Memórias Paroquiais

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1758 Maio 15 - S. Vicente de Valongo
Memória Paroquial de S. Vicente de Valongo, Évora (Freguesia suprimida, foi anexada à freguesia de Nossa Senhora de Machede)
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 38, nº 36, pp. 209 a 211]

Clareza, e resposta dos interrogatórios que se procurão desta freguezia de São Vicente
de Valiongo


1. Está situada esta freguezia(1) na Provincia do Alenteyo, Arcebispado, Comarca e termo
da cidade de Évora.

2. Esta igreya he do Excelentissimo e Reverendissimo Prelado.

3. Tem esta freguezia oitenta vizinhos.

4. Consta do número de trezentos e sincoenta pessoas.

5. Está situada em campina, e dela se descobre a cidade de Evora de que dista quatro
legoas.

6. Está fora de lugar, nem há na freguezia aldêas.

7. O Orágo desta Igreya he o Senhor São Vicente Mártir, tem quatro altares, a saber o
altar mayor, altar de Nossa Senhora do Rozário, o altar do Santissimo Nome de Jezú, e
o altar da Benditas almas, tem Irmandade de Nossa Senhora e das Almas.

8. O parocho desta Igreya hé cura, hé da aprezentasão do Excelentissimo e
Reverendissimo Prelado, rende três moios de trigo, e hum de sevada.

9. Os frutos, que se recolhem em mayor abundancia desta terra hé trigo.

10. Desta freguezia he natural Frei Manoel o Montes religiozo franciscano desta
Provincia que floreceu em virtudes, e letras, a me dizem foi provincial na sua religião
duas vezes.

11. Dista esta Igreya da cidade de Evora, quatro legoas e de Lisboa vinte e quatro.

12. Está nesta freguezia hum edificio muito antigo chamado Castelo Real(2), que bem
mostra a antiga fortaleza, e de prezente se acha em bastante ruina, porem ainda
concerva huma torre, e outras fortalezas. //

13. Nem da ruina que este castelo tinha antiga, padeceu alguma no teriemoto (sic) do
anno de 1755 que ainda senão reparou.

14. Nesta terra se criam poucos gados, porem he abudante de caça miuda.

15. Por esta terra passa o rio Pardielas, que tem o seu nascimento na freguezia
de São Bento do Matto, termo de Evora Monte, corre este rio do Norte para o Sul.

16. Nasce no seu principio brando, corre no tempo das xuvas.

17. Entrão neste rio, o rio chamado Alcorouvisca que tem seu nascimento no termo do
Redondo e na defeza de pedra alçada termo da vila de Trenna; e o rio chamado
Valbago, que tem o seu nascimento no termo da vila de Montouto; e entrão no dito rio
de Pardielas nesta freguezia e neste sitio hé de curso arebatado, e só se chama pardielas.

18. Todos estes rios entram nesta freguezia no rio chamado Digebe, que tem o seu
nascimento nos campos da cidade de Evora na freguezia da Sé; e aqui perderão os
antigos nomes, e este rio Digebe entra com curso arebatado no rio chamado Godiana,
aonde finase.

19. O rio chamado Alcorouvisca antes de chegar a este sitio se chama Val de [Vasco]

20. Nestes rios se crião peiches, e os demais abundancia são bordalos, bogas e [picois]

21. O rio Valbago, antes de chegar a este sitio, se chama rio de Montouto.

22. Nestes rios pescam os homens […] no tempo do inverno, e são pescarias livres. //

23. Cultivãose as suas marges, e neste sitio tem muito arvoredo silvestre, o rio Digebe
entra no rio chamado Godiana no termo de Portel, aonde perde o antigo nome.

24. Todos estes rios tem moinhos de pão nesta freguezia. O rio Digebe tem huma
grandioza ponte de pedra.

25. Este rio donde nasce athe aonde acaba fazem nove legoas, passa pello termo de
Evora, Monçarás e Portel.

26. O rio Pardielas tem tres legoas e meia de comprido, nasce no termo de EvoraMonte,
corre pellas extremas do termo de Evora, e passa do termo do Redondo, e entra no
Digebe no termo do Redondo.

27. O rio chamado Alcorouvisca nasce no termo do Redondo, corre pellos estremos do
termo de Evora com o termo do Redondo, aonde entra em Pardielas. tem de
comprimento duas legoas.

28. O rio chamado Valbago nasce no termo de Montouto, passa pello termo de Évora,
aonde entra na Alcorouvisca, tem de comprimento legoa e meia.

E nos mais interrogatorios não achei couzas de que fizese menção nesta terra; o que na
verdade aseguro. Sam Vicente de Vallongo 15 de Maio de 1758.
O Paroco Fernando Coelho Failé

(1) S. Vicente de Valongo: Extinta freguesia rural do Concelho de Évora. Actualmente esta integrada na Freguesia de Nossa Senhora de Machede.

(2) Castelo Real de Valongo (Monumento Nacional): é uma importante fortificação medieval,
desconhecendo-se, contudo, documentos autênticos que tratem da sua fundação, que deverá ter ocorrido em meados do seculo XIII. No séc. XVI, o edifício sofreu modificações importantes, nomeadamente a sua torre de menagem e o paço anexo que se arruinou no século passado.


Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado

GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.

1758 - S. Sebastião da Giesteira
Memória Paroquial de S. Sebastião da Giesteira, Évora (Esta freguesia foi suprimida, sendo anexada à freguesia de N.ª S.ª da Boa Fé)
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 42, nº 113, p. 67]

N. 113 Giesteira(1) he aldea, a parochia do termo da cidade =Evora= na Comarca do
mesmo nome. Consta o seu povo de 73 fogos com almas 365 na Matris dedicada a S.
Sebastião.(2)
O parocho he cura apresentado pelo Arcebispo de Evora e tem de congrua 230 alqueires
de trigo.(3)

 

 

 

 

 

(1 ) Giesteira Freguesia rural do concelho de Évora, criada em 22 de Julho de 1975. Situa-se a cerca de 18km de Évora e o seu acesso faz-se pela EN 114 (Évora-Montemor). Área: 4368 ha. População presente (Dados Preliminares - Censos/91): 775 habitantes. Segundo a tradição local, o nome desta povoação deve-se ao aparecimento do santo padroeiro na ribeira da Giesteira ou porque a sua imagem é feita de madeira ,oriunda desta mesma ribeira.

(2) A igreja paroquial foi fundada no século XVI, mas sofreu alteraçoes posteriores, tendo subsistido apenas a capela-mor e duas pequenas torres cónicas ameadas. O altar-mor é de talha dourada, rocócó, onde se encontra uma imagem do padroeiro do século XVII.

(3) Não tem data, nem está assinado.

Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado

GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(I Parte). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 1ª Serie, nº 71 (1988), p. 187-
212.

