Memórias Paroquiais

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Etiqueta: Francisco Segurado
  • Memórias Paroquiais (9)

Santa Ana de Bencatel
Vila Viçosa
[1758]
Memória Paroquial da freguesia de Santa Ana de Bencatel, concelho de
Estremoz, distrito de Évora.
(ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 7, nº 3, pp. 729 - 730.)
/p. 729/
N.3.
Freguezia de santa Anna de Bencatel termo Estremoz1
termo de Estremos, Arçebispado de
Evora.
Esta freguezia não só he do Arçe
bispado de Evora; mas tambem da mesma comarca
e a sua aprezentação pertençe ao exelentissimo senhor Arçebispo;
mas paga o paroco della, cada anno, quatrocentos
reis ao senhor doutor juis da ordem de Estremos;
a que se chama a reconheçenssa.
Está situada a igreja parochial
em hum monte não muito alto, e dele não se descobre
mais, que huma pequena parte da villa do Redondo: comfinna
com o termo da villa do Alandroal, e no mesmo
termo tem muitos freguezes: dista da mesma villa, meya
legoa: dista da villa do Redondo legoa, e meya: dista de
Villa Viçoza huma legoa, e no seu termo tem a mayor
parte dos freguezes: dista da villa de Estremos mais de
duas legoas: dista da villa de Borba legoa, e meya.
No termo de Villa Viçosa tem huma
aldeya chamada de Bencatel, a qual com seus
çircumvezinhos, tem setenta, e sinco fógos, em dis-
1 Letra diferente, poderá não ser da mesma época, visto Estremoz está escrito com Z e no restante texto
aparece com S.
tançia de meya legoa da mesma villa.
E ao prezente, toda a freguezia, tem
çento, e setenta, e dous fogos, entretando os da aldeya
supradicta: tem pessoas de confissão, entrando mayores,
e menores, trezentas, e trinta; a deste numero,
digo, quinhentas, e trinta.2
são setenta, e sete menores; que são os que ainda
não reçebem o sacramento da sagrada eucharistia.
O orâgo desta freguezia he
a senhora Santa Anna; tem a igreja parochial quatro
altares: no altar mayor tem a imagem da senhora Santa
Anna; de S. João Baptista, e de Santo Antonio: nos dous
colateraes, tem no lado esquerdo a imagem do senhor Jesus,
e no do lado direito a imagem da senhora do Rozario: tem
mais o altar da almas, sem correspondençia de outro,
e este altar fica da parte do lado direito: não tem naves;
por ser muito pequena.
/p. 730/
Esta freguezia está situada parte
della em campos, e parte em montes; mas pouco asperoso
todos fructiferos; especialmente de çenteyo, pois a mayor
parte della he terra de estevâes, que só por darem çenteyo,
e algum trigo galego.
O paroco desta freguezia, he cura.
He aprezentado pelo Exelentissimo Senhor Arcebispo de Evora.
Tem de renda, quatro moyos, e meyo de trigo, e vinte, e
oito alqueyres de sevada, e mais, huns annos por outros, rende
sinco, ou seis moedas de ouro. Não tem benefiçiados,
nen convento algum, nem hospital, nem Caza de Mizericordia.
Tem no termo de Villa Viçoza a ermida
de S. Pedro, e contigua a ella; a capella da Senhora
2 Correcção efectuada pelo paroco.
das Merçes: a de S. Pedro he da jurisdição do paroco;
e a da Senhora das Merçes, he da jurisdição do prior da Senhora
da Conceyção de Villa Viçoza; por huma antigua posse
em que se introduzio; por negligençia do paroco que
era nese tempo: todos os Domingos de Setembro
tem festa, romágens a Senhora das Merçes; e passado ese
tem [sic]3 não tem mais festas; mas sim algumas romagens
dos seus devotos. Esta ermida, e capellas estão
sitas na herdade de El Rey, que he do Ducado de Bargança
[sic], meya legoa distante de Villa Viçoza.
Nesta freguezia as terras dão
trigo, e çenteyo; mas mais trigo: são pouco ferteis de
sevada: dão de todo o genero de legumes, e sendo annos
de abundançia de agoas, tambem se colhem nella
bastantes feijões brancos, e fradinhos.
Nesta freguezia sómente há
dous juizes da ventana: hum no distrito de Estremos, e
outro no distrito de Villa Viçosa. Não he couto, nem
cabeça de conselho, honra, ou behetria.
Desta freguezia floreçeo o
capitão emgenheyro Manoel Lopes da Sylva, que ainda
que filho de pais humildes, foi muito grande nas armas,
engenho, e prendas, na guerra proxima passada; e por tal
muito bem conheçido, e estimado dos mayores ofiçiaes da
mesma miliçia; o qual há poucos annos faleçeo nesta
freguezia; estando reformado, com soldo inteiro de capitão
/p. 731/
Nesta freguezia não há feyra
nem tem correyo, e do correyo de Villa Viçoza que chega
na quinta feyra, he do que se serve.
Da çidade de Evora capital
deste arçebispado, dista sete legoas; e da capital do
3 Deverá entender-se “tempo”.
reyno, dista vinte, e duas, ou vinte, e tres legoas. Não
tem privilégios, nem antiguidades dignas de memoria.
Tem esta freguezia no termo
de Villa Viçoza, proxima a estrada que vay de Estremos
para o Alandroal; huma lagoa, ou nascente
de abundante agoa, com a qual moem dezanove
asenhas de emgenhos reaes. Tambem tem suas fontes
muito boas de excelente agoa de beber; mas não
dignas de exageração. Não he esta freguezia porto do
mar, nem terra murada; mas sim huma freguezia de campo.
Na ocazião do terremoto
do anno de 1755 alguma ruina padeçeu: porem
foi couza de pouca consideração, e que tudo esta remediado
ao prezente.
Não conthem esta freguezia
em si mais serra, que huns montes das abbas
da Serra de Ossa, e hum monte bastantemente alto
e aspero, chamado a Serra da Vigaria, a onde dizem
esteve [sic]4 o Caraçenna, general de Castella, na ocazião
da batalha de Montes Claros, que foi no
pláno, e raiz do dito monte.
Proximo ao dito monte
há admiraveis minas de marmores brancos, e azûes,
matizados de branco, sitos na herdade da Vigaria,
e do Barrinho, que são da caza do morgado
de Pixinhos, ou por outro nome dos Zuçenas: o dito
monte he inculto. Nele não há mais, que pedras,
e carrascos, e de sua qualidade he muito frio; e si
cria alguns coelhos, e perdizes. Deste monte e Serra
da Vigaria, não nasce rio algum; mas na raiz
delle, para a parte do nascente, tem hum poso
de boa agoa, e bastante.
Por esta freguezia, perto das a-
4 É possivel que falte a palavra “que“ entre “dizem” e “esteve”.
bbas dos montes da Serra de Ossa, cá para a parte do
nascente do Sol; passa a ribeyra de Busafesse, que
tem seu principio na freguezia de S. Tiago de Ryo de
Moynhos, e vay meterse na Guadianna, na herdade
do Aguilhão, a onde este Reyno confinna com Castella;
mas esta rebeyra custuma secarse, e deixar de correr,
em vindo o tempo do Verão; por conta de lhe terarem
as agoas, para regarem feijoaes na dita freguezia
de S. Tiago de Ryo de Moynhos: esta ribeyra
se compoem das agoas que sahem dos montes da
Serra de Ossa, das agoas dos nascentes da freguezia de
S. Tiago, e dos nascentes desta freguezia: corre de
Norte a Sul: cria boas pardelhas, e singulares bordallos,
e tambem algumas bogas: as suas margens
se cultivão, e dão muito trigo, e sevada: em toda
a parte conserva o mesmo nome.
Nesta ribeyra há muitos moynhos
de fazer farinha no tempo do inverno, e tambem
tem hum lagar de azeite, e huma ponte de cantaria
junto á villa de Terena: nunca ouvi
dizer, que de suas areas se tirasse ouro, ou prata.
Nunca ouvi dizer que deixassem de ser livres
as suas agoas, e pescarias.
Esta he a noticçia que posso
dar desta freguezia de Santa Anna, a respeito dos jnterrogatorios
que me forão entregues, por via do muito Reverendo
Vigario da vara da villa de Estremos; e em pude
verdade me a signei. Santa Anna de Bencatel.
11 5 de Abril de 1758.
Paroco o padre João Toscáno da Pálma.
Francisco Segurado
5 Sublilhado da época.

