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São Salvador de Aramenha, 1758, Maio, 17 Memória Paroquial da freguesia de São Salvador da Aramenha, Comarca de Portalegre [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 4, nº 34, pp. 181 a 196]
/p. 181/ Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Esta freguezia do Salvador da Aramenha está no termo da Villa de Marvão distante della quazi meja legoa no destricto do Bispado, e Comarca da cidade de Portalegre e o seu orago he a Salvador do Mundo para a parte do Poente da dita Villa. Tem a sua Igreja Parrochial cituada em huma despovoada planice chamada o Prado que tera de comprimento meja legoa, e fica a ditta Igreja distante da Ribeira de Marvam hum tiro de balla. Achasse cercada de altas serras que sam; a da Portagem pella parte do Nascente; a de Sam Mamede pella parte do Sul; a do Carvalhal e Ladeira da Gatta pello Poente; a da Escuza, e Cabeça da Urra pella parte do Norte. Compoense a ditta Igreja de tres altares; hum na Capella major, som seos degrâos de cantaria, e seu retabollo de madeira pintado, o qual tem no mejo colocada a Imagem do Orago, e ao lado do Evangelho a de Sam Thiago, e ao lado da Epistola a de Sam Sebastiam; a este mesmo lado tem a porta da Sanchristia junto ao arco da mesma Capella que tambem he de cantaria, e tem suas grades de madeira, razas, que fecham a mesma capella. Ao lado do Evangelho do ditto arco da parte do corpo da Igreja /que he de huma sô nave/ estâ hum altar pequeno com seu retabolo de madeira pintado, no mejo do qual esta a Imagem de Nossa Senhora: com o soberano titolo do Amparo collocada em hum nicho; e do outro lado, esta outro altar correspondente com seu retabolo da mesma, e a Imagem de Nosso Senhor Jesus// /p. 182/ Jesus Christo colocada em huma crus em outro nicho, e no mejo da parede deste lado tem seu pulpito de pedra de fronte do qual na parede do outro lado tem huma porta travessa pequena, e por baxo desta outra por onde se entra para a escada de cantaria por onde se sobe ao campanario, em que está hum sino pequeno com que se convoca agente para os officios Divinos; a porta principal, da Igreja he grande tem portado de cantaria quadrado bem lavrado, e sobre elle huma pedra com hum letreiro que por ter muntas letras corrompidas do temporal senão pode mais do que = foi feito por mandado do Senhor Dom Diogo Correa sendo Bispo deste Bispado = e fica para a parte entre o Nascente e Sul. Nam pude alcansar noticia da fundação desta Igreja mas por ser mais antiga que as mais do termo da sobredita Villa de Marvam, e a de Sam Juliam sendo a mais moderna ser determinada pello Senhor Dom Julião Bispo Primeiro deste Bispado mostra ser antiquissima, he filial das duas freguezias da sobreditta Villa. O Parrocho desta freguezia he cura ao qual por immemorial posse costume provar o Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo deste Bispado sem que lhe seja apprezentado por pessoa alguma não recebe dizimos porque todos os que pagam os Parrochianos deste destricto vão para o montam das duas freguezias da sobreditta Villa e o cura so tem de renda annual dous mojos de trigo que lhe pagam os freguezes para o que fazem todos os annos os seis mordomos da Caza de Atribuição do que deve pagar// /p. 183/ Pagar cada hum cazal segundo a sua possebilidade, e familia por cuja cauza não deixam de fazer continuas queixas da iniquidade com que os Parrochos da Villa estão comendo o dizimos desta freguezia sem concorrerem para a fabrica da Igreja da mesma nem para o selario do cura, ao mesmo tempo, que concorrem para a da freguezia de Sancto Antonio das Arcas da qual recebem menos dizimos. Os passaes desta Igreja Parrochial sam hum chão tapado com suas arvores de fruta, castanheiros, parreiras e figueiras que se costuma arendar para seu rendimento se gastar em obras da mesma Igreja e não consta quem lha deixou nem que tenha pensão alguma, e fica de fronte da mesma e junto a este está huma limitada caza em que asiste o Ermitam, da mesma, o qual vive da sua agencia e das esmollas, que os freguezes lhe dam. Ao pé deste está huma tapada de Souto com suas sereigeiras, e caza a qual deixou a sobreditta Igeja haverá vinte annos. O Padre Manoel de Faria da Villa de Marvão, para com seos rendimentos se fazerem algumas obras na mesma Igreja elle impos a pensão de vinte e quatro missas em cada hum anno e tudo tende huns annos por outros doze ate quinze mil reis. Na primeira sexta feira de Março de cada hum annos concorrem nesta Parrochial Igreja muntas pessoas não da Villa de Marvão, mas tambem da Villa de Castello de Vide ainda que com menos concurso do que antigamentee de tradição antiga esta concedida certa indulgencia aos que no tal dia a vizitão porem não pude descobrir a bulla, nem noticia della nem individuação da indulgencia. Compoen-se// /p. 184/ Ermidas Compoen-se esta freguezia de duzentos e doze cazaes cituados em varios citios que a baxo referirei e de quinhentos e noventa e huma pessoas de communhão, e cento e tres menores, e cento e oitenta e seis Innocentes que por todas fazem oitocentas e oitenta e quatro pessoas. Tem tres Ermidas filiaes: a de Senhora da Esperança no Monte da Escuza; a de Sam Simiam no Monte do Porto da Espada; a de Sam Silvestre junto â ponte nova da ribeira. Dista esta Igreja Parrochial pouco mais de legoa e meia da cidade de Portalegre Capital do Bispado para a parte do Nascente, e trinta e seis legoas da cidade e Corte de Lisboa Capital do Reino para a mesma parte. Aldeas Os montes principaes desta freguezia são o da Escuza que tem noventa e hum cazal, duzentas e quarenta e tres pessoas de communhão, trinta e sinco menores, e setenta e oito Innocentes. O do Porto de Espada que tem quarenta e hum cazal, cento e vinte e duas pessoas da communhão, vinte menores, quarenta e quatro Innocentes. A do Carvalhal que tem sette cazaes vinte pessoas de communhão sinco menores, hum Innocente; e as Reveladas tem vinte cazaes quarenta e nove pessoas de comunhão onze menores, dezaseis Innocentes. Os Alvarroins que tem oito cazaes, vinte e seis pessoas de communhão, sete menores, onze Innocentes; a Ribeira Ferraria, e mais citios circumvezinhos que tem quarenta e sinco cazaes, cento e vinte e oito pessoas de communhão vinte e nove menores, trinta e seis Innocentes, e a este numero de cazaes e pessoas tem crescido desde o anno de mil e settecentos e seis em que /segundo consta do livro do lançamento do ditto anno/ este freguezia e todas as mais// /p. 185/ As mais do termo da sobreditta Villa sô tinhão sesenta e seis cazaes, e ainda hoje se estam vendo por todo o termo muntas cazas despovoadas, e grande numero dellas aruinadas de todo, por não haver quem as povoe tanto assim que a freguezia de Sam Sebastiam dos Galegos /a qual fica junto da araja de Castella huma legoa distante da Villa para a parte do Sul e foi demolida na guerra da aclamassão/ ainda hoje se acha sem cura por não haver quem lhe pague de sallario; e a fabriqua do necessario; e he parrochia da por alternativa pellos Parrochos das duas freguezias da Villa, que se utilizam dos dizimos daquelle districto, da mesma forma que percebem os desmais [sic] do termo da mesma Villa. Perto desta Parrochial Igreja para a parte do Sul se estam vendo na mesma planice os vestigios da cidade da Aremenha, os quais são asentes de torres, alicerses de cazas, e muralhas com muntas cantarias fabricados com tambem temperados materiaes que não he facil fazer lhe despedir as pedras delles por mais delegencia que se faça; nesta cidade asistião os Aramenios gentios, e por hum instrumento feito pello Escrivão da Camera que servio há muitos annos na ditta Villa de Marvão consta que o Reverendo Padre Mestre Doutor Joam Garção Religiozo que foi da Companhia lhe afirmou /quando se tirou informação semelhante, a esta para a Academia deste Reino/ tinha hum livro em que constava