 

 

1758 - S. Pedro
Memória Paroquial de S. Pedro, Évora (Freguesia suprimida em 1997, foi anexada à freguesia da Sé)
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 14, nº 11, pp. 843 a 849]

Excelentissimo e Reverendissimo Senhor
Para satisfação do que se pede, devo advertir o deploravel estado em que se acha o
Cartorio desta Igreja de S. Pedro, pois sendo huma das couzas, que se costuma entregar
mais a memoria, e escriptura a seria dos que governão as Igrejas, até desta careçe, por
que despoes da morte do Cardeal Guilhelme, que foi seu Prior pellos annos de 1356
ignoramos quem fossem seus sucessores até ao anno de 1438, e o que he mais ahinda
não sabemos, quem foi este Cardeal Guilhelme, por viverem em aquelle tempo outros
do mesmo nome, como se pode ver no Cathalogo, que fes dos Cardeaes, e mais
Prelados Portuguezes, que tiveram diocezes fora deste Reyno, o P. D. Manoel Caetano
de Souza. fl. 69. e está nas Memorias da Academia Real da Historia, tom. 5 nº. 33,
ahinda que por familias, que neste Alentejo se apellidão Sodré, se pode julgar que foi o
Cardeal Guilhelme Sodré, mas como este juizo não passa de conjectura, só servirá para
confirmar aquela queixa, que hoje se forma dos nossos antepasados, pois chegou a tanto
sua incuria, que não aparecem Livros de Bauptismos antes do seculo decimo septimo,
fazendose mais culpável a negligencia daquelles tempos, pela noticia das grandes
admoestaçoens com que persuadia a sua introdução o Serenissimo Cardeal D. Affonço
Bispo exemplar, que foi deste Arcebispado, se poes com materias tão importante não ha
memorias nem coevas, nem posteriores, o que será em o mais pertencente à mesma
Igreja.
O que porem consta hé, que esta Igreja hé das mais antiguas desta Cidade de Évora, por
que vinte annos despoes da sua restauração, isto he pellos annos de 1186 servia de
Igreja dos Templarios, e antes destes a possuirem era ja Ermida; hoje he a segunda
freguezia da Cidade, sendo a primeira a Cathedral, porque extinctos os Templarios o
Bispo D. Giraldo Domingues encorporando lhe com o concentimento do Serenissimo
Rey D. Diniz as rendas, que os mesmos aqui pessuião no anno de 1312 a elevou a
Parochia, e das rendas mensionadas e dizimos formose hum Priorado, e seis Beneficios
com o onus do Côro. //
Podia este Prelado estender mais os lemites desta freguezia, porem como a Cidade
então não passava dos muros, e fortificaçõens antiguas, por estas, e rua chamada de
Seleiria lhe determinou a sua extensão e como o seu ambíto he tão pequeno vem a ter
somente 64 fogos e 277 almas, não obstante porem termem comparação das outras tão
poucos freguezes , o seu Priorado, e Benefficios são pingues pelos grandes proprios,
que tem esta Igreja.
O Priorado he de riguroxo concurso, e oppozição a que assistem os Examinadores
synodaes, e a colação delle pertence aos Excelentissimos Arcebispos e por que o seu
rendimento costuma ser annualmente de quinhentos mil reis, e mais em alguns annos de
mais abundancia, se oppoem a elle pessoas de grandes letras, e qualidades, como forão
D. Affonço Annes conego desta Sé, e coadjutor do Bispo D. Alvaro de Abreu D.
Francisco Fernandes Mestre Escola, e Coadjutor do Bispo D. Affonço de Portugal,
Mestre do Rey D. Manoel e seu Embaixador ao Papa Alexandre 6°. e outros mais. Os
Benefficios porem não são de oppozição, mas ou se conferem por renuncia ou vagando
por obito tem alternativa os Arcebispos com o Pontificie. O rendimento destes será de
outenta mil reis, porem não tem mais onus, que o já dito do Côro, porque a
administração dos Sacramentos pertence ao Prior, ou a hum Cura que o costuma ajudar.
Esta Igreja he de huma só nave, e suposto que não seja muito grande, he perfeita, pellas
novas obras, que nella mandou fazer a piedade do Arcebispo D. Fr. Luiz da Sylva por
voto que fez ao Santo Apostolo se o livrasse de huma perigoza doença, em que se
achava; as paredes do Templo estão vestidas de fino azulejo, e as três capellas, que tem
na frontaria de dourada talha; O Altar maior em que está o Sacrario tem huma huma boa
tribuna, em que se costuma expor o Sacramento nas festas, que na mesma igreja se
costumão fazer. Os dous altares colaterais tem bom por invocação o Santo Christo, e
outro da Senhora da Glória, que hé huma bella imagem, que no mesmo se venera. // 845
Tem além dos já referidos altares outro logo a entrada da invocação da glorioza Martyr
Santa Catharina, o qual pertence a huma capella de que hé administrador João Xavier de
Atayde Sá e Menezes, e a elle e mais administradores que tem havido na mesma
pertence a aprezentação de huma Capelania com obrigação de Côro, para o que dá
sincoenta mil reis ao Capelão, que a serve. Estes são os Altares que a dita Igreja tem, e
as mais officinas conrrespodem no aceio ao Templo, e são proporcionadas a qualidade
de huma Parochia.
Está esta freguezia na parte mais interior da Cidade, e no seu districto está em primeiro
lugar a Caza, e Igreja da Mizericórdia, cujo tão santo exercicio começando em o anno
de 1499 em a Ermida de S. Joaninho contigua à Igreja, e convento de S. Francisco se
tresladou para este lugar a 20 de Outubro de 1550, por que ahinda que as Religiozas
Maltezas delle fizessem compra à Irmandade pello preço de cento e setenta e sinco mil
reis em o anno de 1533, a metade da quantia por que o havia comprado para as mesmas
o Infante D. Luiz aos Condes de ??? por lhe perdoar a outra ametade o mesmo Infante
com tudo como necessitavão os Irmaons de igreja. Caza da Meza, e mais officinas, estas
se não acabarão antes do mensionado de 1499, em que se fes a sua trasladação solemne.
He esta Igreja da Mizericordia de huma só nave, mas das mais perfeitas, e aceadas de
toda a Cidade, por que alem de serem revestidas as suas paredes de primurozo azulejo,
sobre elle se vê adornadas todas em roda de bellas pinturas, cujas molduras são de
primorozo lavôr dourado, e sendo somente três as capelas, que estão na sua frontaria,
equivalem a muitas pella magestade do retabolo, que toca no mais elevado da abóbeda
do templo: A capela maior he da invocação de Nossa Senhora na sua vizitacão, e no seu
dia costumão hir em procissão o Cabido, e Câmera a dita Igreja, e nella canta a Missa
hum conego, a que se segue a publicação, que do pulpito se fás das despezas, que a
mesma Irmandade fes em aquelle anno. // 846
Os altares colateraes hum he da invocação de João Bauptista, outro de S. Miguel, e alem
destes tem na parede da parte da Epistola o do Senhor Crucificado, cuja veneranda
imagem he levada debaxo de hum paleo pella Irmandade nas execuçõens que se fazem
dos relaxados pellos Ministros da Inquizição ao braço secular; neste altar esta o Sacrario
em que está o Sacramento com a devida decencia, e como o altar he de madeira na sua
cavidade esta a imagem perfeita do Senhor morto, que vay no esquife em a procissão
que annualmente faz a Caza em sexta feira Santa.
Pertence a esta Irmandade o provimento de vinte Capellas, das quaes quatorze tem
obrigação de Coro; tem os Capellaens do Coro nove vintenas por dia, e lhe assiste a
Caza nas suas molestias não só com o ordenado por inteiro, mas tão bem com Medico,
Cirurgião, Botica, e tudo o mais que na enfermidade se lhe fás persizo ; vão os enterros
debaxo de Crus propria e o mais velho delles he o seu Reyror, o qual costuma assistir
em qualidade de Parocho aos matrimonios das dotadas pella Caza, para o que costumou
sempre o Ordinario delegar-lhe a jurisdição.
Administrão esta Irmandade hum Provedor, que sempre hé das primeiras pessoas do
Reyno, e ha annos, que serve este lugar com inexplicavel caridade, e proveito dos
pobres o nosso Excelentíssimo Prelado, o qual alem de varias esmolas com que socorre
a caza, toma por sua conta a despeza das galinhas, com que costuma acodir aos
enfermos, que por serem em grande numero, vem a ser o gasto concideravel; além do
Provedôr hum escrivão, que sempre he pessoa ou das de primeira nobreza da cidade, ou
constimida em dignidade Eccieziástica, hum Thezoureiro da Caza, outro do Hospital de
quem a mesma he adeministradora, dous Procuradores dos prezos, e mais Irmaons da
Meza, que são em número doze, seis nobres, a que chamão da primeira, e seis
mecanicos chamados da segunda, a elleiçào destes se fãs todos os annos na tarde da
festa da Vizitação de Nossa Senhora. // 847
Estes Irmaons da Meza se costumão ajuntar aos Domingos de tarde, a fazerem os seus
apontamentos em caza para este ministerio determinado, nelles determinão os
incidentes, que sucedem na administração da fazenda tanto sua, como do Hospital, que
como ja dice lhe he anexo, provem as capelanias vagas as occupaçõens de medicos,
cirurgioins, servos, e mais officiais da caza, nomeião os dotes das orphans, e fazem tudo
aquilo, que segundo o compromiso por que se governão se não pode rezolver fora da
Meza. O Provedôr nella tem hum voto [decisivo e ... ].
Os mais Irmaons tem só o o consultivo, e segundo a plioridade dos votos se conferem os
Officios assima excepto as Capelanias, que tem o onus do Coro, porque então se
conferem por oppozição reguroza em canto chão, a cujo exame assiste o Mestre da
Capella da Sé, e depoes informa a meza do mais benemerito.
As rendas desta Caza não são grandes; porque não passam de quatorze mil cruzados,
porem a boa economia que nestas há, fas que cheguem a hum grande gasto, que dia tem,
tanto nas creaçoens dos engeitados, que são numerosos por occorrerem aqui das terras
circumvizinhas, e o que S. Magestade dár ser muito pouco, como no curativo do
Hospital no qual assiste aos enfermos com todo o necessario, havendo tempos no anno,
que estes chegão a quatrocentos, no curativo da Cidade a que tão bem assiste com
medico, cirurgião, botica e galinhas; nos dotes às orphans, que são numerosos; nos
ordenados aos officiaes da Caza, e em outras mais obras de piedade, em que santamente
dezempenhão o titulo de Irmandade da Mizericórdia de cujo louvavel procedimento
pode ser panegerista toda esta Cidade, por que a toda ella acode nas suas tribulaçoens, e
necessidades.
No destricto da mesma freguezia esta a linda Ermida do Apostolo desta Provincia, e
primeiro Bispo della S. Manços, a qual nem por ser bastantemente pequena deixou de
custar grande trabalho, pella deficuldade de abrir huma masima torre dos antiguos
muros sertorianos, esta deficuldade venceu // 848 Balthasar Vyeira seu Authôr, a quem
por esta cauza darão o apelido de Racha Torres; nesta Ermida se venera a coluna que
segundo tradição antiquissima he a mesma a que o Santo foi ligado, quando o
açoutarão, e nella se divizão ahinda algumas gotas, de sangue presiozo, que nella
derramou o Santo Apostolo à força de crueis açoutes; foi levada esta coluna para a
ermida do carcere, que lhe fica vizinho, em que o mesmo Santo foi prezo. Este hé
verdadeiramente masmorra pella falta, que de luz padece e por esta cauza, e estar
entranhado em huma torre não seria facil aos Catholicos seus Discipulos vizitar nelle o
Santo Martir, junto à mesma Ermida esta o poço, que do mesmo Santo tomou o nome,
porque segundo a referida tradição nelle trabalhou, quando foi pello juis mandado
trabalhar nas obras publicas.
Tão bem esta dentro dos limites desta Freguezia a Ermida de S. Vicente huma das mais
antiguas não só da Cidade mas ahinda se pode dizer da provincia, pois por sêr a Caza
em que nascerão so Santos Martyres Vicente Christeta e Sabina o Bispo Quinciano
aplacada com os edictos de Constantino Magno a perseguição, e permitida a edificação
das Igrejas convertes, e dispor em Ermida no século quarto, e nella celebrava algumas
vezes Missa, e os divinos officios, esta Ermida era antiguamente muito limitada, mas a
devoção de Luis Loy seu reedificador, a dispos na forma que hoje se acha, por huma
pedra que o mesmo mandou meter em huma das suas paredes sabemos da sua
reedificação, e do seu author diz ella assim = Esta Igreja mandou fazer Luis Loy creado
do Infante D. Henrique e Porteiro do Cabido de Évora, e foi feita no anno de 1467, sua
figura representa huma cruz, e nas extremidades desta ficão de huma parte a Capella
maior dedicada aos Santos Martyres com dous altares ao lado, e na outra extremidade a
Capella de Nossa Senhora da Vitoria, cuja veneranda Imagem hé tradição constante
aparecera ao Nosso Bispo D. Fernando terceiro na batalha do Salado, quando na mesma
acompanhou ao Rey D. Affonço 4º com mil soldádos de pé, e cem de caválo todos. //
849 eborenses e subditos seus, em reconhecimento de cujo benefficio o mesmo Bispo
erigio huma Irmandade dedicada a Senhora e lhe deu os Estatutos com que se governa
há quatro centos e dezasete annos, a qual todos os annos no dia da sua glorioza
Assumpção lhe fás plauzivel festa.
Esta Igreja he do padroado da camera, por doação que à mesma fes o seu reedificador e
o já dito Luiz Loy, e ahinda que os Priores desta freguezia no tempo passado
pertenderão prover os Capelaens, e mais Ministros do seu serviço, o Preor António de
Castro cedeu do letigio em 13 de Julho de 1559 a favor da mesma Camera, mas não
obstante esta cessão sempre fazem, e exercitão os officios de Parochos os Benefficiados desta freguezia nas festas particulares, que na mesma se celebrão, digo nas festas
particulares, por que em a que fas a mesma Camera aos Santos Martyres no seu dia
canta a Missa hum Conego por fazer no dito a Camera e Cabido procissão, por
antiguissimo voto, que fizerão: neste mesmo Templo se venera a pedra, que se
modificou, quando o mesmo Gloriozo Martyr S. Vicente pôs nella os pés: Estas as
Igrejas e domicilios de piedade que estão no districto desta freguezia dos quaes se refere
o mais verosimel, e o de que se concerva alguma tradição, ou memoria. E hé o que se
me offereçe dizer a V. Excelencia.
O Parocho Manuel de Bastos da Cruz


Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.

1758 Julho 7 - S. Miguel de Machede
Memória Paroquial de S. Miguel de Machede, Évora 
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 22, nº 16, pp. 86 a 94]

1. Fica esta Freguezia(1) em a Província do Alentejo; a mayor parte em o termo e comarca
de Évora cidade, e a menor em o termo da villa de Evora Monte, comarca de Villa
Viçosa; tudo Arcebispado de Évora.


2. A mayor parte desta Freguezia hé de El Rey Nosso Senhor por estar no termo de
Évora cidade, e esta ser terra da coroa, e a menor da Serenissima Caza de Bragança por
estar na comarca de Villa Viçoza.


3. Tem esta Freguezia trezentos fogos; mil quinhentas e vinte pessoas; mil e vinte huma
de confição e comunhão; cento settenta e cinco só de confição, trezentas e vinte seis
menores.


4. Achasse esta Freguezia situada quanto a mayor parte, que esta no termo de Évora
cidade em agradável e fructífera campina; e quanto a menor que se acha no termo de
Evora Monte em oyteyros, e terras fragozas com estevais. Nela descobresse de alguns
sitios desta Freguesia a cidade de Évora, da qual dista de algumas partes três legoas e de
outras duas. Evora Monte, que fica em distância de duas legoas; a villa do Redondo na
mesma distância de duas legoas; e a villa de Montoyto na distância de três legoas.