S. Bartolomeu, Vila Viçosa
VILA VIÇOSA, 1758, 20 de Abril.
Memória Paroquial da freguesia de S. Bartolomeu, concelho de Vila Viçosa, distrito de
Évora.
(ANTT, Memórias Paroquiais, volume 40, nº 271a, pp. 1665 – 1668).
/p. 1665/
VillaViçoza S.Bartolomeu
Obedecendo á ordem de Vossa Excelencia em que
me manda responder a huns interrodatorios
que com a mexma me forão entregues, digo que
esta Villa Viçosa hé huma das mais illustres
povoaçoens do Alem Tejo: nela residião os serenissimos
Duques de Bragança athé que com a aclamaçam
do senhor D. João 4 transferirão o seu assento para
a corte de Lixboa. Abunda de couzas muito
notáveis; mas como estas são do territorio
da jgreja matriz, ao reverendo prior della pertense
refferi-laz, descrevê-laz; pois eu cingindo-
me percissamente á minha freguesia, digo que
Tem esta freguesia de S. Bartolomeu
563 fogos, e 2073 freguezez, os quais são
curados por hum prior, que tem de congrua
tres moyos de trigo, dous de sevada, e vinte mil
reis em dinheiro, e dous beneficiados tem cada
hum de renda dous moyos de trigo, moyo,
e meyo de sevada, e dez mil reis. Tanto prior
como beneficiados são da appresentação de Sua
Magestade como governador e perpetuo administrador
da Ordem Militar de S. Bento de Aviz,
a cuja Ordem pertencem as jgrejas parochiaiz,
e comenda desta villa.
Não tem a freguesia jgreja
proprias [sic] e se está servindo há muitos annos
da jgreja da Misericordia sem que Sua Magestade
por mais contas, que desta falta lhe tem dado
os priorez da mesma tenha sido servido mandar
continuar à jgreja propria, que há muitos anos
se conserva só com os alicersez. Estão sitas
nesta jgreja paroquial tres jrmandades:
primeira do Santissimo Sacramento que alem das obrigações
gerais à similhantes jrmandades cuida do ornato do
altar, e culto de huma jmagem do senhor morto vulgarmente
chamada o senhor do descendimento; com o qual tem
/p.1666/
este povo huma extraordinaria fé, e devoção:
segunda das almas, que florece muito pella grande piedade,
e applicação dos jrmãos, que administrão os seos
bens conservando outo cappellaenz com missa
quotidiana e tendo a sua sachristia muito bem
provida de pratas e ornamentoz: terceira da Senhora
do Rosario; que não tem couza, que mereça particular
memoria.
A caza da Misericorda
hé das mais antigas deste Reino, e se entende
a erigirão os serenissimos Duques de Bragança,
que servião de provedores, emquanto residirão
nesta Villa e ainda hoje os provedores, e escrivãez
não são feitos por votos da jrmandade, mas ella
propoem tres para cada hum dos dois cargos, e Sua
Magestade escolhe qual lhe parece, particularidade
que não consta tenha outra algũa Misericordia.
Tem de renda 444.667 reis; e assim
hé a mais pobre de todas as circumvisinhas.
Nesta caza erigio a piedade dos serenissimos
Duques de Bragança hum hospital para
curar o mal venereo nas duas estaçoenz de
Primavera e Oitoneo, dotando-o para este effeito
com liberalidade propria de tão grandes princepez;
pois lhe consignándo em cada hum anno 406.070
reis sette moyos e meyo de trigo, e vinte quatro
alquirez de azeite, tudo pago no almoxarifado
desta villa vindo todas estas addicçoenz nas
folhaz, e sendo cobradaz por conhecimento do escrivão
da meza. Porem, depois do terremoto
de 55 nùnca mais vierão lançadas nas
folhas do almoxarifado as ditas addicçoenz com motivo
de se terem queimado no incendio daquelle
fatal dia os tituloz por onde se lançavão, suprimindo-
se por esta falta as curas do dito mal, com
grande perjuiço dos pobres, que morrem faltos de
/p. 1667/
remedio, não havendo em toda esta Provincia
outro algum hospital, em que se fação similhantes
curas.
Há nesta freguesia dois conventos
de religiosos, e dous de freiraz, daquelles hé
hum a caza professa da Companhia de Jesus, cujas
comunidade se compoem de oito sacerdotes, e dois
leigos; e o outro he de S. Paulo, que costuma
ter 22 athé 27 religiosos. De freiras hé
o primeiro o das Chagas do instituto do Patriarcha S.
Francisco que tem numero certo de 60, eo de Santa Cruz,
que proféssa a regra de Santo Agostinho, que não
tem numero certo de religiosas; e ao prezente se compoem
de oitinta, e tantas. Os tres primeiros
conventos tem por padroeyros os serenissimos Duques
de Bragança, e só o de Santa Cruz hé, que
não tem padroeyro algum. Hé o que se me
offerece dizer a Vossa Excelência. VillaViçosa em 20
de Abril de 1758 1 .
[Prior]2 da freguesia de S. Bartolomeo de Vila Viçosa Frei Antonio Xavier do Válle.
Transcrição: Francisco Segurado
Revisão: Fernanda Olival
1 Sublinhado da época.
2 Margem apertada e como tal ilegível no microfilme do ANTT.