que a ditta cidade fora conquistada e demolida pello Emperador Julio Cesar trinta annos antes da vinda de Nosso// /p. 186/ Nosso Senhor Jesus Christo havera trinta e oito que deste citio levaram para a Villa de Castello de Videhum grande portado de cantaria bem lavrado que mostrava ser o principal da ditta cidade, o qual puzeram, na porta principal, que de novo se fés para a ditta Villa e fica para a parte do Sul, e se chama a porta da Aramenha; estava esta cidade contigua a ribeira que que a cercava pella parte do Nascente, e do Sul; a terra em que esta cidade estava cituada, esta reduzida cultura, e nella se predus bom trigo, e senteio, e quando não esta semeada são os pastos que produs communs para os moradores da Villa de Marvão os comerem com seos gados levremente por merce que delles lhe fes o Serenissimo Rey Dom Manoel no foral que deu a ditta Villa feito no anno de mil, e quinhentos e doze annos. Serra A Serra da Portagem, que fica diante desta Parrochial Igreja para a parte do Nordeste, discorre do Norte ao Sul, e he quazi da altura do monte, em que a Villa de Marvão está cituada, de pouca largura e tem de comprimento des mil e duzentas e sincoenta brassas ate dar na Serra de Sam Bras que fica contigua, e discorre do mesmo modo com outra igual distancia ate onde esta freguezia se divide da de Sam Juliam em cujo citio principia a Serra fica sam as dittas serras do meio para sima do Conselho, e quazi todas chejas de matto de jojna brava da sepa da qual se fas quotidiannamente munto carvam que se vai vender a terras circumvezinhas por pessoas pobres que do seu producto se sustentão, e as suas familias, nellas se crião alguns coelhos, e perdizes, e muntos lobos, e pastam alguns rebanhos de gados; do mejo para baxo são as terras dos particulares, e pella parte do Nascen// /p. 187/ Do Nascente tem doze nascimentos de agoa na meia costa, que nam ha memoria se tenham secado de todo, nam ainda nos annos maiores securas, e tem muntos soutos nas terras dos particulares, e teria muntos mais se se executasse o que dispoem á ordenaçam livro primeiro titolo sincoenta eoito paragrafo sincoenta e seis, titolo sesenta paragrafo quinze, e sesenta e seis paragrafo vinte e seis, cuja execussam seria munto util tanto para o publico de hum, e outro foro, como para o particular. A mesma Serra para a parte do Poente tem no principio alguns soutos e a nascente destes, o matto de azinhal chamado de caleira, por estar todo chejo de pedreiras de cal preta e branca e ter alguns fornos em que se coze dos quais ao prezente so servem dous, o arvoredo do ditto matto he do Conselho da Vila de Marvão. No principio deste matto para a parte do Poente sendo no alto de huma das dittas pedreiras hum buraco de sinco palmos de largo pello qual se desce em profundidade de vinte palmos sempre por pedra firme e desta nasce hum fojo que se encaminha para a parte do Sul com dobrada largura, pello qual descendo outra tanta profundidade se entra em hum vão que terâ mais de vinte palmos de largo, e trinta de comprido com bastante altura e vai profundandosse com semelhantes descidas sempre por entre pedra viva: no meio do mesmo matto em outro cabeço de outra pedreira, junto a hum forno se acha huma cova grande chamada a da Moura a qual ainda [Pátio da Moura] que está ja munto entulhada, tem de profunda os trinta e quatro palmos, e de larga do Norte ao Sul sincoenta e seis, e do Nascente ao Poente quarenta e dous, e para a parte do Norte tem hum fojo grande, e largue segundo as antigas tradiçoins he muito comprido e foi feito, para meniral de ferro segundo os vestigios// /p. 188/ Os vestigios que naquelle citio se tem visto; dentro desta cova nasce por entre a pedra viva a erva chamada lingua servina muito util para quem padeçe inchassos no estomago. Discorrendo deste matto para o Sul pella mesma costa da sobreditta Serra se seguem muntas terras, em que se costuma semear trigo, e senteo, e bons soutos, e olivaes, e o Monte do Porto da Espada a entrada do qual se acha na costa da Serra hum nascimento de agoa muito copiozo com que se regam alguns pumares e no simo do mesmo monte outro nascimento maior do que o sobredito, que serve para se regarem todos os pumares, e hortas que discorrem do simo do mesmo monte ate afundo em ha muitas arvores de fructas, e par[r]eiras, figueiras, nogueiras e sereigeiras e se criam muntos linhaes (e para os ministerios das cazas dos moradores, que são quarenta e hum e se compara das pessoas, que a sima vam rellatadas no ditto monte se acha huma Ermida da qual he orago Simião cuja Imagem esta no meio do unico altar que ha na ditta Ermida e ao lado do Evangelho a Imagem de Nossa Senhora da Orada e a do Senhor do Bom Fim, e ao lado da Epistola a de São Bento, tem a porta para Sul e junto a ella hum campanario com huma pequena campa, tem missa todos os dias de preceito que vai adzir [sic] hum capellam ao qual pagam os moradores do ditto monte; adiante deste se segue outra pedreira de cal preta e branca e hum forno em que se coze e mais adiante hum nascimento de agoa, a que chamão a Fonte Sancta toda a costa do lado desta Serra se havião de produzir boas vinhas e olivaes segundo mostra a experiencia de alguns que nella se tem plantado todo este citio he de bom temperamento e por isso ha nelle poucas infermidades. A Serra de Sam Mamede que tambem he do Conselho tem no destricto desta freguezia duas mil e quinhentas e quarenta braças de comprida he mais alta do que a da Portagem, e tem bastante largura, e se continua pello termo de Alegrete e de// /p. 189/ E pello da cidade de Portalegre, e os divide do da Villa de Marvão pello cume da sua altura tem bastante largura tem no seu nascimento para as partes do Nascente e Norte varios cabessos, e nestes o monte das Reveladas, que se compoem do numero de cazaes e pessoas asima rellatadas aonde se encontram dous nascimentos de agoa hum nas Reveladas de Sima, e outro no citio do Gafette que referirei quando falar na Ribeira, e para a parte do Sul, e Poente nascem da mesma as Ribeiras de Sevora, Severete, a de Alegrette, Caja, Cajolla, e da Consogra, he quasi toda de terra maninha cheia de matto de joina de que se fas munto carvam para as terras circumvezinhas, cria algumas perdizes, e coelhos, e na mesma pastam muntos gados, e tem alguns soutos, nas terras, que os particulares por serem boas tem reduzido a cultura, o seu temperamento he menos bom, do que a da referida, e por isso ha nella mais doenças. Serra A Serra da Ladeira da Gatta, que tem principio no termo de Castello de Vide e discorre pello termo da Villa de Marvão dividindo o da dita cidade de Portalegre, pella parte do Poente pello cume da sua altura, que he semilhante ao da Serra da Portagem, e fenece para a parte do Sul no destricto desta freguezia junto a Ribeira da Magdalena, tem para a parte do Nascente muitos soutos, e grandes pumares, e alguns nascimentos de agoa copiozos, que referirei quando falar da Ribeira aonde se metem sem o do citio do Montinho, com que rega muitos pumares, e do qual se servem os moradores da Escuza aos annos de seca em que não lhe basta a fonte que tem no simo do ditto Monte, e outro no citio do Ribeiro do Pinheiro, com o qual pode andar qualquer engenho, e serve para regar alguns pumares junto a esta Parrochial Igreja, aonde tambem corre para huma pia grande de cantaria em que bebem as bestas em que os Parrochianos vem a dita Igreja para aqual he conduzida por huma valla feita na superfice da da terra em distancia de mejo [sic] quarto de legoa, em que da bebida a muntos gados que pastam naquelle citio// /p. 190/ Serra A Serra da Escuza e Cabeça da Urra, que tem principio da parte do Norte no termo de Castello de Vide e findo no prado desta freguezia perto da Ribeira, para a parte da Nascente he quasi toda maninha com muitos joinaes de que se fas carvão e tem alguns soutos na que se tem reduzido a