5. Nada.


6. A Parochia esta situada ao lado direyto da praça de huma aldea, a quem a sobre ditta
Freguezia deo o nome de Aldea de Sam Miguel de Machede; em terra de huma herdade
intitulada do Vallinho, de que são senhorios Henrique de Mello da Zambuja, morador
na Villa de Cabeço de Vide, Martinho Lopes Saldanha, e António Lobo de Mello, que
de prezente vivem em a cidade de Elvas, por cuja causa os moradores da ditta Aldea são
foreiros aos sobredittos senhorios em foros de galinhas; tem esta Aldea cento e trinta e
quatro fogos ; há mais nesta Freguezia em a parte que está no termo de Évora cidade
outro lugar pequeno chamado: a quinta do Casco; o qual se acha situado em huma
herdade intitulada do Passo(2); que hé do successor que ficou de Diogo Pestana que
falleceo na villa de Estremos; os seus moradores pagão renda ao lavrador, que tras a
rendada a ditta herdade; tem este lugar quatorze fogos; na parte que pertence ao termo
de Évora Monte tem esta Freguezia outro lugar chamado = o Moinho Queimado(3) = o
qual se acha situado em huma herdade chamada da Teyxeyra, de que ao prezente esta de
posse Christovão de Brito Bandeyra morador na cidade de Évora, a quem pagão foros
de pam os seus moradores; tem trinta e quatro fogos.


7. He o orago desta Parochia Sam Miguel de Machede(4). Tem cinco Altares com o da
Cappella mor; nesta que está decentemente ornada, com sua trebuna e entalhado
doyrado, está o Altar do Santissimo Sacramento, aquem os Irmãos da sua Confraria
todos os annos festejão com solenne pompa; da parte do Evangelho o gloriozissimo
Archanjo Sam Miguel, aquem applaudem os moradores da sobreditta Aldea e Freguezia
com duas festas no anno, huma no seu dia proprio; outra em outro dia que destinão; da
parte da Epístola Som Joze, a quem seus devotos tãobem todos os annos festejão. // Na
face do arco da mesma tem dois altares collatrais; no da parte do Evangelho sam Sam
São Pedro, e no da Epístola huma devotissima Imagem de Nossa Senhora do Rozário, a
quem os Irmãos da sua Confraria applaudem com três festas no anno, a saber no dia em
que a Igreja manda celebrar a festa do Santissimo Rozário, no da Purificação da mesma
Senhora, e no que destinão para celebrarem as suas rezas bentas. Em pouca distânçia
destes ficão duas Cappellas fronteyras com seus altares: a da parte do Evangelho com as
Imagens: de Santo Antonio, a quem todos os annos fazem sua festa os pastores; Sam
Gregório, Sam Bento, Sam João, Sam Romam, a quem todos os annos os lavradores
festejão, e Santo Amaro. Ha três Irmandades na mesma Igreja, a do Santissimo
Sacramento, a de Nossa Senhora do Rozário, e a das Almas; os Irmãos das Almas desta
Freguezia tem três Jubileus no anno, a saberem dia de Sam Sebastião, em dia da
Annunciação de Nossa Senhora e em dia da Santissima Trindade em cujos he grande o
concurso das confiçõens, e comunhões a sim aos irmãos da ditta Confraria, como de
quazi todos os mais parochianos. O Altar mor he priviligiado nas segundas feiras, com
todo o oytavario dos Santtos.


8. He o Parocho desta Freguezia cura, ao qual aprezenta o Excellentissimo e
Reverendissimo Senhor Arcebispo. Tem de renda propria em sessenta e quatro arados, e
meio, que tem a Freguezia seis moyos, e vinte e sete alqueires, a saber: quatro moyos, e
dezoyto alqueyres de trigo; dois moyos e nove alqueires de cevadas; e de contigente que
pagão os cazeyros a rezão de alqueire cada hum quatro moyos de trigo.

9. Nada.


10. Nada.


11. Nada.


12. Nada.

13. Tem esta Freguezia sogeyta a mesma Parochia em o lugar da Quinta do Casco já
referido huma Ermida intitulada da Senhora dos Remédios5 e com a Imagem da mesma
Senhora, com hum altar somente de entalhado dourado, dentro do qual está a mesma
Senhora com sua vidrassa fechada, e com a maior decencia. No Adro desta Parochia
defronte da porta principal em pouca distância, se achava no remate de hum pilar de
pedra mármore a Imagem de Cristo Senhor Nosso em huma crux da mesma pedra de
forma, e semelhança das benedictinas, com a qual tomarão tanta fé os moradores desta
Aldea na occazião do terremoto que houve no anno de mil sette centos, sincoenta e
sinco (porque chegando-se muitos // delles ao sobreditto pillar o acharão firme e
immovel quando as paredes de todas as cazas e da Igreja parecião a rancar-se a
empulsos da violência do ditto terremoto) que concorrendo todos com as suas esmolas
se lhe fes hum nicho a roda por modo de capelinha mas sem altar, aonde e ainda sobre o
mesmo pilar se conserva com grande veneração das gentes que pello sobreditto motivo
lhe derão o titulo do Senhor dos Aflitos(6).

14. À referida Ermida dos Remédios concorrem todo o anno muitos romeyros não só
desta Freguezia, mas de todas as terras cincunvezinhas obrigados da muita fé que tem
na ditta Senhora e pellos muitos e continuos milagres, que por meyo da sua protecção
confessão e conhessem conseguir, sendo este concurso mais numeroso em o dia da
Asumpção da mesma Senhora aos quinze de Agosto, em cujo varios devotos lhe fazem
sua festa com missa e sermão. Ao Senhor dos Aflitos tãobem concorrem não poucas
gentes dos lugares proximos, e com quotediana frequencia os moradores desta Aldea, e
Freguezia, a quem confeção dever despacho nas suplicas, com que a elle nas suas
afliçoens recorrem, de que são evidentes pregoeyros os autenticos, que já nas paredes do
seu nicho se achão.

15. Os frutos que na parte mayor desta Freguezia que se acha no termo desta cidade de
Evora semeyão e recolhem os seus moradores são trigos, senteyos e sevadas, além dos
melõis e malancias que dos muitos meloais que nella fabricão colhem sendo de
especialissimo gosto os melois que produzem. Na parte que esta no termo de Evora
Monte mais senteyo que trigo se semea pella qualidade das terras asim o permitir por
serem povoadas de estevais e de árvores de azinho de que ou de cujos frutos se utilizão
para sustento dos muitos porcos, que nas suas herdades crião.


16. Não tem esta Freguezia juis ordinário, nem Câmara; está sojeyta ao governo das
justiças da cidade de Évora, havendo só nesta aldea hum juis com seu escrivão a que
chamão vulgarmente de aventena para executarem as ordens que daqueles emanão e
obviarem alguns absurdos que suceder possão.


17. Nada.


18. Desta Freguezia, onde naçeo, sahio para a religião do venerável Padre Sam
Francisco o M. R. P. Fr. Lourenço de Santo Thomas, o qual he Mestre Jubilado na sua
Sagrada Religião, foi Provencial da sua Provincia dos Algarves, ainda se acha vivo, e
exercendo o cargo de Padre mais digno da sua Província; nesta mesma Freguezia naçeo
o Padre Frei António do Monte Religioso Eremita da Serra de Ossa da Ordem de Sam
Paulo, o qual foi Geral da sua religião, e a governou muytos annos com plena acceitação
e edificação de todos.