Ciladas, 1758, Maio, 2
Memória Paroquial da freguesia de Ciladas, comarca de Vila Viçosa
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 11, nº 326, pp. 2229 a 2238]


/p. 2229/


N. 326 Ciladas termo Villa Viçoza1


Exelentissimo e Reverendissimo Senhor


Em cumprimento do mandado de Vossa Excelencia Reverendissima, e jnsinuação
do real servico de El Rey meu Senhor, que
Deos guarde, respondo aos interrogatorios com a noticia
seguinte.
1º. Esta freguezia de Nossa Senhora das Ciladas
esta cituada na Provincia do Alentejo, no Arcebispado
de Evora, na Comarca, e termo de Villa Viçoza da
serenissima Caza de Bargança [sic].
2º Esta freguezia comprehende cincoenta herdades,
e quinze hortas, que são de senhorrios particulares.
3º Tem sessenta e cinco vezinhos, ou fogos; e
nelles quatrocentos e dés pessoas.
4º. Está cituada esta jgreja em hum valle entre
dous montes: della se descobrem tão somente as villas
de Jurumenha, Olivenca, e Villa Viçoza: pela parte
do Poente dista de Villa Viçoza duas legoas; pela
parte do Nascente dista da cidade de Elvas duas legoas;
e pela parte do Sul dista da vila de Jurumenha huma
legoa; e pela parte do Norte dista da villa, e chamada Villa
Boim, huma legoa.
5º. Comprehende esta freguezia quatro termos, ou
parte de quatro termos; a saber, de Villa Viçoza, Villa
Boim, da cidade de Elvas, e da vila de Jurumenha: o
primeyro he do Arcebispado de Evora, e os ultimos tres são
do Bispado de Elvas; porque sendo esta freguezia mais antiga,
que o Bispado de Elvas, quando este se dezanexou do
Arcebispado de Evora, ficou esta freguezia no mesmo estado,
em que se achava: tem no termo de Villa Viçoza
vinte e sete fogos tão somente: e no termo de
Jurumenha tem nove fogos: no termo da cidade de Elvas
tem vinte e outto fogos, e no de Villa Boim hum.


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6º. A parochia esta cituada em hum dezerto, sem
mais vizinhança, que a do parocho, sacristão, e outro
vezinho; e nestes tres fogos se contão somente dés pessoas,
entrando nesta soma homens, mulheres, e meninos.
7º. O seo orago he Nossa Senhora das Ciladas, de cujo
nome a echemologia he, porque / seguindo a tradição / no tempo
dos sarracemos na serra de Coroados, ou Monte de Carvão os
christãos armárão humas ciladas, e fizerão emboscadas para
captivar hum grande comboyo de vitualhos, petrexos de
guerra, e mantimentos, que se encaminhava para áquelles; e
no tal conflito invocarão estes o patrocinio de Nossa Senhora,
fazendo voto de lhe fazer huma ermida, se sahissem
com victoria nas suas ciladas: e succedeo, que / favorecendo-
os Nossa Senhora / captivárão a preza, como intentárão.
E fizerão huma ermida pequena a Nossa Senhora com o singular
titulo das Ciladas. Esta jgreja por tres vezes
tem sido acrescentada, o que bem se conhecia dos alicerces
da mesma, quando no mês de Julho de 1748 lhe desmanchey
as paredes, e alicerces para efeyto de a fabriar
de aboboda, a qual obra principiey, e consumey de esmollas,
que os ---- pedi, e a juntey nesta freguezia, e suas vezinhanças
pelo amor de Deos, e da mesma Senhora. Tem
a jgreja huma só navem, e abobada de berco: antigamente
tinha seis altares; porem quando a reedifiquey, lhe ficârão
somente tres altares, porque, sendo jgreja pobre, não podia bem
paramentar santos, como tinha. E por este modo tem tres a
saber o altar mayor, em cujo trono esta a jmagem de Nossa
Senhora das Ciladas, e nas banquetas dos lados estão as jmágens
de São Pedro Appostolo, e de São João Baptista: hum
dos altares collateraes da parte direyta he de Nossa Senhora
do Rozario, em cujo trono se venera a jmágem da mesma Senhora,
e nas banquetas dos lados estão as jmágens de Nossa
Senhora dos Milagres, e de Santo Antonio de Lisboa: o outro
altar collateral he das Almas, em cujo respaldo se venera


