 41-44.



Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.

Actualizado em Domingo, 20 Fevereiro 2011 22:26  


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