19. Nada. //


20. Não tem esta Freguezia correo, valesse para as suas correspondencias do correo da
cidade de Évora, donde disto esta aldea três legoas.


21. Dista esta Freguezia de Évora cidade capital deste Arcebispado três legoas, e de
Lisboa cidade capital do reyno dezoyto legoas, que com as três de mar fazem vinte
huma.


22. Não tem esta Freguezia, nem a sua aldea privilegios. No sitio em que esta Parochia e
seu adro se achão situados consta havia antigamente no tempo dos godos hum Convento
de Sam Bento, onde o Santo obrava tantos milagres que os mesmos mouros lhe
chamarão “Machdas” que se interpetra “Terra, ou Lugar Santo” de cuja corrupção naceo
a esta Freguezia o nome de Machede. Do ditto convento se descobrem alguns vestigios,
como alicersses, sepulturas aparessendo destas muitos ossos, sendo o signal mais
evidente o Pilar de pedra em que se acha a imagem do Santo Christo crucificado de que
fizemos menção em o número treze destes interrogatórios. Na igreja deste mesmo
Convento, em cujo lugar se acha edificada esta Parochia, como bem o estão mostrando
os vestígios que aparessem he tradição se enterrara Juliano Bispo que foi de Evora(7),o
que depois de nove centos annos se fes publico aos vindouros no seguinte epitáfio, que
na rustica campa do seu sepulcro se descobrio:


Julianus farnulus Christi Episcopus Eclezia Eborensis hic situs est:
Vixit annos plus minus septuaginta:
Requerevit in pace Kalendis Decembns: Era 604
ld est anno de Christo 566


O qual Juliano tinha sido eleyto Bispo de Évora aos trinta e seis annos de idade com
uniformidade de todos os votos, e contra todas as suas esperanças, a que oppondose por
humilde e porque para hum tal ministerio sem merecimentos se julgava, as instançias do
clero, e os gritos do povo o obrigarão a comformarse com as dispozições divinas, pois
bem mostrou o Ceo ser eleyção sua, porque em trinta e três annos que teve de governo,
com o saudavel posto de seus santissirnos exemplos apascentou suas ovelhas. Tendo
emfim a felicidade de que em seu tempo no anno de quinhentos sesenta e quatro sendo
rey Theodomiro ou Ariamiro, como outros o intitulão se celebrasse o Concílio de Lugo(8),
em cuja rezulução conseguio a cidade de Évora the então uffraganea de Braga ser feyta
Metropolitana, e tirandose nessa occazião a Braga não so este Bispado, mas os de Auria,
Asturia, Iria, Tuy e Britonia, lhe deram em satisfação dellas três Bispados da Lusitânea:
- Lamego - Coimbra - e Guarda, ficando só Mérida com cinco suffraganeas. Morreo
Juliano em quinhentos sessenta e cinco. Tendo de idade sessenta e nove. Todos os
autores quando fallam neste Bispo lhe dão o título de Santo. Na mesma referida igreja
dos religiosos de Sam Bento se dis fora sepultado hum servo de Deos chamado Paulo,
ao qual morrendo no tempo do mesmo Bispo Juliano em trinta de Julho de quinhentos
quarenta e quatro se lhe gravou sobre sua sepultura igual e idêntico epitafio do sobre
dito Bispo, o que tudo se pode melhor ver em Rezende, Menezes, e Morales. Liv. 11
Cap. 54. No Convento de Sam Francisco de Évora faleceo o Padre Frey Francisco de
Santo Tomás, que foi comessario dos terceyros, o qual foi natural desta Freguezia, e
morreo com o [pentião] de predestinado.


23. As águas com que os moradores desta aldea lugares, e Freguezia seccão a sua sede //
(a sua sede) e gastão no uzo comum de suas cazas sae de poços ou fontes. Em o
destricto de toda esta Freguezia só ha tres, huma na herdade do Alemo, e outra na
herdade chamada da Fuzeyra, sendo outra que he na herdade chamada do Passo, a mais
estimada das gentes não por especial qualidade que suas agoas tenhão, sim por estar em
pouca distãnçia da Ermida da já referida Senhora dos Remédios, cujas bebendoas com
fé na mesma Senhora os Enfermos experimentão muytos delles nas suas queyxas
evidentes milhoras. Na herdade da Ararochinha ha outra fonte, sem especial qualidade
nas suas agoas.

24. Nada.

25. Nada.

26. No terremoto de mil sette centos cincoenta e cinco não houve nas cazas desta
Freguezia ruina alguma considerável, só nas paredes da Igreja, e do coro desta Parochia
se abrirão algumas tenues raxas; a que o Parocho com vigilante cuydado acodio,
precedendo o serem vistas pello mestre de obras do Excelentissimo e Reverendissimo
Senhor Arcebispo, que dizendo não offenderão o todo, com o concerto, que se lhe fes se
conserva the ao prezente sem temor, nem ameasso de ruina.

27. Sobre a primevra parte destes interrogatórios não achey couza alguma mais quedeva
referir.

Segunda Parte dos Interrogatórios
Nesta segunda parte, em que se procura saber as ethimologias das serras, das lagoas, da
largura, do principio e do fim, dos nomes, rios, villas, lugares, e tudo o mais que nellas
possa haver conciderável, nada tendo que dizer por não haver em o districto de toda esta
Freguezia serra alguma que seja digna de comemoração.


Terceira Parte dos Interrogatórios
1. Nesta Freguezia pouco distante desta Parochia ha huma ribeyra chamada Pardielas,
cujo principio he em a Freguezia chamada de Sam Bento do Matto, distante desta quase
legoa e meya. Além desta ribeira ha outra em distancia desta Parochia huma legoa, a
que chamão de Machede, que naçe tambem na sobre ditta Freguezia de Sam Bento do
Matto.

2. Nenhuma das sobre dittas ribeyras principia caudeloza; só correm no tempo do
Inverno, em que as cheas que tomão lhe dão o cursso perdurandolhes este só emquanto
chove, porque a multidão das áreas, do que principalmente a ribeyra Pardielas he
abundante, embebendo as agoas em pouco tempo as suas correntes suspendem, sendo
por este motivo muy difficultoza a sua passagem, ainda quando vay menos chea, rezão
porque tambem asim huma outra no tempo do // (do) Veram quazi de todo se secam.

3. Na ribeyra da Pardielas entrão no destrito desta Freguezia duas, huma chamada a
Ribeyra do Babarram, que nasce nos coutos de Évora Monte duas legoas desta Parochia,
e outra chamada a ribevra do Espinheiro, que tem o seu principio nas baxas da Serra de
Ossa, distante desta Parochia duas legoas, ambas com as mesmas circunstancias, que
nas acima referidas se ponderarão.

4. Nada.

5. O arrebatado curso de todas estas ribeyras já em o número segundo fica descrito.

6. Correm todas do Norte para o Sul.

7. Os peyxes que nellas se crião são pardelhas e bordalos.

8. A estas ribeyras custumão os moradores desta Freguezia, aldea, e lugares hir no
tempo do Inverno pescar à cana.


9. As suas pescarias são livres.


10. As suas marges se cultivão semeandose de pam, e fazendose em algumas partes
dellas moloais. Não tem arvoredo mais que sylvestre, excepto a de Pardielas, que em
algumas partes he acompanhada de azinheyras, e tãobem as duas que nella entrão.

11. Nada.

12. Não consta que desde o nascente the o poente tenhão outros nomes alem dos sobre
ditos, nem tivessem em outro tempo.

13. Todas as suas agoas se sepultão em o rio chamado Degebe: a Ribeyra de Pardielas
em a Freguezia de Sam Manços deste Arcebispado em distância desta Freguezia duas
legoas, a Ribeyra de Machede na Freguezia de Nossa Senhora de Machede deste
Arcebispado distante desta Parochia legoa e meya.