cultura; e nelles o nascimento do Ribeiro das Ferrarias, que se vai meter na Ribeira sobredita; e para a parte do Poente he quasi toda lavradia com boas terras, para vinhas, e olivaes, e tem muntas pedreiras de cal preta, e branca de que se utilizão muntas terras circumvezinhas e tem de comprimento meia legoa, e junto as pedreiras dous fornos em que continuamente se coze cal e junto a ella quasi no mejo esta cituado o Monte da Escuza, que se compoem dos cazaes, e pessoas asima referidas, tem este monte Juis, e Escrivam da Vintena, eleitos, e sogeitos da Camera e Juis de Fora de Marvão, e no fundo do monte junto a estrada que vai para a Villa de Castello de Vide huma Ermida grande de que he orago Nossa Senhora da Esperança aqual tem sua Capella major de abobeda e nella hum altar com seos degraos de cantaria, em o qual esta dentro de hum nicho a Imagem da Senhora, tem sua Sanchristia com porta para a mesma capella, e no arco de alvanaria humas grades de pâo razas, que fecham a dita capella, ha nesta Igreja missa todos os dias de preceito, aqual vai celebrar hum capelam aquem pagam os moradores do mesmo monte e no simo deste esta huma fonte de que aquelles uzam tanto para suas cazas, como para regarem os muntos pumares, e hortas, que ha no mesmo monte esta fonte em alguns annos de grande seca e diminue munto na sua corrente, as cazas do monte estão quasi todas cercadas de latadas de parreiras, que produzem munto boas uvas, o temperamento he bom, e de poucas infermidades o plano que esta entre esta Serra, e a da Gatta no destricto deste monte esta todo cuberto com grande soutos, que produzem munta castanha. Ribeira /p. 191/ Ribeiras varias A Ribeira que corre perto desta Parrochial Igreja tem os seos nascimentos no destricto desta freguezia e os mais principaes sam: o da Ribeira das Naves; os da Robeira das Reveladas, o da Ribeira da Magdalena; o dos Olhos Dagta [sic]; o do Ribeiro das Tructas; tem no destricto desta freguezia vinte nove engenhos, a saber: des asenhas, treze moinhos e seis pizoins, e huma ponte toda de cantaria, citios nos lugares, que abaxo declararei: A Ribeira das Naves nasce na costa da Serra de Sam Mamede da parte do Nascente de fronte do Monte do Porto da Espada, aonde esta freguezia confina com a de Sam Juliam, e vem sempre correndo para a parte do Norte ao longo da Serra, por Serra fragoza concurso arebatado ate a fonte dos Coelheiros aonde o nascimento desta fonte se lhe ajunta, cria alguns pexes, e munta truta, não sem engenho algum, porque alguns annos deixa de correr com distancia de hum quarto de legoa, aonde chamão as juntas perto do citio do Pizam Novo, entra na Ribeira das Reveladas. A Ribeira das Reveladas tem hum nascimento nasce na mesma Serra de Sam Mamede da parte do Norte no citio das Reveladas de Sima com tanta abundancia de agoa, que logo a poucos passos fas moer huma asenha ainda nos annos de maiores securas, e vem correndo sempre por entre Cabessos da Urra com curso munto arebatado por terra munto fragoza e em breve espasso se lhe ajunta outro nascimento, que tem principio aonde chamão o Gafette das Reveladas, o qual por si so tambem, em breve espasso fas moer outra asenha da qual passa para outra que se lhe segue, e emtam se ajunta com o sobredito nascimento, e juntos ambos vem correndo por entre serras e sofridos Com curso /p. 192/ Com curso tam arebatado que nam tem asude algum e fazem moer mais sinco asenhas ate se incorporarem na Ribeira das Naves; criam muntas trutas, e alguns pexes, e nam ha memoria, que deixassem de correr com agoa bastante para moerem os dittos engenhos ainda que sejam annos de munta secura. No destrito desta freguezia para a parte do Poente em hum plano, que fica entre a Serra de Sam Mamede, e a da Gatta no citio dos Alvarroins nasce a Ribeira da Magdalena e corre o seu nascimento do Sul para o Norte ate o Monte do Carvalhal, aonde por entre grandes rochedos volta para Sul e fas moer huma asenha em todo o anno, e ainda hoje se achão alicerses, paredes, e cannos grandes cantaria de outros engenhos, que havia no ditto citio, e chegando a estrada que vai para a cidade de Portalegre em hum porto, a que chamão as passadeiras da Magdalena, volta para o Nascente e em pouca distancia se vem meter na sobredita ribeira, no citio da Asenha Branca, aonde era a porta principal da cidade de Armenia, que asima se rellatou, he a Ribeira da Magdalena de menos agoa, e por isso cria menos pexes. Os olhos dagoa [sic] nascem na costa da Serra da Portagem para a parte do Poente perto do matto da Caleira em terra fondeira ao Mosteiro das Religiozas de Sam Bernardo da cidade de Portalegre am tres nascimentos na distancia de seis passos, e tam abundantes de agoa, que o tiro de balla fazem moer ao mesmo tempo juntos huma asenha e hum moinho de cubo, sem mais asude que huma baxa repreza para senão extraviar a agoa, e mais a baxo fazem andar hum pizão e por baxo deste se metem na ribeira sobreditta, não crião pexes porque ficão mais altos que a ribeira e pella pouca fundura da sinja Com a agoa /p. 193/ Com a agoa dos mesmos se regam nos Domingos os feigoes, e pumares circumvezinhos que estam nas terras foreiras ao sobreditto Mosteiro. Todos os sobredittos nascimentos juntos fazem huma grande ribeira que corre para o Norte e em breve espasso tem hum asude com hum grande pego da onde corre agoa por huma levada para tres moinhos que se seguem separados ate aonde principia a Serra da Portagem, aonde lhe entra o Ribeiro das Tructas. O Ribeiro das Trutas tem seu nascimento na costa da Serra da Ladeira da Gatta para a parte do Nascente entre o Montinho da Escuza e Ribeiro do Pinheiro em terra baldia, e dali corre direito a parte do Sul pello mejo do prado, e por baixo da estrada que vem do Salvador se lhe ajuntam dous olhos grandes de agoa, que nascem, perto de hum castanheiro, e nam ha memoria deixassem de correr em tempo algum e vem direito a huma ponte pequena de pedra que tem hum do arco de cantaria, e serve somente para passagem do ditto ribeiro e perto da ditta pella parte debaixo entra na ribeira sobreditta tambem este ribeiro cria alguns pexes, e trutas, e em toda sobredita distancia, senão uza da sua agoa para couza alguma mais do que para beberem os gados, que pastão no ditto prado que he munto plano e humido. Juntos todos estes nascimentos sobreditos volta a ribeira para o Nascente o seu curso, e logo tem outro asude com huma peguia e para hum moinho chamado da Amoreira corre agoa por huma levada, em pouca distancia, e logo esta outro asude major do qual corre agora para sinco moinhos. /p. 194/ Moinhos que se seguem em lugares distinctos, por baixo deste asude entre na Ribeira o Ribeiro das Ferrarias, que asima se dice nasce na Serra da Cabeça da Urra para a parte do Nascente, este Ribeiro cria alguns pexes e muntos annos deixa de correr. Neste mesmo citio está huma ponte grande toda feita de cantaria com seos bordos em sima tambem de cantaria tem sinco arcos todos formados sobre penha viva, tem de vam entre os bordos dezaseis palmos, de comprimento trezentos, e dezoito, e na major [sic] altura setenta e sette, e para a parte do Sul esta huma torre sobre hum penhasco que mostra ser feita para atalaja para se defender a ditta ponte, que da serventia a estrada que vem de Castella para este Reyno, e a muntas terras por estar perto da Alfandega da Portagem, e não haver outra em que se passe a ditta Ribeira em distancia de meja legoa e perto da mesma ponte para a parte do Norte o tiro de balla está a Ermida de Sam Silvestre que tem hum so altar com a Imagem do dito Sancto em hum nicho no mejo de hum retabolo de madeira de madeira nem tem esta Ermida rendimento algum, nem se dis missa nella em dias determinados. De huma carta de morte do Serenissimo Rej Dom Denis e a Serenissima Rainha Dona Izabel sua molher fizeram ao Conselho da Vila de Marvão e a seos moradores, para