/p. 2231/


se venera huma jmágem de Jezus crucificado, e junto ao
calvario da crus estão pintadas duas almas do purgatorio pedindo
á soberana magestade o alivio daquellas penas; e aos fieis
os sulfragios para o referido fim. Nestes dous altares há
duas jrmandades; huma do Rozario, e outra das Almas, e ambos
ecelesiasticas, erectas authoritates ordinari.
8º. O parocho he cura, e em algum tempo foy da
aprezentação da Meza da Conciencia, assim como ainda he
a jgreja matriz de Vila Viçoza. E há tradição, que sendo esta
jgreja curada pelos freyres de São Bento de Aviz, em tempo
de guerras por falta de menistros , que havia na dita ordem, ou talves
por medo do jnimigo se pôz vaga, e sendo provida pelo
prelado ordinario, ficou mesmo intreor na posse de
a aprezentar: e nestes termos he da aprezentação de Vossa
Excelencia Reverendissima, e senhores Arcebispos metropolitanos
de Evora, et sede vaccante he da aprezentação
do Reverendissimo Cabbido da mesma Sée [sic]. A sobredita
tradição se confirma; porque athe ao anno de 1749
se conservou a estillo da serem aprezentados os sáchristães
desta jgreja pelo Reverendo Juiz da Ordem da villa
de Estremoz, e a ultima aprezentação foy em João Sutil feyta
pelo Reverendo Doutor Manoel da Costa, Juiz da ordem
de Avis, e prior da matriz da villa de Estremoz, e dentro de
seis mezes erão obrigados os taes sacristães tirar a sua provizão
da Meza da Conciencia. Jtem porque os parochos de
campo das freguezias extramuros destas terras vezinhas pagavão
ao sobredito juiz da Ordem dous alqueres de trigo cada
um anno duas galinhas, e lhe chamávão reconhecença2 ;
porem eu nunca lhe paguey nada em dezasete annos, que vou
contando de parocho, e os sáchristães, que tem havido ha
nove annos a esta parte são providos pelo Excelentissimo e Reverendissimo
Senhor Arcebispo. Assim o parocho, como o sáchristão
sam obrigados a tirar, e reformar a sua provizão por dia de


/p. 2232/


dia de São João de cada hum anno. Os freguezes desta
freguezia pagão por sua destribuição, ou repartição de
bollo, ou sustentação do parocho quatro moyos de trigo,
e dous moyos de çevada em cada hum anno vencidos por
dia de São João ao cura.
Aos interrogatorios 9º, 10º, 11º, 12º nada.
13º. Dentro desta freguezia havião em algum tempo
duas ermidas; a saber huma na erdade do Pumar d´El Rey,
cujo orago era São Placido, e vulgarmente se chamava
= São Payo de Cabedal = por estar cituada no termo da
cidade de Elvas junto a huma erdade chamada = Torre
de Cabedal =, da qual todo aquele citio em circuito herdou
o appelido de = Covas de Cabedal =, o qual appelido
segundo a tradição nasceo, de que antigamente assistia na dita
torre, ou herdade seo dono, o qual possuhia grandes cabedais.
A outra hermida estava cituada na herdade das Pegas
do termo de Jurumenha, que he dos Freyres e Andrades, cujo
orago, dizem huns, que era São Sebastião, e que era Gomes,
affirmão outros. Ambas as ermidas se achão hoje profanadas
servindo de sotãos, e celeyros aos lavradores das mesmas erdades.
14º. Nada.
15º. Os moradores desta freguezia recolhem munto trigo,
cevada, centeyo, grãos, favas, feyjões, tremoços, e
mel; e nas hortas laranjas da xina, doces, e azedas, paccas de
figo e de abobora, e todas as mais hortaliças, tudo com abundancia,
como tambem nozes, e amendoas. E em todo o circuito, que
tem no termo de Villa Viçoza recolhem, e desfrutão munta bolota,
por serem todas as herdades de montado com bolettas muy
particulares por sua doçura, por cuja rezão nella costumão
engordar os porcos munto, em menos tempo, do que nos outros montados.
Aos interrogatorios 16, 17, 18, 19, 20 nada.
21º. Esta freguezia dista da cidade de Evora capital do Arcebispado
dés legoas; e da Corte capital do Reyno dista vinte
e seis legoas.
22º. Nada
23º. Na herdade da Camuje do termo da cidade de
Elvas, a qual herdade em algum tempo pertençeo a esta
freguezia, e hoje he da freguezia matriz de Villa Boim nasce
huma fonte de qualidade rara; porque em todo o tempo
do Jnverno se acha quazi seca, e não lança agoa para fora,
e no mês de Mayo rebenta, e em todo o tempo do verão,
e estio corre, e lança agoa em tanta abundancia,
que com ella se regão não só duas hortas, que há dentro
da mesma herdade, mas tambem muntos feyjoaes, com que
se occupão muntos homens regando de dia e de noute, sem
poderem gastar tanta agoa, que da tal fonte nasce, e
corre para fora; e se não se gastasse a agoa na referida
cultura, sem duvida seria bastante para fazer
moer assenhas, ou pizões; porem no fim do mês de Agosto
começa a diminuir de sorte, que quando chega o tempo
do Jnverno já não corre, e esta quazi seça.
As hortas desta freguezia todas se regão com as correntes
de suas particulares fontes, que se dis nascerem todas da serra,
e são agoas munto cristalinas, munto frescas de verão, sem cor,
sabor, ou cheyro algum. Junto á [sic] esta jgreja esta huma fonte
chamada as Fontainhas3, a qual deyta hum anel de agoa, nasce
de huma roxa de pedra, na fundura de huma vara, com tanta
forca, e violencia, que lançando-se-lhe huma pedra de mediána
grandeza, a faz fugir, e não consente, que fique no fundo naquelle
lugar, por onde sahe a agoa. No Pumar de el Rey do termo
de Elvas desta freguezia esta hum nascente de agoa, em tanta
quantidade, que no verão, e canicula se occupão tres, ou quatro
homens regando de dia, e somente não só o grande pumar da frutas
excelentes, e com especialidade laranjas da xina, mas tambem
feyjoaes de feyjão branco, que se cultivão naquella herdade:
havendo outros muntos nascentes, que (quazi)4 pertendem quazi
envejozos igualar-se com o sobredito na abundancia de suas
agoas. Quazi todas estas agoas são dioreticas, e provocão a
ourinar amendo; são delgadas, e por munto, que se beba dellas, não
se conheçe no estomago, nem costumão gerar opilações.