14. Nada.

15. Nada. /

16. Na ribeyra de Pardielas ha em o districto desta Freguezia hum so moinho chamado
Salgado.

17. Nada.

18. As agoas destes rios são livres.

19. A ribevra Pardielas do principio onde nasce dista do rio onde morre tres legoas e
meya, e não passa por povoação alguma. A de Machede do seu principio the onde
finaliza dista duas legoas, e passa junto da povoação da aldea de Nossa Senhora de
Machede Freguezia deste Arcebispado de Evora.

20. Tem a Freguezia de Sam Miguel de Machede seis centos sessenta e cinco pessoas de
confição, e comunhão trezentas noventa e duas só de confição cento e duas. Menores
cento settenta e huma.

21. Tem o lugar do Moinho Queimado cento quarenta e oyto pessoas, de confissão e de
comunhão settenta e sinco, só de confição quinze e menores cincoenta e sette.

22. Tem o lugar da Quinta do Casco sesenta e huma pessoas de confição e comunhão
quarenta e seis, de confição só oyto, menores sette , cujas todas juntas com as dos
montes fazem o numero das que em o numero terceyro da primeyra parte dos
interrogatorios se disse tem esta Freguezia.

Nestes interrogatorios não ha couza alguma mais que seja notavel e julgasse digna de se
incluir nesta rallação, que offeresso fundamentada com as pessoas modernas e antigas
desta Freguezia. Sam Miguel de Machede. 7 de Junho de 1758.

O Paroco Martinho da Costa Carvalho

(1) S. Miguel de Machede: Freguesia rural do Concelho de Évora. O principal aglomerado populacional e
sede da freguesia é S. Miguel de Machede, a qual foi elevada a vila pela Lei nº. 1519 de 29/12/1923.
Situa-se a cerca de 17 Km a NE de Évora e é atravessada pela EN 254 (Évora-Redondo).
Área: 8 153 ha
População presente: 1 052 hab. (Censos 1991)
Tradicionalmente é referido que no local onde hoje está a Igreja Paroquial (ou nas suas proximidades)
existiu o Convento de S. Bento no tempo dos godos, onde o santo fez muitos milagres, pelo que
chamavam aquele local “Machdas”. que significa “Terra” ou “Lugar Santo”, de cuja corrupção nasceu o
nome de Machede - Padre Francisco da Fonseca. Évora Gloriosa, Roma, 1728. pág. 223
Não sabemos quando foi constituida esta freguesia. Túlio Espanca, no Inventário Artístico do Concelho
de Évora, diz-nos que é uma aldeia de origem antiga; a primeira referência documental conhecida é de
1424 e foi institucionalizada no séc. XVI, com a separação da matriz de Santa Maria de Machede.
Todavia, António Francisco Barata refere com base “[…]em documentos sem autenticidade, é que até ao anno de l200, aproximadamente, a população de S. Miguel fizera parte da freguesia de Nossa Senhora de Machede, e que por esses tempos, naturalmente, por sua vastidão, tivera de ser desmembrada desta, para melhormente poder ser curada” - Breve Notícia da freguesia de S. Miguel de Machede,1903, pág. 7.

(2) A residência do Paço da Quinta é um precioso exemplar rústico - palaciano de construção recente (sécs. XIX-XX), profundamente ligado à cultura regional através dos cenáculos literários nela efectuados e mantidos pelo brilhante espírito de D. Leonor Caldeira (fundadora do Grupo Pró-Évora). Conserva ainda no seu interior a tradicional “casa da amassaria” e no exterior o jardim de características românticas, com um teatro ao ar livre.

(3) Actualmente denomina-se Foros do Queimado e é um núcleo populacional com alguma expressão nesta freguezia.

(4) A Igreja Paroquial já existia em 1534. E um templo do “tipo rural, com fachada voltada ao poente, defrontão de enrolamento e torre sineira de capacete piramidal, onde se conservam dois sinos de bronze [...]
- Túlio Espanca, Arrolamento das Freguesias Rurais, p. 174. No seu interior possui seis altares na nave e
no interior existem dois quadros de pintura a óleo sobre madeira da Escola Primitiva Portuguesa de
meados do séc. XVI, representando a Anunciação e o Presépio e no altar da sacristia existe um tríptico de pintura maneirista, emoldurado por colunas dóricas, mostrando o Calvário, o Passo do Senhor e a
Deposicão no Túmulo, do mestre eborense Francisco João.
Existe também na vila a Igreja de S. Francisco, antiga sede da Ordem Terceira de S. Francisco, instituida em 1777 e inaugurada a 31 de Maio de l789; é de estilo barroco de características regionais. Tem alpendre de tripla arcada de alvenaria e o seu interior é de planta rectangular com sóbria nave de tecto de solta plena decorada por dois altares laterais e nichos rasgados na capela-mór.

(5) Segundo Frei Agostinho de Santa Maria, no Santuario Mariano, Vol.6., a Ermida de Nossa Senhora dos Remédios remonta aos Primeiros anos da fundação da monarquia portuguesa, teria a forma de uma torre militar onde as populações se refugiavam. Porém, o mais credível, é atribuir a este primitivo edifício sacro - militar a data aproximada de 1360, quando foi instituido o Morgado de Machede ou dos Cascos. O edifício existente sofreu multas alterações (finais do séc. XVII), quer a nível interno, quer externo. Actualmente encontra-se em fase de restauro, uma vez que foram encontrados frescos sob a caiação, destacando-se a abobada da capela-mor em forma de concha, o que nos sugere a hipotese de que este lugar esteve primitivamente ligado aos caminhos de peregrinação a Santiago de Compostela.

(6) Oratório do Senhor Jesus dos Esquecidos: foi reconstruido em l785. Trata-se de um oratório popular, modesto, de paredes levemente pintadas, centrado por retabulo de maquineta rococó, de madeiras polícromas e uma vulgar imagem de “Cristo na Cruz” - Túlio Espanca. Arrulamento das Freguesias Rurais. Évora, 1957, pág. 176.

(7) Juliano “Bispo de Évora, sabe-se que viveu cerca de setenta anos, faleceu no l°. de Dezembro de 566 e foi sepultado na igreja de um convento beneditino, no lugar onde séculos depois se ergueu a igreja paroquial de Machede.” - Fortunato de Almeida. História da Igreja em Portugal, Porto, Potucalense, 1967, Vol I, pág. 65b).

(8) “Em Lugo realizou-se um concílio no ano de 569. Não existem as actas originais, mas parece certo, ao menos pelo consenso dos historiadores, que nele se resolveu, a pedido do rei suevo Teodomiro, já
convertido ao catolicismo, elevar a catedral de Lugo a dignidade arquiepiscopal, e fazê-la meiropolitana
com cinco igrejas sufragáneas: Orense, Astorga, Iria Flãvia, Tiu e Britónia. Esta divisão não foi duradoira. Assistiram ao concilio nove prelados, entre os quais Lucrécio, arcebispo de Braga.” - Fortunato de Almetda. Idem, pág. 33a)



Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.

1758 Junho 4 - São Matias
Memória Paroquial de São Matias, Évora (Freguesia suprimida, foi anexada à freguesia de N.ª S.ª da Graça do Divor)
[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 23, nº 86, pp. 575 a 584]

Respostas aos interrogatórios que por ordem de Sua Magestade Fidelissima serão
enviados a Vossa Excellencia Reverendissima, a qual hé pelo que pertence a Freguezia
de São Mathias termo da cidade de Évora, huma legoa distante da mesma.