poderem pescar em toda a Ribeira com qualquer genero de armadilha livremente exceptuando da ponte para sima porque em tempo do Senhor Dom Afonço seu Irmam se mostra que a ditta ponte foi feita ha mais de quatrocentos e vinte annos, porque a ditta carta foi dada em Lisboa a vinte e sette de Junho de mil e trezentos e trinta e oito como se ve da sua copia no Livro do Tombo da Camera desta Villa. Desta ponte para baxo corre a Ribeira para a parte do Sul em todo o destricto desta freguezia e por baxo dos moinhos ja dittos Tem /p. 195/ Tem outro asude major que os sobredittos, da onde parte huma levada, pella qual se encaminha agoa para mais tres moinhos e mais a baxo esta outro munto major, e de major fundura da sahe agoa por outra levada para tres pizoins, e mais a baxo esta outro asude com outra levada por onde corre agoa para dous pizoins, e então torna a voltar a ribeira a seu curso para a Nascente, e finda o destricto desta freguezia, e principia a da de Sancto Antonio das Areas aonde tem outros muntos moinhos e pizoins, e outra ponte munto moderna. Por todos os sobreditos citios corre a Ribeira arebatada e tem todas as vargens cheas de tapadas com suas hortas, pumares, soutos e nas rebanceiras muntos amieiros, e quasi todas se semeão de feijoes, que se regam com agoa da ditta ribeira todos os Domingos, em que somente he livre, por senão impedir o curso dos engenhos que não só servem para os moradores de Marvão, o seu destricto, mas tambem para os de Castello de Vide, e cidade de Portalegre, e nos annos de seca para toda esta Provincia de cuja terras concorrem muitos a moer farinhas, e pizoar pannos e não ha memoria que em tempo algum deixasse de correr com bastante agoa para os dittos engenhos, e os mais, que estão fora do destricto desta freguezia. Os pexes desta ribeira são muntos estimados e ainda aos enfermos se conçede a com ellas, ella munto abundante delles e as pescarias livres em toda a ribeira excepto nos mezes dados por direito; os fructos que nesta freguezia se recolhem com mais abundancia, he castanha, feijam, e fructa de guarda. Estas são as notiçias que pude alcansar para a informação que Vossa Excelencia Reverendissima me ordenou e para tudo o mais fica a obediencia de Vossa Excelencia Reverendissima a quem dezejo Guarde Deus por muitos anos Salvador da Aramenha de Majo 17 de 1758 De Vossa Excelencia e Reverendissima Subdito o mais venerador e muito humilde criado O Cura de Salvador João Rodriguez Camillo [assinatura autógrafa]
Transcrição: Ofélia Sequeira
Seda, 1758, Abril, 12 Memória Paroquial da freguesia de Seda, Comarca de Estremoz [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 34, nº 97, pp. 761 a 774]
/p. 761/ Noticias que della se pedem, são as seguintes dadas pellos mesmos artigos da Comisão A primeiro – Chamase esta povoacão a Villa de Seda; o seu nome antiguo foi Arminho; e he tradicão antigua que estando o seu Castello tão bem chamado Arminho em poder dos Mouros; e combatendoo os nossos portuguezes com todo o valor, e defendendose os mouros com o mesmo, depois de grande porfia, o Capitão dos nossos lhe mandou dizer que se persistão na resistencia, e elle vencesse tudo passaria a espada; e tendo o que levou o recado negociado o fim pera que fora; subio ao muro, e disse em vox alta pera os de fora não he necessario combater, mais a fortaleza porque já se dâ; e desta palavra e pronunziando o a breve, e com brandura, he que teve origem o chamar se esta Villa Seda, e perder o antiguo nome de Arminho; e assim o testifica e refere o Doutor Antonio Gonsalves de Novaes na relacão que dadas couzas deste Bispado de Elvas o fim da constituicão delle. Fica esta Villa na Provincia do Alentejo, pertençe ao Bispado de Elvas, tem termo seu e proprio que chega a Villa da Ponte do Sor pera o Poente, e são quasi quatro legoas e pera o Nascente se estende duas; He da Comarca de Estremos que rege, e vizita o Provedor de Evora; e he por si freguezia, e Matris de outras// Ao Segundo – He esta Villa do Mestrado de Avis por doacão que fes aos Cavaleiros della El Rey Dom// /p. 762/ Affonco o Segundo, e na Jurisdicão da dita Villa esteve the o anno de 1427 = e em trinta de Outubro El Rey Dom João o primeiro estando em Braga lhe fes, a merçe do titulo de Villa com todas as proeminencias, e regalias que como a tal lhe sao devidas; assim o refere o mesmo Novaes citado; e de prezente ainda pertence ao mesmo Mestrado e Gram Mestre das tres Ordans Militares. Ao 3º - Tem a Villa em si cento e quarenta e sinco vezinhos ou fogos; e fora em montes, e herdades quinze; e pessoas na Villa quatrocentos e sinco; e nos referidos montes e herdades sincoenta e nove, como tudo consta do Rol de Conficão do prezente anno de 1758 = Ao 4º - Esta situada em hum serro; do qual se descobre a Villa de Avis que dista tres legoas, e a de Fronteira na mesma distancia; Evora Monte na de oito. O Castello de Estremos na de sette, a de Alter do Chão na distancia de duas, Alter Pedrozo na de duas e meyo, o Cratto, e a Torre da Igreja da Senhora de Flor da Roza na de tres; Aldea da Matta na de duas; Ao 5º - Tem termo seu, como fica dito, o qual// /p. 763/ O qual tem dentro em si a freguezia, e aldea de São Pedro da Ervideira; e a freguezia de São Domingos da Sarrazola, das quais he Matris a Igreja de Seda. Ao 6º - A Igreja Matris desta Villa esta fora della, mas quasi contigua em hum alto, e tem annexas a ella as referidas freguezias de São Domingos da Sarrazola, e São Pedro da Ervideira, regidas cada huã por distinto Parocho freyres do Convento de Avis. Ao 7º - O orago desta Matris de Seda de Nossa Senhora do Espinheiro; tem sinco altares; a saber o altar mor com sua tribuna de entalhado em que esta a imagê da Senhora em hum trono; o da Senhora do Rozario, outra da Senhora da Conceipcão, outra das Almas; e outro novamente erigido de pedassos do retabalo velho do altar mor, inda sem titolo, e nelle se intenta por o coracão de Jesu; tem huma só nave. Tem quatro confrarias; a saber a do Sanctissimo Sacramento, a da Senhora; a das Almas; e a da Ermida de São Marcos que esta no termo, e lhe he annexa. /p. 764/ Ao 8º - O Parocho desta matris de Seda tem o titulo de Prior, he aprezentado do Governo Mestre das tres Ordens Militares pello tribunal da Meza da Consciencia, e he da Ordem de Avis; tem de Congrua que lhe paga o Comendador da dita Villa do Celeiro della e dizimos dois moyos e meyo de trigo; dois moyos de sevada, e de seleiragem do dito celeiro moyo e meyo de trigo; e em dinheiro vinte mil reis. O pê de altar he muito tenue e rendera the quinze mil reis. Ao 9º - Tem esta matris dois beneficiados freires de São Bento de Avis, aprezentados pello Grão Mestre das tres Ordens Militares, pella Meza da Consciencia tem de sua Ordinaria e Congrua dois moyos de trigo, e moyo e meyo de sevada e des mil reis em dinheiro pago tudo pello Comendador da dita Villa; são beneficios curados e nas offertas dos officios levão ambos que entre si reparam a metade, e a outra a metade o Prior, mas tudo isto vem a parar em couza muito tenue no fim do anno porque annos ha que nemhum officio se fas. Ao 10º - Não tem Convento algum// /p. 765/ Ao 11º - Tem esta Villa huma Caza terrea e hum sotão a que chamão hospital, não tem por si renda alguma, mas nos poucos gastos delle assiste a Mezericordia desta Villa por cuja conta corre a sua administração. Ao 12º - Tem Caza de Mizericordia, instituida no anno de 1583 = no primeiro de Outubro por graça, e merçe do Senhor Rey Dom João como Grão Mestre e Governador da Ordem de São Bento de Avis, e confirmada por El Rey Phelipe por provizão passada em 20 de Setembro de 1600 = na qual se concedeo que os bens de huma Capella que havia na dita Villa do Gloriozo São Bento, e erão administrados pellos Juizes, e Vereadores, dahi em diante filassem os seus rendimentos pera a dita Meziricordia, ficando esta obrigada a mandar dizer em cada hum anno trinta missas na Capella do dito Santo pellas dos defuntos que deixarão os ditos bens, e proverem a dita Capella de todo o seu necessario; o que tudo consta das provizões registadas no tombo da dita Mizericordia f. 277 v f. 278. E informandome de todos os rendimentos que tera a dita Mizericordia, tera oitenta athe noventa mil reis huns annos por outros em cada hum anno.