/p. 2233/


Aos interrogatorios 24, e 25 nada.
26º. Esta jgreja parochial no primeiro terremoto do anno
de 1755 não experimentou ruina alguma, mas passados alguns
dias, hum terremoto, que houve de madrugada lhe causou algum
sentimento nos cantos em aquelle lugar, em que principião os
arranques da abobada, e lhe fes humas raxinhas, porem de tão
pouco perigo, que não necessitão de concerto, ou reparo algum.
27º. Constando esta freguezia de cincoenta herdades,
somente tem dezouto lavradores; e as outras trinta
e duas herdades andão de cavalaria, e destas se achão treze
herdades com as cazas, ou moradias derribadas, a fim
de que algum lavrador não pretenda morar nellas; algumas
forão destruidas no tempo da guerra, e outras tem sido derribadas
pelos mesmos, que as cultivão de cavalaria, em grave
damno e prejuizo da republica, e do bem cómum; porque
os lavradores, que trazem as herdades da cavalaria, não
as cultivão, nem lavrão, como erão cultivadas, e lavradas
naquelle tempo, em que em cada huma herdade morava
seo lavrador, e lavrava as suas folhas enteyras;
o que agora não fazem, nem cultivão, ou lavrão, a fim
de terem pastajes largas para criar ovelhas, e venderem
muntas láas aos estrangeyros, que as levão para o Norte.
E pela referida rezão está esta freguezia pouco aparelhada
para o tual serviço, pois não havendo nela
lavradores, por consequencia tambem não havera soldados
para a Companhia das Egoas, se por algum aconteçimento
for necessario, que se ponha prompta no tempo da paz,
ou em tempo da guerra, quod absit.


Serra


1º Chama-se Serra das Alcarapinhas, e de
Vila Boim. Della dizem alguns experimentados que
he a serra mais alta, que há entre as duas Cortes de Lisboa,
/p. 2234
Lisboa, e Madrid.
2º. Tem tres legoas de comprimento, e he de pouca
largura, pois não chega a meya legoa, e em algumas
partes tem hum quarto de legoa de largura; principia
junto da villa de Villa Fernando, e acaba junto
das margés do grande Rio Guadiána.
3º. Nesta freguezia se chama Serra de Coroados,
e de Carvão, por passar pelas herdades destes nomes.
4º. De seo citio nasce o Rio Muves, que corre para
Guadiána.
5º No principio desta Serra esta a villa de Villa
Fernando e no meyo della a villa de Villa Boim, ambas
da serenissima, e preclarissima Caza de Bargança [sic].
Nesta Serra no termo da cidade de Elvas, e freguezia
matriz de Villa Fernando esta a celebre atalaya chamada
dos Sapateyros 5 junto da estrada real da Corte
para a cidade de Elvas.
6º. Fica respondido supra ao interrogatorio 23.
7º. Nada.
8º. A Serra toda se cultiva, e produs trigo, çevada,
e tem algum arvorredo de azinho, cria piorno,
arruda, salva, aljabão, marçella, tomilho, resmaninho,
pionia, abrotea, sebolos albarrães, erva semnó,
erva carroa, escabriola, gallo crista, ambretta,
manjerona, e néveda; e pelas fontes avenca, erva saboeyra;
e tambem erva coroa de rey, taliga, cardo arzol,
cardo raateyro, cardo corredor, cardo abrelho, cardo alvacilho,
lingoa de vacca, erva leyteyra, acrimância,
norsa, mercuriaes, e erva azeyteyra, e erva turca, escondio.
Erva barbasco, xouradinha, censaura menor, erva crina.
9º Nada.
10º. O temperamento da serra he damiazamente frio, em
algum tanto humido.
11º. Nella se crião ovelhas, cabras, bois, e porcos; a sua
cassa são lebres, coelhos, e perdizes.
12º., e 13º. Nada.


/p. 2235/


Rio


1º. O rio, que corre por esta freguezia se chama Muves 6
que pareçe ser vocabulo corrupto, porque o seu nome antigá-
mente era Rio de Muros7, não só porque entra, e morre
no Rio Guadiána junto dos muros da Villa de Jurumenha,
mas tambem porque nos confins desta freguezia com a freguezia
de Santo Antonio da Terrugem passa o tal rio por
certo lugar, que mostra ter sido povoação antiga, em que
se descobrem alicerces de alguns edificios, e ainda em
hum cabeço do dito lugar se concerva hum monte, ou
herdade com o nome de Castello Velho; e como quer que
o rio passe junto do tal castello, e alicerces, ou muros desta
antiga povoação, e morra junto dos muros da dita
Villa de Jurumenha, se faz verosimil, que o seu nome
he o Rio de Muros, e não de Mures, como vulgamente
lhe chamão: nasce este rio da fonte dos Sapateyros,
e estrada real de Elvas para Estremos, e para a Corte,
pois he a tal estrada tão levantada, que ali se dividem
todas as agoas; correndo as agoas da parte do Sul para
Guadiana, e as agoas da parte do Norte para o Tejo:
fazendo-se esta divizão em hum pequeno espaço, que como
espinhaço da terra corta desta serra desde a Atalaya
dos Sapateyros athe a Serra de Ossa passando
entre Villa Viçoza e Borba.
2º. Nasce de varias fontes, e regatos, e não corre todo
o anno.
3º. Nada. 4º. Nada.
5º. He de curso quieto em toda a parte.
6º. Corre do Norte para o Sul.
7º. Cria peyxes, pardelhos, bordallos, e bogas, e das
duas primeyras especies he a mayor quantidade.
8º. Ha nelle pescarias em todo o tempo do anno; especialmente
para doentes.
9º. As pescarias são livres.
10º. Suas margés são cultivadas e em toda esta freguezia
tem munto arvoredo de azinho.