Advertênçia
Respondese somente aos interrogatórios que se acharão pertencerem e se puderão
adaptar a esta Freguezia, e seu território; e respondendo aos primeiros que se achão
transcriptos debaicho do primeiro titulo, convem a saber: O que se procura dessa terra
hé o seguinte: prinçipia discorrendo do primeyro athe o ultimo.

Ao 1°. interrogatório Fica esta Freguezia de São Mathias(1) na Província do Alemtejo e
pertence ao Arcebispado de Évora, e todo o território desta Freguezia hé e está dentro
do termo da sobreditta cidade, da qual só dista huma legoa.

Ao 2°. Hé o território desta Freguezia da Jurisdicção Real, assim, e da mesma sorte que
a cidade de Évora, da qual hé termo, e compoemse de vinte e duas herdades, sendo que
algumas dellas, são por extremo pequenas, e são de certos e particulares senhores. //

Ao 3°. Tem ao prezente salvo erro, cento e sincoenta vizinhos, ou pessoas que
separadamente vivem nas cazas das herdades, que se achão no seu território, entrando
nesta conta homens cazados e solteiros, os quais unidos com suas famílias, e filhos
fazem a conta de quinhentas pessoas.

Ao 4°. O território desta Freguezia não tem campina que seja dilatada, porque
conprehende na sua breve extensão mais montes que vales, por cuja razão produzem
suas terras mayor abundancia de senteyo que de trigo; e essa também a cauza porque se
não avista de dentro de seus limittes, salvo engano, lugar ou aldêa alguma.

Ao 5°. Já se disse ao primeiro e segundo interrogatório, que o território desta Freguezia
se compõem de vinte e duas herdades que conprehende com os seus moradores, que são
os fregueses desta mesma, e não contem dentro de si lugar ou aldêa.

Ao 6°. Está esta Freguezia de São Mathias fora da cidade de Évora, e huma legoa
distante da mesma, porém dentro do seu termo como já está ditto.

Ao 7°. Hé o Orago desta Parochia, o Apostolo São Mathias(2), e tem esta trez Altares: o
Altar Mayor hé da Sancta digo deste Sancto e hum dos collaterais hé da Senhora do
Rozario, e o outro do Senhor Sancto António. Não tem naves esta igreja. por pequena,
estreita e pobre, tem somente huma Irmandade e esta hé de Nossa // (de Nossa) Senhora
do Rozário.

Ao 8°. Hé o sacerdote que de prezente governa no espiritual os fregueses desta
Parochia, Parocho emcomendado pelo Excellentissimo Senhor Arcebispo de Évora, do
qual he também sacerdote e apprezentação amovivel, e sem collação, assim como outros
que há deste género nos campos deste Arcebispado que lhe pertençem. Não consistem
suas rendas em dízimos, porque estes se pagão a quem por direito pertencem e
conforme sua instituição, e somente para sua congrua lhe dão os freguezes, certa porção
de trigo de suas herdades digo de suas herdades; e assim achase estar dotada, em três
moyos e quarenta e sinco alqueres de trigo, e hum moyo a quinze alqueres de sevada.

Ao 9°. Nesta Parochia não há mais que o Parocho para ensinar e doctrinar os seus
freguezes e administrar-lhe os sanctos sacramentos.

Ao 10°. Tem esta Freguezia no seu distrito hum convento de Religiosos Eremitas de
São Paulo(3), pobre, dizemos religiosos que não tem Padroeiro e que só fora concedida a
terra em que se acha edificado por certo homem pio, por esmola, e para sua fundação, e
que se movera a fazer esta doação, por ver a pobreza e aperto com que vivião aqueles
eremitas primeiros fundadores deste Convento, os quais antes da sua fundação existião
em huma pequena caza fabricada na costa de hum outeiro, que fica pouco // (pouco)
distante deste mesmo Convento.

Ao 11 e 12°. Não há couza alguma do que se procura.

Ao 13°. Tem esta Freguezia dentro nos seus limittes certas Ermidas, sendo a mais
principal e a mais nobre de todas pella grandeza do seu artefacto, a Igreja chamada de
Nossa Senhora de Agoa de Lupe(4), a qual se acha situada no mais plano de hum pequeno
monte, e junto das margens de huma grande Ribeira, que se denomina com tantos
nomes, quantos são os sitios por onde passa, ainda que sejão de pouca distância e
porque corre junto desta Parochia de São Mathias, se chama a Ribeira de São Mathias e
em chegando a Igreja de Nossa Senhora de Agoa de Lupe, mudando logo o nome se
intitula com o mesmo que o hé da Senhora. Hé esta Ribeira no tempo somente do
Inverno, bastantemente caudeloza, e nella tem succedido muitas disgraças, porque
atravesando-se na estrada direita que vai de Évora para Lisboa, não dá então passage
livre aos pobres caminhantes porque não tem ponte nesta estrada. Fazem as agoas desta
ribeira emquanto durão, e dentro dos limittes desta Parochia ou Freguezia, moer sinco
moinhos successivos, e são os únicos que no seu destricto há, e também há dentro em
seus limittes, trêz lagares de azeite, porém não são de agoa, ou impellidos pella mesma.
A terra em que está situada a Igreja desta Sagrada Imagem de // (de) que aqui se tem
tratado, pertence a Câmara da Cidade de Évora. Hé esta Imagem sagrada muito celebre
pelos innumeraveis prodigios, que dizem tem obrado e entre estes não hé o menor haver
livrado a cidade de Évora e suas vizinhanças, do contagioso mal da peste, ao mesmo
tempo, que tambem ardia com elle a cidade de Lisboa, que dizem ser livre della por
intercessão da mesma Senhora, com o título de Penha de França.
Em distinctos tempos do anno se fazem a esta Imagem várias festas, pelas octavas do
Espírito Sancto, a solemnizão os moradores da Villa de Arraiolos e cidadãos de Évora, e
em Setembro, mas sem dia determinado a festejão os vizinhos da sobreditta Ribeira. A
segunda Ermida que há dentro desta Freguezia, he a da Senhora de Monte Serrate(5), a
qual se acha junto de huma quintinha e em terra que possuem os Religiozos Eremitas de
São Paulo. Dizem que estes Religiozos ali viverão algum tempo, em forma claustral, e
que a ditta Imagem fora milagroza, porém esfriando-se com o curso dos tempos a
devoção, apenas hoje se sabe o nome da ditta Imagem, mas ainda se lhe faz huma festa
no mêz de Setembro, no dia que para isso e assigna, porque aliás he também incerto.
A terçeira Ermida he a de Nossa Senhora da Conceição sitta na Quinta chamada do
Chixorro, de que [é] Senhor, hum Morgado da cidade de Évora chamado Manuel Lobo
Cordovil(6).
A quarta Ermida // (Ermida) ou Capelia hé a de Nossa Senhora do Rozário sita em
huma herdade chamada a Fiúza a Fiuza (sic), de que hé Senhor o Reverendo Deão da Sé
de Évora(7).
A quinta Ermida hé a de Nossa Senhora da Conceição sita no Pátio do Azinhal, em
huma quintinha de Dom António José de Mello, e a esta Imagem se lhe faz a sua festa
no dia octavo de Setembro(8).

 

 


 Ao 14°. A nenhuma destas Imagens ou suas Ermidas, acóde romagem, menos o que de
cada huma dellas está ditto, ao deçimo terceiro interrogatorio.