// /p. 766/ Ao 13º - Tem esta Villa nove Ermidas, a saber a roda da Villa a de São Sebastião, 2ª a de São Bento ja referida e que prove a Mizericordia; 3ª a de São Pedro; 4ª a do Espirito Santo; 5ª de São Francisco; 6ª a de Santo Antonio em distancia de quarto de legoa; 7ª a de São Bernabe, em distancia de huma; 8ª a de São Marcos Evangelista em distancia de outra; 9ª e ultima a da Senhora dos Prazeres, em distancia de duas legoas, onde chamão Alparrajão, no qual sitio houve antiguamente hum Castello ou Villa que foi destruida em tempo dos Romanos, e os que das suas maos escaparão vierão fundão a povoacão que hoje se chama Seda; refereo assim o citado Novaes; Ao 14º - A Ermida de Nossa Senhora dos Prazeres referida foi antiguamente de muita ro[ma]gem; e hoje ja menos frequentada; os que inda nos prezentes tempos alguas vezes ahi vaõ são os moradores desta Villa de Seda; e com especialidade e maior concurso vaõ no seu proprio dia, com seu pendro a fazer lhe festa e assim os da Villa de Castel da Vide em oito de Setembro todos os annos inda que haja guerras; os da Villa de Ponte do Sor tãobê alguns annos ahi vem, mas não tem dia certo; e dos mais povos circumvezinhos algumas pessoas, mas raras vezes vão vizitar a mesma Senhora.// /p. 767/ Ao 15º - Os fruitos que esta Villa colhe em mais abundancia são trigos, e algum azeite. Ao 16º - Tem dois Juizes Ordinarios que se elegem por pelouro, e confirma o Ouvidor de Avis por ser da sua Correicão; tem Camera com Vereadores, e Procurador sem sujeicão a outra justiça. Ao 17º - Não he Couto, nê Beetria, nem Honra e que entendo da doutrina de Cabedo fl. 200 e do Elucidario de Bento Pereira nº. 1188, e tem Concelho regido pellos Juizes Ordinarios e Vereadores desta Villa. Ao 18º - Não achei noticias de que desta Villa sahisse homem ou pessoa insigne em virtude armas ou letras; e so sahio della hum Frey Dioguo Cutella e chegou nos annos atras a ser Provinzial dos terseiros de São Francisco de que foi religiozo, e ha poucos annos morreo. Ao 19º - Tem dia deputado pera feira que he des de Agosto, e he livre, mas hoje sem concurso algum de gente que a ella venha. Ao 20º - Não tem correyo, aos seus moradores, huns se// /p. 768/ Servem do correyo de Alter do Chão que dista duas legoas, outros do de Avis que dista tres, segundo portadores achão, por que não tem o Conselho, e Camera de Seda estafeta. Ao 21º - Dista esta Villa de Seda da cidade Capital do Bispado que he Elvas nove legoas, da Corte e cidade de Lisboa vinte e sinco. Ao 22º - Nada. Ao 23º - Ha no termo desta Villa junto a Senhora e Ermida dos Prazeres huma fonte, e outro posso junto a Villa no sitio em que antiguamente estiverão vinhas, dos quais refere o Doutor Novaes citado, que a agoa da fonte he tão fria que se a noite lhe lancão peixe, pella manham os achão mortos, e com os olhos extravassados; e que com as agoas do posso se não coze carne; mas os moradores desta Villa inquiridos, como não fazem de prezente experiencia das referidas fontes, so afirmão o mesmo por tradicão. Ao 24º - Nada. Ao 25º - Teve antiguamente seus muros, ex Castello de que inda ha alguns vestigios e pedassos de muro.// /p. 769/ Ao 26º - Não padeceo, a Deos gracas, ruina algũa sensivel no terremoto do anno de 1755. Ao 27º - Nada que se relate. Nem tão bem do que se procura da Serra e couzas della, por que a não tem, mais o que o Serro pequeno, em que esta situada. Rio Noticias delle são as seguintes: Ao primeiro – Chamasse a Ribeira de Seda, corre distancia de tiro de bala por junto da Villa, nasce do pê da cidade, e cidade de Portalegre. Ao 2º - Corre somente de Inverno, e tem grossas enchentes; mas do consso [sic] pera baixo corre todo o anno. Ao 3º - Por baixo da Villa do Cratto em tiro de peça entrão nella duas ribeiras mais pequenas, huma se chama Chozanal que nella entra pella parte do Norte, e outra chamada Linhares que entra da parte Sul; por sima desta Villa em distancia de meya legoa entra nella outra chamada Cugancas pella// /p. 770/ Parte do Norte, e logo mais abaixo outra da mesma parte mais pequena que se chama Alfeijolos; corre a ribeira de Seda para as partes de Avis; e perto desta Villa se mete na ribeira chamada de Fronteira, e ahi ambas passão por onde chamão o Maranhão; mas antes de chegar a meterse na ribeira de Fronteira em Avis entre nella outra junto a Benavilla chamada a ribeira da Sarrazola que vem do Nascente; e proximo a Villa do Cabecão quasi quarto de legoa pella parte do Sul entra nella a ribeira chamada Ter[a] que vem de Pavia; e na aldea de Santo Antonio do Cousso pella parte do Norte entre nella a ribeira do Sor; e da mesma parte na Villa da Erra entra nella outra do nome desta Villa; e abaixo da Erra da parte do Sul entra nella outra chamada Odivor. Ao 4º - No tempo de Inverno, e quando ha enchentes navegão por ella barcos de Coruxe pera baixo. Ao 5º - He de curso quieto em toda a sua distancia, e sô abaixo da Villa de Mora meya legoa tem despenhadeiro onde chamão o furadorio.// /p. 771/ Ao 6º - Corre do Nascente pera o Poente. Ao 7º - Cria bordalos, barbos, pardelhas, bogas e quando chega a Villa de Mora, e Cousso ja tem tainhas, salmoes, e saveis que sobem do Tejo. Ao 8º e 9º - Tem huma pesqueira por sima da aldea do Santo Antonio do Cousso onde chamão o Engal, e no furadorio por baixo de Mora outra, e esta se dis ser do Excelentissimo Conde do Vimieiro e em toda ella mais, pesca livremente quem quer. Ao 10º - As suas margens em a Villa de Mora são povoadas de vinhas, dahi abaxo admitem suas margens muito agricultura de pão e no termo do Cratto, Alter do Chão, Seda e Benavilla as suas margens em muitas partes tem montados de bolota. Ao 11º - Nada. Ao 12º - Esta ribeira de Seda chamouse antiguamente// [p. 772] Antiguamente Arminha dis Novaes cita do por ter seu principio na Serra da Aramenha perto de Portalegre, onde foi aquella antigua cidade de Medobriga, athe logo por baixo de Avis tem o nome ou Ribeira de Seda, e dahi vay tendo os nomes das terras por onde passa que são Maranhão, Cabecão, Mora, Coruxe, e no Cousso se chama Sorraya. Ao 13º - Em Benavente entra no Tejo. Ao 14º - Tem em primeiro lugar a falta de agoas que fas se não navegue pera sima de Coruxe; e em segundo lugar abaixo de Mora hum despenhadeiro onde chamão o furadorio. Ao 15º - Tem junto ao Cratto hũa ponte na estrada que vay pera a Villa de Alter outra logo mais abaixo onde chamão o moinho da Ordem; outra em meya legoa de distancia por sima desta Villa da Seda, he obra mui forte, e de excellente archytectura, fabricada de pedras de cantaria grandisimas tão unidas que parecem huma,// /p. 773/ Sem se enxergar couza em que pudesse haver, tem seis arcos; os bordos de ambas as partes são tão largos que Novaes citado na narração que fas da Villa de Alter do Chão e dis que hum homem pode correr por elles a cavalos, como se conta aconteceo passando por elle El Rey Dom Philipe 1, quanto entrou neste Reyno, e hia a fazer cortes a Thomar; e acrescenta que ventura seria o seu author o mesmos officiaes que fizerão hũa das tres vias militares que fale de Benevente athe Merida, e mandou fazer o Emperador Antonino; esta ponte se chama a Monte de Villa Fermoza. Ao 16º - Por sima da Villa do Cratto quasi huma legoa tem esta Ribeira de Seda hum moinho, de fronte do Cratto, dois hum por baixo da ponte que vay pera Alter, outro no caminho que vay pera esta, Villa de Seda, outro onde chamão o pego do cepo, mais abaixo outro por sima da ponte asima referida de Villa Fermoza outro abaixo desta Villa; e em a Villa de Cabecão e Mora tão bem dahi ha moinhos nesta ribeira. /p. 774/ Ao 17º - Nada. Ao 18º - Das agoas della uzão os seus moradores livremente. Ao 19º - Desde do seu nascimento que he a Serra de Portalegre the Benavente, onde se mete no Tejo esta ribeira, são vinte e duas legoas. E passa perto da Villa do Cratto distancia de tiro de peça, e por junto desta Villa de Seda, e dahi por baixo da de Benavilla, e Avis, pello Mara[n]haõ, Villa do Cabecão, Mora, Santo Antonio do Cousso, Erra, Coruxe, e por fim a Benavente onde acaba. Estas as noticias que pude descobrir sobre os interrogatorios da Comissão que com esta remetido: Seda 12 de Abril de 1758 O Prior Frei Joze Martinz da Aprezentaçam