/p. 2236/


11º. Nada.
12º. Vay respondido no 1º. artigo.
13º. Morre em o Rio Guadiana, em que entra pela parte
de sima junto dos muros da Villa de Jurumenha.
14º. Nada.
15º. Tem huma ponte de cantaria na estrada que vay da
Villa de Jurumenha para a cidade de Elvas: e nesta freguezia
lhe costumão os lavradores fazer pontes pao, ou
minhoteyras para passarem os gados a comer as pastagens
de suas herdades.
16º. Tem seis engenhos, ou moinhos com exercicio; e
hum, que he de el Rey meu Senhor, chamado moinho do Pintado
/ nome de seo inventor / se acha totalmente cahido,
e era hum dos engenhos mais fortes, e mais valentes, que
havia em todo o rio; porque esta no alto de huma roxa, em
a qual com munta facilidade abrio seo inventor huma
fenda, e fabricou moinho em tal altura, que com a
agoa, que delle cahe, podia fazer moer huma asenha antes
de chegar ao centro, ou estado das agoas do mesmo rio,
como ja em outro tempo teve, e estão levantadas parte das
paredes della.
17º. Nada.
18º. As agoas são livres, porem não se pode uzar dellas
por serem altas as barrancas do rio.
19º. Tem duas legoas e meya de comprimento; e passa
huma legoa distante de Villa Boim; e morre passando
pelos muros de Jurumenha, como fica dicto.
20º. Nada.
He a noticia que pude alcançar, e assim o certifico a
Vossa Excelencia Reverendissima que Deos Nosso Senhor guarde. Freguezia de Nossa
Senhora das Ciladas do termo de Villa Viçoza. 2 de Mayo
de 1758.


O Parocho Manoel Roiz da Silva.[Assinatura autógrafa]

 

(1) Letra diferente.

(2) sublinhado da época.

(3) sublinhado da época.

(4) palavra riscada.

(5) Sublinhado da época.

(6) Sublinhado da época.

 

Transcrição: Francisco Segurado

Vale de Vargo, 1758, Junho, 13
Memória Paroquial da freguesia de Vale de Vargo, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 38, nº 64, pp. 331 a 332]


/p. 331/
N.º 64 Val de Vargo termo de Moura
Esta aldea de Val de Vargo fica na provincia do
Alentejo, arcebispado de Evora comarca de Beja termo
da villa de Moura, e he freguezia de S. Sebastião.
He esta aldea de donatario, que ao prezente he o serenissimo
Senhor Jnfante D. Pedro.
Tem esta aldea noventa, e tres vizinhos, e quatrocentas
pessoas.
Está situada em valle, e della se não descobre povoação
alguma.
Não tem esta aldea termo seu, porque (como já dice)
he termo de Moura.
A parochia desta freguezia está dentro do lugar, e não
tem esta freguezia mais lugares, ou aldeas.
O orágo desta jgreja he S. Sebastião, e tem tres altares,
hum de S. Sebastião, outro do Rozario, e outro do
Senhor Jesus: e he esta Jgreja de huma nave só; e tem
só huma jrmandade chamada do Senhor Jesus.
O parocho desta freguezia he cura, e da aprezentação
do Senhor Excelentissimo, e Reverendissimo Arcebispo de Evora, e tem de
renda tres moyos de trigo, e hum de sevada.
Não tem esta jgreja beneficiados.
Tambem não tem esta aldea convento algum.
Tambem não tem hospital, nem Caza da Mizericordia.
Esta freguezia não tem ermida alguma.
Os frutos, que os moradores desta terra recolhe em mayor
abundancia são trigos, sevada, e senteyo.
Tem esta terra juis de vintena, e está sogeita ás justiças
da villa de Moura.


/p. 332/
Não he esta terra couto, nem cabeça de conselho.
Tanbem [sic] não há memoria de que nesta terra florecessem, ou
della sahissem homens insignes em virtudes, letras, ou armas.
Esta terra não tem feira.
Tambem não tem correyo, e serve-se do de Moura, que daqui
dista tres legoas.
Esta aldea dista de Evora treze legoas, e de Lisboa vinte
e sinco.
Não tem esta aldea privilegio, antiguidade, ou outra
couza de memoria.
Nesta aldea, nem no seu distrito não há fonte alguma
ou lagoa celebre.
Não he esta aldea porto de már.
Tambem não he murada, nem no seu distrito há castello
algum, ou torre antigua.
Esta aldea não padeceo ruina alguma no terremoto
de mil settecentos e sincoenta e sinco.
Não há mais couza alguma digna de memoria, de que
se faça menção neste interrogatorio.
Nesta freguezia não ha serra, nem rio algum.
S. Sebastião de Val de Vargo 131 de Junho de
1758.
O parocho o Padre Franco Ferreira Bíllis.

 

(1) Sublinhado da época.

 

Transcrição: Franscisco Segurado

 

São Brás, 1758
Memória Paroquial da freguesia de São Brás, comarca de Beja
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 7, nº 63, pp. 1199 a 1206]


/p. 1199/
Nº 63 + S. Brás termo de Serpa
Excelentissimo, Reverendissimo Senhor
Respondendo aos interogatorios que Vossa Exelencia Reverendissima foi servido
mandar responder digo pela forma seguinte segundo
noticias que adqueri, e ciencia, que tenho;
1- Emquanto ao primeiro interrogatorio respondo que a freguesia
em que sou parocho hé chamada a de São Brás
fica na provincia do Alentejo Arcebispádo da cidade
de Evora, comarca da cidade de Beja, termo da
Villa de Serpa.
2 - Ao segundo digo que como esta freguesia fica no termo
da dita villa hé governada pelas suas justiças as quais
o serenissimo Senhor Infante Dom Pedro1 donatario
da mesma, aprezenta.
3 – Tem quarenta, e dous vesinhos, ou fógos. Cento, e noventa
pessoas;
4 – A sua situação hé em huma descida, ou ladeira, e de
todas as partes cercáda de outeiros della se descobre a sidade
de Beja que dista quatro legoas, e a Villa de Serpa
que dista meia legoa.
5 – Hé esta freguesia do termo de Serpa não comprehende
mais que sómente herdades, montes, e hortas, e os vezinhos
já declarados.
6 – Esta a parochia quasi no meio da freguesia não tem lugar ou alea2 alguma.
7 – O seu orágo hé São Brás tem a jgreja tres altares, o altár
mór com o ttitollo de São Brás aonde esta colocada
a jmagem do mesmo santo em o meio, a jmagem
de Nossa Senhora das Candeyas á parte direita, e a jmagem
de Santo Antonio de Lisboa á esquerda, o altár
de São Romão aonde está colocado o mesmo santo
e o altár das santas almas do purgatorio aonde esta
hum retabolo com a pintura das mesmas, e huma jmagem
de Christo crucificado não tem náves, hé jgreja