 

 

Ao 15°. Os fructos que os moradores desta Freguezia colhem em mayor abundânçia são
senteios, como já se disse ao quarto interrogatório, e isto pela incapacidade das terras,
que se achão dentro dos seus limittes, que são menos aptas para a produção de trigos.

Ao 16°. Porque dentro dos limites desta Freguezia não há lugar ou aldea alguma, e fica
esta huma só legoa distante da cidade de Évora e só consta das herdades já referidas ao
segundo interrogatório, com todos os seus moradores, apenas há nella juiz da vintena, e
assim vive sugeita às justiças de Évora.

Ao 17°. Fica respondido // (fica respondido) com o que se disse já para o primeiro
interrogatório.

Ao 18°. Por hora não há lembrança de que floreçesse em tempo algum neste território
desta Freguezia, pessoa insigne em virtudes, letras ou armas.

Ao 19°. e 20°. Não há que responder, porque o que se pergunta, só o há na cidade de
Évora, da qual corno está ditto dista esta Parochia huma legoa.

Ao 21°, Fica esta Freguezia distante da cidade de Lisboa dezanove legoas, a de Évora
capital do Arcebispado, o que assima se diz.

Ao 22°. Quanto a todo desta Freguezia não se sabe tenha privilegios dignos de
memória.

Ao 23°. Não consta que haja no districto desta Freguezia fonte ou lagôa celebre.

Ao 24°. Não há que responder.

Ao 25°. Há no districto desta Freguezia, ou para melhor dizer nos confins da mesma,
hum castello antiguo. em o sitio chamado Monte Muro, junto da herdade chamada (a
Proven) // a Provença, o qual castello de denominação o Castello de Giraldo(9), e está
posto em o cûme de hum elevado monte, porém no tempo prezente apenas se diviza
nelle o que antiguamente foi. Não se descreve aqui quem foi este Giraldo, e o princípio
daquele castello, porque sendo comum a todos os cidadãos de Évora a notíçia do
mesmo, pareçeo superfluo introduzir nesta breve resposta, o progresso da sua vida,
fama, e obras, as quais se [...] largamente narradas na resposta que por parte da mesma
cidade se expedir, e assim parece desnecessária a repetição do que na mesma hé
infalível se dirá.

Ao 26°. Não fez impressão notável no que toca a esta Parochia e seu districto, o
terremoto do anno de mil e settecentos e sincoenta e sinco.

Não se achou mais que responder, pello que toca a esta Freguezia de São Mathias termo
da cidade de Évora, da qual e pelo que pertençe a mesma emana a prezente resposta,
que vai feita e assignada por mim Parocho emcomendado desta mesma Freguezia de
São Mathias termo dajá referida cidade de Évora, aos quatro dias do Mez de Junho, de
mil e sette centos e sincoenta e outo.

O Emcomendado Jozé Gomez de Figueiredo

Declarei (se hé neçessária mayor // (mayor) declaração) que eu Parocho emcomendado
respondi aos prezentes interrogatorios nesta mesma Freguezia de São Mathias, donde
actualmente assisto, e por verdade me assignei, no mesmo dia, mêz e anno supra.
O Parocho Emcomendado José Gomez de Figueiredo

(1) S. Matias: Extinta freguesia rural do Concelho de Évora, já existente no séc. XVI. Fica situada a 10 km
de distância de Évora, do lado Norte da estrada nacional 114.

(2) A Igreja de S. Matias conserva ainda no seu exterior elementos arquitectónicos da época manuelina,
apesar da sua frontaria apresentar profundas tranformações que lhe modificaram a traça original. Nas suas
proximidades existe um cemitério de pequenas dimensões que foi benzido a 1 de Novembro de 1907, e
que foi construído com verba de subscrição pública dos paroquianos da freguesia.

(3) Sobre este assunto são notória, as referências de Manuel de Castro Nunes em As Covas de Montemuro.
Noticia Princeps, 1993

(4) Nossa Senhora de Guadalupe: Freguesia rural do Concelho de Évora, criada pela Lei n°. 128/85 de 4/
10/1985, quando foi desanexada da Graça do Divor. Situa-se a 13km de Évora, com acesso pela EN 114.
O principal lugar é a aldeia de Guadalupe. Área: 6 685 ha. População presente: 505 hab. (Censos 1991)
A Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe foi fundada em 1609 (se bem que anteriormente já existisse um
oratório) e inaugurada solenemente em Setembro de 1615. O edifício foi gravemente danificado pelo
ciclone de Fevereiro de 1941 e alvo de profanação. Em 1964, a Câmara Municipal de Évora, em
colaboração com a Mitra Eborense, autorizou a sua reabertura e custeou as obras de reparação, no âmbito
das quais foram demolidos os alpendres que serviam de abrigo aos peregrinos.

(5) Ermida de Nossa Senhora de Monserrate (acerca de 1km de Valverde, na Quinta da Provença) edifício
de características arquitectónicas muito simples, todavia encantador; no seu interior existem imagens da
Senhora da Conceição, S. Francisco, Nossa Senhora de Monserrate (séc. XVI) e algumas pinturas votivas,
remontando as mais antigas a 1755.

 (6) Quinta do Chorro (a 7 km de Évora, acesso pela EN 114): casa de tipo rústico solarengo do séc. XVIII.
O corpo nobre fica no primeiro andar e é consittuido por uma fachada e porta com ombreiras graníticas,
do período de D. João V, que deitam para o terraço com arcadas de volumes desiguais, oferecendo um
aspecto pitoresco; numa chaminé virada para o extradorso lê-se a data de 1747, data provável da
remodelação do edifício. Capela existente no local é dedicada a Santo Inácio dc Loiola.


(7) “Do primitivo solar rústico pouco existe digno de menção, além de alguns tectos de madeira, antigos,
de esteiras lavradas em caixotões. A Capela, de invocação de S. José do Egipto, deve-se a D. João de
Bragança, sobrinho do arcebispo D. Teotónio de Bragança, que a dotou amplamente e obteve do Cabido
licença para nela de celebrarem ofícios religiosos em 8 de Novembro de 1597. […] À profanação do
templete, verificada nos últimos trinta anos […] Desde então ficou em completa ruina.” - Túlio Espanca,
Inventário Artístico do Concelho de Évora, pp. 372b)-373a).

(8) O Morgadio do Azinhal foi instituido em 1539. Na 2ª. metade do séc. XIX a propriedade entrou em
poder da família Matos Fernandes, e o Dr. Francisco Barahona Fragoso reconstruiu o solar rural e
enobreceu a herdade com tapadas de veados e outras espécies, tanques e pomares. O corpo principal do
edifício conserva ainda algumas características quinhentistas com fortes cunhais e torre angular.
Na face ocidental do pátio está a Capela dedicada à Virgem da Conceição, de estilo renascença e fundada
na 2ª. metade do séc. XVI; no seu interior existem dois painéis pintados a fresco representando temas do
Apocalipse de S. João.


(9) O denominado “Castelo do Giraldo” localiza-se nos limites da freguesia, nos contrafortes da Serra de
Monfurado. É um “povoado” neolítico/calcolítico, rodeado por uma muralha de pedra solta e quase
circular, com o perimetro de 114m e uma espessura de 3m. Aquando dos trabalhos arqueológicos
realizados por Afonso do Paço e José Fernandes Ventura (l960), encontraram-se diversos vestígios,
nomeadamente machados de pedra polida, pontas de seta de sílex, mós manuais de granito e fragmentos
de cerâmica. Existe a tradição de que neste “Castelo” se abrigava Giraldo Sem Pavor e seus
companheiros antes da reconquista da cidade de Évora aos mouros, assim como lendas de tesouros
escondidos.



Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado


GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95),
pp. 89- 156.


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