Transcrição: Ofélia Sequeira
Nossa Senhora da Conceição, 1758, Maio, 14 Memória Paroquial da freguesia de Nª Sª da Conceição, Comarca de Campo de Ourique [ANTT, Memórias paroquiais, vol. 11, nº 367, pp. 2517 a 2520]
/p. 2517/ Freguezia de Nossa Senhora da Conceyção termo de Messejana pertense a vigararia de Ourique. Esta freguezia de que sou Parocho, cujo Orago hé Nossa Senhora da Concepção fica na Provincia de Alentejo, no Arcebispado de Évora, na Comarca, do Campo de Ourique hé termo da Villa de Mesejana e anexa a sua Matris: He de El Rey e sempre o foi; Tem esta minha freguezia sento e sinco vezinhos, e pessoas obrigadas ao preceito da confissão, e comunham trezentos e sincoenta e seis. Tem hum lugar junto a Igreja da Freguezia chamada Aldeya dos Barregoins, cuja Aldeya está cituada em hum monte pequeno da onde senão descobre povoação alguma. He termo da Villa de Mesejanna, como ja dice, há duas Aldeyas na freguezia huma chamada dos Barregoins como ja dice, e outra chamada das Alcarias, as dos Barregoins tem quarenta e dois vezinhos, a das Alcarias tem vinte e outo vezinhos, a Parochia está fora da Aldeya duzentos e sincoenta pássos pouco mais ou menos, o Orágo da Parochia como ja dice he Nossa Senhora da Concepção; Tem quatro Altáres hum que hé o principal hé de Nossa Senhora da Concepção dois coletrais, hum de Nossa Senhora do Rozario outro do Senhor Sam João Baptista, e outro de Nossa Senhora do Monte do Carmo a qual so tem Irmandade. O Parocho he cura aprezentado pello Tribunal da Menza da Consciencia e Ordens, tem de remda dous mil moyos e meyo de trigo e moyo e meyo de sevada pago pellos freguezes fora o pe do Altar que não he de rendimento serto// /p. 2518/ Nam tem Beneficiados nem há Convento algum de Religiozos ou de Religiozas, na dita freguezia nem tem Irmida alguma; Algumas Romajens há a mesma Imagem de Nosa Senhora da Conceição que he o orago especialmente no tempo do Verão. Os frutos que os moradores da dita freguezia recolhem com mais abundancia hé trigo e sevada. Está sugeita esta freguezia e os moradores della ao governo da justisa da Villa de Mesejanna. Não he coito cabeça do Concelho Honrra nem Behetria. Não há memoria que della sahissem alguns homens insignes em vertudes, letras ou armas. Tem huma feira na terceira Dominga do mes de Julho chamada feira do Carmo por se festejar a dita Senhora dura na vespora do meyo em diante, athe a outro dia a tarde he captiva. Não tem correio e só se serve do da Villa de Mesejanna, que dis [ta] huma legoa. Dista a dita freguezia da cidade capital do Arcebispado que he Evora dezaseis legoas, e da Corte de Lisboa Capital do Reino vinte e quatro. Não consta ser a dita freguezia previllegios alguns antiguidades, outras couzas dignas de memoria.// /p. 2519/ Ha em pouca distancia da dita Aldeya dos Barregoins huma fonte chamada de Nosa Senhora da Conceição cuja ágoa he milagroza. Não padeceo esta freguezia pella bondade de Deos ruina alguma pello Terremoto do anno de mil setesentos e sincoenta e sinco. Não tem sérra, nem rio nem outra couza alguma digna de memoria, que se possa dizer de mais de que está dito Conceição 14 de Mayo de 1758. Parocho Jozé Ferreyra [assinatura autógrafa]
Transcrição: Ofélia Sequeira
Torrão, 1758, Junho, 29 Memória Paroquial da freguesia de Torrão, Comarca de Beja [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 36, nº 68, pp. 595 a 606]
/p. 595/ 1) Hé esta Vila de Torrão da provincia de Alentejo, Arcebispado de Evora, Comarca de Beja pella Provedoria, e de Azeitao, pela Ouvedoria; tem seu termo, a que pertencem as freguezias de Odivelas, e Santa Margarida do Sadám; tem na Villa quatro centos, e quinze vezinhos. Pessoas grandes mil, e duzentas e sincoenta, e sete. Nas Erdades, Moinhos, e Ortas fógos cento, e sincoenta e sinco. Pessoas grandes quatro centas e outenta, e tres menores hum sem numero. 2) Hé esta Vila do ducado de Aveiro, e de prezente de sua Magestade fidelissima. 3) Vay respondido no primeiro interrogatorio. 4) Está situada nem bem em planicia, nem em alto; porque pella parte do Nascente se desçe, alguma couza para ella; pella parte do Poente se desçe, pella parte do Norte se sobe, pella do Sul, se desçe para a Ribeira chamada da Xarrama. Della se descobre Beja, que dista sete legoas Ferreira que dista quatro legoas. 5) Tem termo, que comprehende Santa Margarida do Sadam, e Odivelas// /p. 596/ 6) Tem Igreja Matrys, e está em hum alto para a parte Poente fora da Villa, junto ao Paço do Gram Mestre Dom Jorge; a que chamão o Castello, hoje aruinado cercado de muro de taipa; o qual vizitou Dom Rodrigo de Menezes ffidalgo da Caza da Sua Magestade, Comendador das Comendas da Villa de Caçella e da Igreja do Salvador de Samtarem, e Treze [sic] e João Fernandes Barregão Prior de Nossa Senhora do Castello de Alcacer, ambos vizitadores, em Dezembro de mil e quinhentos secenta, e sinco. E achou quatorze cazas altas forradas de cortiça; muitas officinas, cavalhariças; e hoje tudo aruinado. 7) Hé o orago da Matrys, Nossa Senhora da Assumpção tem dés altares, o altar mayor bem adornado, a capella grande boa tribuna, hé de naves com colunas, como era a Igreja de Sam Nicolao da cidade de Lisboa. Primeiro collatral, a Senhora da Vittoria dos Brancos. O Senhor Santo Antonio, em cuja capela está a Veneravel imagem do Senhor dos Pasos Terçeira capela, do Senhor Santo Amaro com graves quadros, pintura antiga. Quarta capela à da Senhora do Rozario, Imagem veneranda, e prodigioza; de grande estatura, cuja capella mandou ffazer o Padre Simião Fernandes Ilhoa; e não asignou seu testamento nem teve effeito; a qual fazenda ficou a Alvaro Correa de Freittas da Villa de Alcaçer do Sal; e servia de carneira, e me fés escriptura della// /p. 597/ Della para a dita Senhora, que hoje se acha com grave tribuna; bem pintada, e ornada a capella da Senhora com bons vestidos; e que tudo se deve à minha devoção que tenho a ditta Senhora, e despeza. = Segunda Nave esquerda, colatral, Nossa Senhora dos Remedios = Capella do Nome de Jesus = Capella de Santa Catherina, Padroeiro Dom João Deça de Alcaçer = Capella das Almas todas tem Irmandades; humas com livro de reçeita e despeza; outras de devoção, ttodas são fundas, e bem pintadas e de abobeda, exçeto [sic] as colatraes, o que tudo se déve ao meu cuidado, e despeza; porque parecia aquella Igreja indecente = Hé a ditta Igreja forrada de madeira, estradada com sepulturas divididas, que eu mandei fazer, por ser ladrilhada, e mal hé bastante grande, boa sanchristia, sanchristia do sacramento, ambas de abobeda. 8) O Parocho, he Prior aprezentado pella Meza da Consciençia por ser da Ordem de Samtiago, Colado pello Excelentissimo e Reverendissimo Arcebispo de Evora tem da Comenda tres moyos de trigo, dous de sevada, vinte mil reis em dinheiro, e as offerttas, eu são limitadas. Tem tres chamados olivaes, huma pequena courella, duas vinhas, que he pasal, e custta mais o seu amanho do que o lucro. 9) Tem quatro Beneficiados curados, dous simples// /p. 598/ Simples, que servem Iconimos nomeados pella comonidade, e confirmados pello Real Convento de Palmela aprezentados pella Meza da Consciencia. Tem dous moyos e meio de trigo, moyo e meio de sevada, dés mil reis em dinheiro. E o simples não tem sevada cobra o Iconimo metade. 