/p.1200/


jgreja muito pequenna o tecto hé de abobeda, não tem
jrmandade, e só hũns fregueses devotos das santas almas
pedem algumas esmollas pela mesma freguesia
nos Sabados para se fazerem sufragios pelas mesmas.
8 – O parocho hé cura posto pelo Excellentessimo e Reverendessimo
Senhor Arcebispo de Evora, e hé do habito
de São Pedro cuja congrua sustentação são dous
moios e meio de trigo, e trinta alqueres de sevada
para manter uma cavalgadura.


9 – Não tem beneficiádos.
10 – Não tem a dita freguesia convento algum.
11 – Não tem hospital.
12 – Não tem Casa de Mizericordia.
13 – não tem hermida alguma.
14 – A esta jgreja de São Brás vem muitas pessoas em
romaria ao mesmo santo mas não em dias detriminádos
mas sim quando o pede a sua devocão
ou obrigação das pessoas romeiras que ordinariamen[te]
vão nos Domingos, ou dias santos de guárda.
15 – Os frutos, que se recolhem nesta freguesia são trigo
centeyo, sevada, e alguns legumes como granos,
e xixamos, e algum azeite.
16 – Não tem juis, e hé governáda pelo juis de fora
da dita Villa de Serpa donde, como ja dice, he termo.
17 – Não hé couto, cabeça de concelho, honra ou behetria.
18 – Não há memoria que florecessem, ou della
sahissem homeñs insignes em virtudes, letras,
ou ármas.
19 – Não tem feira alguma.


/p. 1201/
20 – Não tem correio, e se valem os fregueses do correio da Villa
de Serpa, que sae á Quinta feira pelo meio dia para
a cidade de Beja, que dista quatro legoas, a chega á Sexta
feira a mesma Villa.
21 – Dista da cidade capitál do arcebispádo, que hé Evora
dose legoas, e de Lisboa capitál do Reyno vinte, e quatro
ou vinte, e sinco.
22 – Não há nesta freguesia previlegios, antiguedades ou
cousas dignas de memoria.
23 – Não há nella fonte, ou lagoa celebre, e algumas fontes
que tem não tem espesial qualidade as suas agoas.
24 – Não hé porto de már.
25 – Como hé freguesia de campo devidida em herdades, montes e
hortas não hé muráda, nem tem castelo, ou torre, e
só tem huma atalaia chamáda dos máttos pera della
se vigiar o nimigo [sic] no tempo da guerra.
26 – Não padeceo esta freguesia muita ruina no terremoto
gerál de mil setecentos sincoenta, e sinco, e a jgreja abrio
algumas rachaduras, mas pequennas.
27 – Nada.
E no que respeita a serra respondo pela forma seguinte
1 – Chamasse esta a Serra de Serpa devidesse em duas pártes
chamádas huma Serra Grande, e outra Serra Pequenna
que divide o Rio de Limas que tem o seu principio
nas semalhas de Limas assim chamado, e contenua o seu
curso do nascente ao meio dia athé se meter no Rio
Guadianna para a parte do campo se chama Serra
Pequenna aonde há de couto malhadas de colmeias
das quais tres tem sesmaria3 propria do senhorio
da malháda, as mais pertence o seu destricto


/p. 1202/
destricto ao concelho da Villa de Serpa, e só tem os senhorios
huma cerca, ou cercado em que estão as colmeas,
tem sinco legoas de comprido, e de largura
pelo rio de Guadianna abácho athé á fos de
Limas duas legoas para á parte do poente, e para
o nascente em humas partes terá huma legoa
e em outras meia legoa, somente.


Serra Grande


2 – A Serra Grande do Rio de Limas para dentro athé
estremár com o termo da Villa de Mertola
e Villa Verde de Ficalho tem de comprido sete
legoas, e de largura em humas partes tres legoas
e em outras duas.
3 – Os braços mais principais são chamádos a Malhada
de Niculáo, e a Malhada do Araujo.
4 – Nasce nella outro rio, que se compoem das agoas
que lanção os vales das Fontainhas, Milhano, Aba
banos, e Barranco do Pinheiro, e chamão a este
rio = Alfamár = o quál corre do sul ao meio dia
e vai findár no Rio de Limas pela parte debacho
da Malhada de Costa Lobos.
5 – Na estremadura para a parte do nascente estão
situádas a Aldea Nova, e Villa Verde de Ficalho
destricto da Villa de Serpa.
6 – Não tem fontes de propriedades raras, e as que
tem são poucas, e de poucas agoas.
7 – Não tem minas de metais, nem canteiras
de pedras, ou outros materiães de estimação.
8 - As plantas, ou arvores de que se compoem são
todas agrestes que prodús a mesma terra como são


/p. 1203/
são de sobro, cascojo, aderno, madronho, zambujo e produs
tambem muitas ervas, e algumas medicinães como
hé o alecrim, e erva chamáda = arcár= que hé boa para
tirar inchaçõens, e faser de secar a parte incháda cozida
em agoa naturál não dão mais frutos as suas arvores,
senão alandias, murtunhos, madronhos, e peros
brávos, e em algumas partes com licença do senado
da Villa de Serpa cortão mato varias pessoas, semeão
nellas trigo, e centeio de que pagão da colheita de cada
seis alqueres hum que recolhe o seleiro real da mesma Villa.
9 - Há nella huma ermida chamáda de São Marcos da
Serra que hé anexa, e filial da jgreja de São Bento da Aldea
Nova, e no dia da festa do santo que se fás na dita
ermida acode muita gente em romaria deste Reyno
e do de Castella por estar situada na distancia de pouco
mais de meia legoa da araya neste da festa do santo
metem um touro bravo na dita ermida, e o levão
pela igreja adentro athé ao altàr aonde se hade cantár
a missa, e ahi posto o missál nos cornos do touro
canta o diacono o Evangelho, e depois de acabada
a missa sahé o touro mançamente, e depois de sahir
caminha com bastante bravura.
10 - A qualidade do seu temperamento hé cálida.
11 - Há na dita serra creaçõens de gádos manços como gado
vacum, cabras, carneiros que se alimentão das suas
pastagéns, e de gados bravos como são veados servas
e porcos javalis ou montezes por outro nome nella
se cria muita caça meuda de perdises e, coelhos
criaosse também nella lobos, raposos, ninhovardos
techugos, e gatos bravos; há tambem nesta serra
vinte, e seis malhadas as quais produzem bastante mel