10) Tem dous Conventos, hum de Religiozos de Sam Francisco da Provincia dos Algarves instituidores Vasco Borralho de Villa Lobos e Missia Lopes fundado em huma capella de Sam Sebastiam com licença da Meza da Consciencia, ficando as offerttas para os Priores tem muito noa Igreja de abobeda, boa planta, boa serca. E hoje Padroeiros Vasco Borralho de Villa Lobos, digo Vasco Jozé Cardim de Villa Lobos; e os Cabrais de Setubal por parte de Missia Lopes = outro de Religiozas de Santa Clara com a invocação da Senhora da Graça, instituidora Maria Pinta; e outra, que vivião aly como beatas com huma capella de Santa Martha: e obtiverão licença da Mesa da Consciencia para fundarem; ficando as offertas para os Priores. Tem boa Igreja de abobeda, bastante Convento çerca, que lhe acrecentou o Excellentissimo, e Reverendissimo Senhor Dom Frey Miguel de Tavora, a quem são sujeittas: estão muito pobres, e o estiverão muito mais se o ditto senhor lhe não dera tanto, quanto lhe tem dado com mão liberalissima de Principe. Padroeiro Pedro Correa da Silva pesuidor [sic] do morgado, que instituio Simão Soares de Carvalho, que lhe paga// /p. 599/ Lhe paga capellão, dá guizamento e ornamento. 11) Tem Mizericordia e Hospital administrado pello Provedor, e Meza; e a mayor renda que tem era da Senhora da Albargaria cuja administrava o Prior da Matrys, e hum mordomo; e pedindoa Sua Magestade lhe fis merçe; dando da Comenda ao Prior hum moyo de trigo, que somente tinha dous. Tem capella de abobeda dentro do Hospital com Sacramento que lhe conçedeo o Excellentissimo Senhor Arcebispo Dom Frey Miguel de Tavora. Tem de renda de foros de fazendas em dinheiro cento e secenta e oito mil duzentos e secenta reis dinheiro de pitansas de porcos vinte e quatro mil reis dinheiro de juros, que se vençem cada anno vinte mil duzentos e oitenta e sette reis. = trigo de rendas, fogos, alqueires mil e duzentos e noventa, e quatro. = senteio de rendas e foros alqueires duzentos e sincoenta e sette = sevada, alqueires quarenta e dous. 12) Vay no interrogatorio undecimo. 13) Tem sinco Ermidas, huma da parte do Nascente da Senhora do Bom Suçeso, de abobeda, cazas de hospedaria Senhora muito venerada do Povo, e longos, e se lhe fazem muitas festas; e vem romeiros de Sadám; festa dos lavradores do termo. Ffesta dos cavalheiros, ffesta dos almocreves, e de outras pessoas devottas; e se fes com Provizão da Meza da Consciençia. Tem outra Ermida alem da Ribeira, aonde esteve sempre a Senhora// /p. 600/ A Senhora do Bom Sucesso, com a invocação de Sam João Baptistta da parte do poente com vestigios de antiguidade; e logo abaxo da ditta Igreja se acha muitos aliçerces, e dizem, ser aly recolhimento das virgens Vestáes [sic], e outras muittas couzas. Si itta est, nescio = Outra capella com invocação do Senhor Fausto da parte do Noroeste alem da Ribeira, advogado dos quebrados, e tem feito muitos milagres, aonde vem muitos romeiros, e o Santo está em seu carvalho, e hum tiro de espingarda está huma lapa, aonde, dizem, se recolha o Santo sahindo aos caminhos apregar; e dizem, padeceo martirio em Cordova. Da parte do Sul pertto de villa está huma capella do Senhor Sam Roque advogado da peste, aqual estava aruinada nas abobedas, e a mandei reparar. Outra capella do Senhor Sam Pedro Principe da Igreja. Outra capela na praça com a invocação do Espirito Santo não tem padroeiros, todas são sujeitas à Matrys. 14) Todas tem festas os seus dias, e a de Sam Pedro fora do dia por respeito do pulgão, que praga nas vinhas. 15) A mayor abundancia, que há de fruttos, hé trigo senteio sevada, azeite, e pudera haver muitto mais se se emchertaçe [sic], o sem numero de zambugeiros renda a Comenda comforme os annos, trigo duzentos moyos, outro cento e oitenta, outro cento e sincoentta senteyo, e sevada, oitenta moyos. azeite. novidade inteira mil e seiscentos alqueires mausas [sic] grosas, setecentos, outocentos mil reis// /p. 601/ Reis. Maúsas miudas, legumes, linho, e renda cento e secenta mil reis: vinho oitenta, noventa mil reis. Mel setenta mil reis, isto hé conforme os annos. 16) Tem Juis de Fóra, e Camera, e o hé tambem da villa de Ferreira postto pellos Excellentissimos Duques de Aveiro, e hoje por sua Magestade Fidelissima. 17) Não hé coutto. 18) Houve nestta terra o Padre João Cardim: e há quem diga, nasçeo na villa de Viana par Evora: outros, na Torre de Moncorvo, minha, patria Padre da Companhia, veneravel, e outros tres irmãos, ou parentes do mesmo, que floreçerão virtudes: e nesta villa há hum quadro com a figura do ditto padre = houve hum frey Luis Leigo Chapuelo, que faleceo com extremos com signaes medistinado = houve hum António Cordim Fróis, que na India, e outras muittas proezas = Dizem que o Senhor Frey Dom Affonço o Africano, so recebeo, quando cazou, nesta vila nas cazas dos Borjas = dizem, que a may do Senhor Sam Francisco de Borja do Morgado dos Castros, foi desta villa para Castella, por Dama do Gaço [?], e la cazou com o paj [sic] ao Santo = dizem, que desta villa fforão dous homens para a India, e ffizerão proezas na cidade de Dio// /p. 602/ De Dio. 19) Tem feira franca principia à dous de Agosto, dura tres dias, e do Terraso fez merce El Rey à Nossa Senhora do Bom Suçesso para fabrica: rende quarenta, sincoenta mil reis. 20) Não tem correio, escreveçe pello de Alvito, que distta tres legoas. 21) Dista da cidade de Evora sette legoas; da de Beja sette; da de Lisboa, doze e the à Moutta tres de mar. 22) Não sei tenha alguns privilegios, antiguidades, ou outras couzas dignas de memoria; e se as havia, ouve, quem as entregaçe em pergaminhos, ao Excellentissimo Duque de Aveiro Dom Gabriel, a que hé publico. 23) Não sei que haja fonte, ou lagoa celebre; sim hum chafaris chamado a fonte Santa com grande fabrica de canos, e altos que se anda em pé, por elles, e dizem ser obra dos mouros, o que não duvido; porque ainda a tterra [sic] cheira muito delles e se ve que a mayor parte das gentes he pretta, e muita disfarçada, ou já com os alvaades [sic], e muitos com o habitto de Sam Francisco. 24) Não hé porto de mar. 25) Não hé murada à terra. 26) No therromoto de mil setecentos e sincoenta e sinco, a Matrjs [sic] pouco perjuizo teve por ter linhas// /p. 603/ Linhas de ferro que davão, e fazião tal estrondo que parecia vinha a Igreja a terra, o que eu vi estando em o conficionario, e o mesmo foi no do setimo dia somento abrio huma parede ao comprido, e a sanchristia, e pia baptismal por serem de abobeda abrirão e tornarão a fazer acento; cujas roturas se achão remedeadas. A Igreja da Mizericordia, e a do Espirito Santo, a de Sam Faustto por serem de abobeda e aruinarão com aberturas, e se achão da mesma forma, exceto à de Sam Fausto, que mandei reparar. 27) Dizem os moradores desta terra, que foi fundada antes da vinda de Christo duzentos e outenta annos si ita est nescio e prevertem o texto, que diz in principio Cream Deus Colum e Terram; id est Torram: e dizem, que a vila era a sua mayor grandeza junto à Ermida de Sam Roque advogado da pestte por se acharem alj [sic] muitos alicerçes = he abundante de agôas humas mais pezadas, e outras mais leves; e ha poucas cazas, que não tenhão possos. Não he serra. 4) Tem huma ribeira contigua à vila da parte do Norte muitto rapida de Inverno pella muita pedraria, he muito nociva de Verão pellas agoas encharcadas, que ficão nos pegos. Aqual ribeira tem seu principio nas vinhas de Evora distante sete legoas, e se metem nella// /p. 604/ Nella muitos ribeiros de Inverno, pasa junto à estta vila da parte do Norte, e se vai meter na ribeira do Sadam; e esta se xama o Xarrama. 