/p. 1204/
mél, e cera pela abundancia das flores dos mátos
de cuja sustancia se alimentão as abelhas que
são do madronho, urso, queiro, lentisco, tojo
alecrim, rosmaninho, e outras mais flores
de varias ervas.
12 - Não tem lagoas, nem fojos notaveís.
13 - Nem outra alguma cousa digna de memoria.
Rio de Guadianna
O maior rio que se acha devidindo o termo da
Villa de Serpa hua legoa de distancia para
a parte do poente chamasse Guadianna.
2 - Hé tradição que nasce das Manchas de Aragão
Reyno de Castelha, e nascer logo caudoloso não
corre todo \o anno/ pois se seca no tempo do estio ordinariamente
mas sempre ficão alguñs \pegos/ de
agoa em muitas partes que nunca se secão.
3 - No termo da villa de Serpa entra neste rio
outro chamado Enchoé prencipia no sitio
chamado Lagares termo desta Villa, e vem
correndo do oriente para o poente athé
entrar no Rio de Guadianna no sitio da
sua fós, que assim se chama, e desde o seu principio
athé ao fim tem quatorze, ou quinze
moinhos de moer trigo senteio, ceváda
no mesmo rio está huma ponte feita
de pedra e cál com seus arcos que vai da dita
Villa de Serpa para a aldea de Brinches
chamáda a Ponte de Brinches, e quazi
em toda parte estão as suas margéns cheias
de mato chamado loendro, e silvados.
4 - Não hé o dito Rio de Guadianna navegavel
e só neste termo em duas partes se passa


/p. 1205/
se passa em barcas de huma a outra parte quando não dávão,
e em algumas partes hé de curso arrebatado.
5 - Como ja dice hé de curso arrebatado em muitas partes deste Reyno.
6 - Nesta freguesia corre em pouca distancia da mesma
para a parte do poente, e corre de Norte para o Sul.
7 - Cria este rio peiches em abundancia que se pescão
a canna, e redes como são bógas, bordallos seramujos
e barbos, e eirós mas destes a maior abundancia
hé de sáramujos que são os mais pequenos.
8 - Em todo o tempo do anno pescão os coriosos nelle a cana
e com redes.
9 - As pescarias tão livres nesta freguesia e só nella ha huma
chamada o Caneiro, que está no meio do rio aonde
morrem muitos peixes chamados barbos, e eirozes,
e outros mais que no dito rio se crião a qual
pescaria está nos asudes dos moinhos da Mizericordia,
e a tem aforado o Tenente Coronel da cavalaria
do Regimento de Serpa, e Moura Damião Borges
de Almeyda a Santa Casa da Mizericordia que hé
o direito senhorio, e esta só a pesca o sobredito pelo
foro que pága que são outo tostõens cada anno.
10 - As margens deste rio as mais dellas se não cultivão
por serém fragosas, e só em algumas partes mais convincentes
se semeão meloaís, milhos grosos, e feijão
mas destes frutos que se colhem paga quem
semea pensão a camara desta Villa o anno que
se semea, e ordeneriamente a pensão hé de gallinhas
e não tem as ditas márges arvores de fruto, e só tem
mato de tanugeiras, tarafeiras;

S. Bras termo de Serpa4


/p. 1206/
11 – Tem as agoas deste rio particulár virtude para tomár
banhos os enfermos nos mezes de Julho, Agosto e Setembro
que pelos tomarem tem alivio em muitas queichas.
12 - Este rio sempre se chamou Guadianna, e não há
memoria tivesse outro nome em tempo algum;
13 - Morre no már occeanno, junto a Castro Marim.
14 - Tem levádas, e asudes que lhe empedem ser navegavel.
15 - Não pontes [sic] alguma neste Reyno.
16 - Tem na parte que pertence ao termo de Serpa des ou onze
moinhos de moer trigo, e dous pizõens de infortir
panos de lam, e não tem lagares de azeite nem
outro algum engenho.
17 - Não há memoria si terasse ouro de suas areas.
18 - Os povos usão de suas agoas livremente sem pensão.
19 - Não se podem morálmente numerár as legoas que
tem, nem noticias das povòaçõens por onde pássa.
20 - E não tem couza notavel este rio senão somente
junto ao seu fim a onde entra no termo de Mertola
poderem caber as suas agoas por hum lugár tão estreito
e apertádo que passa hum homem com hum púlo
e por esta razão lhe chamão o Salto do Lobo, e dahi
se despenhão estas agoas para hum pego chamado o pego
dos sáves aonde fazem pescaria, e matão muitos
e tambem outros peiches chamados lampreyas que só
os há, e se pescão neste sitio, aonde as pescarias são
de pessoas particulares da Villa de Serpa hé o que cei
e pude adquerir para satisfazer humildemente a Vossa Excelencia
Reverendissima a quem Deus guarde etc.


O parocho da jgreja de São Brás do termo da Villa de Serpa


O Padre Rodrigo Affonso Camácho
[Assinatura autógrafa]

 

(1) O infante D. Pedro referido no texto, era filho de D. João V, mais tarde casou com D. Maria I.

(2) Deverá entender-se “aldea”.

(3) Sesmaria – é um terreno não cultivado que se destribui a colonos ou cultivadores para o arrotearem num
determinado prazo de tempo.

(4) A letra diferente, mas da época.

 

Transcrição: Francisco Segurado
Revisão: Fernanda Olival


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