7) Ha nella muitta qualidade de peixes tainhas, barbos, bogas, gardellas, e irozes, salmões, e outros mais. Tem huma ponte junto a esta vila da parte do Poente com seis arcos; e o Real tem de altura cento e vinte sinco palmos; e a ponte de comprimento sesenta e oitto varas. e hoje hum nicho com o Senhor Sam João Nepomeçeno, cujo mandou fazer, de esmolas, e a Imagem do Santo, Severino Joze Xavier, e outros devottos. 8) Há nella pescarias de canaes, canas, redes e barcos em todo o anno. 9) As pescarias são livres, excetto alguns canaes, que hum hé do Ducado, outro do Doutor e Juis de Ffora, pescaria de pouca consideração. 10) Cultivaoçe [sic] as suas margens, tem algum arvoredo de freixos, e outras arvores silvestres. 11) Não sei, que as agoas tenhão alguma virtude. 12) Não me consta que esta ribeira tiveçe outro nome, se não a Xarrama, que conserva. 13) Vaj [sic] dito se mete no Rio Sadám, daqui duas legoas para a parte do Poente. 14) Não consta tenha cachoeira, repreza, levada ou asudes; somente junto a esta vila muitta pedraria. 15) Não consta tenha mais que a ponte, que vai des// /p. 605/ Descrita no interrogatorio setimo; outra logo no seu nascimento nas vinhas de Evora de pouca grandeza; outra por baxo de Evora, indo para Aguiar. 16) Tem oitto moinhos perto desta terra, e outros aruinados, e não tem outro algum engenho. 17) Não consta que de suas arcas se tiraçe ouro. 18) Não constta, que alguem se aproveite de suas agoas, nem para isso haja prohibição. 19) Dista a dita ribeira desde o seu nascimento athe a esta villa sete legoas, e aonde se mete, nove e não sej [sic] passe por povoação alguma. São as noticias, que posso dar, e não cabe mais na brevidade do tempo, minhas molestias, selade [sic], e não ser natura desta terra; porque se me entregou este papel quazi na semana Santa, tempo muitto ocupado para os Parocos, e Parocos com o meu zelo; juntamente, para preparar o Rol dos confeçados, que somente incumbe a mim, e não he pouco pello corrente athe [sic] Diminica de Pastor Bonus, para aremeter como he obrigação o livrar de huma condemnação, alem de lidar com huma maligna, há quarenta dias em que estive sacramentado com casticos, varios remedios; e para convalescença tomando agoas de Inglaterra, e quinas, pois não há Paroco mais obediente a Sua Magestade Fidelissima, e os meus Prelados, e com dizer sou Transmontano, digo tudo. Matris do Torrão E se obtiver mais algumas noticias as participarei Torrão Junho 29 de 1758. Do Prior da Matris do Torrão Francisco Carneiro de Abreu [assinatura autógrafa]
Transcrição: Ofélia Sequeira
Vaiamonte, 1758, Abril, 30 Memória Paroquial da freguesia de Vaiamonte, Comarca de Vila Viçosa [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 38, nº 5, pp. 29 a 31]
/p. 29/ Aldeja de Vajamonte Provincia do Alentejo Bispado de Elvas Está situada sobre huma planiçe em huma herdade chamada = a Seca = de que he Senhor o Visconde de Mesquitella e a quem os mais dos moradores da mesma sam Forejros he termo de Monforte, Caza de Barganca, Comarca de Villa Viçoza e Bispado de Elvas e dista da sobredita Villa de Monforte huma legoa = Tem oitenta e quatro vezinhos, as pessoas que habitam sam trezentas e sincoenta e oito – Tem huma Igreja de huma nave da qual he orago o Senhor Santo Antonio, e por intersesam do mesmo Santo tem sido expulsados os Demonios de varios corpos, que pellos mesmos, eram opremidos = Tem quatro altares = o primeiro he do Santo = o segundo he da Senhora das Neves Imagem muito milagroza = o tercejro do Senhor Antam abbade Imagem de grande devosam = o quarto he altar das Almas tem Confraria aprovada pella Seé Apostolica = Tem esta Igreja hum Cura, sua aprezentasam he dos Excelentissimos Senhores Bispos de Elvas = Tem tres mojos de trigo de congrua pagos pellos lavradores da freguezia e hum mojo e quarenta alqueires da mesma especie paga pellos cazejros e moradores da sobredita aldeja = Tem hum Juis de Ventana [sic] sobordinado ao Juis de Fora de Monforte = Tem duas fontes huma chamada fonte de Anta, e outra chamada Abarroca = A fonte de Anta nascia tam impetuoza dizem pessoas antigas, que com sua agoa, em lemitada distancia do seu nascimento, mohia hum engenho de asenha, de que hoje somente ha vestigios e signais = servem hoje as agoas desta, fonte nam so para os moradores, mas tambem para toda a qualidade de animais que tanto de Inverno, como de Veram, a procuram em o cursso que tem desde o nascimento the os sidrais e arvoredo de espinho, que com as mesmas se fortelizam e fenecem estas dentro dos mesmos sidrais. No destrito desta freguezia esta a Torre de Palma em distancia meja legoa da Villa de Monforte morgado que consta ter sido dos sequeiros e servejras, e por nam haver sucessor, ficou de voluto e croa; e no anno de 1722: o Serenissimo Senhor Rej de Portugal, fes merce desta ao Secratario de Estado Deogo de Mendonca, Corte Real, e por morte deste a está gozando seu filho Pedro de Mendonca Corte Real, he esta Torre de altura setenta palmos = he quadrada servelhe [sic] de cuberta huma Torre Serrada, a manejra de hum zimborio = Tem tres andares de janelas e em sima ha hum passadico que pello mesmo se sirculla o zimborio, e se avistam muitas terras. Junto a esta Aldeja para a parte do Poente esta o outejro ou cabeco sima de Vajamonte donde os mouros fizeram brava guerra, aos christaõs que fundaram o Castello, a Villa de Avis, e mujto major distancia quando foram expulsados dos da Comarca = Actualmente se conhece fortaleza pera parte do Poente em sua muralha, e baluartes feitos com pedra solta e parede de dezaseis palmos de largura = Torre de altura pera a parte do Nascente este outejro de Vajamonte// /p. 30/ Quinhentas varas = pera a parte do Poente mil e sento e oitenta e duas = a parte do Norte oitosentas e quatro = pera a parte do Sul mil e oitosentas e noventa e duas = Tem de sircuito tres quartos de legoa = Todo este outeiro se cultiva e se semeara no mesmo vinte mojos de trigo, e sentejo = Está todo povoado com excelentes olivais que quando pegam em fruto, dam muito bastante pera os moradores da dita Aldeja, e seos destritos = pera a parte do Nascente em altura de quatrosentas varas esta huma cova, ou posso com agoa, que se concerva tanto de Veram como de Inverno e dizem ser de grande altura mas ao prezente esta mujto entupido porquanto no mesmo se afogavam mujtos gados em que se recebia grande damno = Villas e cidades que se avistam do alto deste outejro sam as seguintes – e distancia que ficam Cabeco de Vide que dista huma legoa. Alter Pederozo, que dista duas legoas. Alter do Cham, que dista duas legoas grandes. Avis cabeça de Comarca, que dista seis legoas. A Villa de Seda, que dista quatro legoas. Frontejra, que dista duas legoas. Souzel, que dista tres legoas. Estremos, que dista quatro legoas. Vejros, que dista tres legoas. Borba, que dista sinco legoas. Villa Boim, que dista quatro legoas. Barbacena, que dista tres legoas grandes. O Castello de Albuquerque, que dista oito legoas. Assumar, que dista duas legoas e meja. Alegrete, que dista quatro legoas. Marvam, que dista seis legoas. A cidade de Portoalegre, que dista quatro legoas. A Serra da Estrella, que dista trinta e duas legoas. Nam tem correjo esta aldeja servese [sic], do que vem a Monforte que dista huma legoa = chega este na quinta feira e sahe na sexta feira de tarde = Dista esta aldeja de cidade de Elvas cabeca do Bispado, sinco legoas = e de Lisboa, vinte e sette. Tem toda a freguezia fora da Aldeja, trinta e seis herdades – a saber – doze de montados = vinte quatro sem elles sam habitadas de vários lavradores, que as fabricam, colhem nas mesmas, bastantes trigos, sentejos, e sevadas e = criamce muitos gados meudos; e casa [sic] sam lebres, coelhos, e perdizes em abundancia. E nam ha mais que responder aos enterrogatorios. Passada// /p. 31/ Passada em Vajamonte aos 30 de Abril de 1758 E me asignej O Cura Ascensso Gomes Zagalho [assinatura autógrafa]
Transcrição: Ofélia Sequeira
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