Memórias Paroquiais

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Santa Susana, 1758, Abril, 27
Memória Paroquial da freguesia de Santa Susana, comarca de Setúbal
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 35, nº 243, pp. 1731 a 1734]

 

/p. 1731/

N. 243

Excelentissimo e Reverendissimo Senhor
Santa Suzana termo de Alcacer do Sal

Para satisfazer aos interrogatorios incluzos que com ordem de Vossa Excelencia
Reverendissima me forão entregues, procurei com aquelle ardente dezejo, que sempre
me assistio, e conservo de servir a Vossa Excelencia Reverendissima, que pessoas
antigas, e fidedignas me certeficassem do que manifesto na forma seguinte.

Fica esta freguezia em a provincia de Alentejo arcebispado de Evora, comarca de
Setuval, filial da matris de Alcacere do Sal; e he de Sua Magestade como mestre da
ordem militar de Santiago da Espada tem cem vizinhos e numero de pessoas seiscentas,
está situada esta aldea am serra não muito alta, e por serras circunvizinhos mais altas se
não descobre desta aldea povoação alguma; e está situada em meio quasi da freguezia,
de sorte que para todas as partes da mesma terá distancia de huma legoa maior, ou
menor he toda termo de Alcacere, excepto duas herdades, que supposto o curativo
parochial seja desta freguezia, contudo são do termo, e gouerno das Alcaçovas. Está a
parochia da parte de fora da aldeã, mas junta á mesma, e não tem mais lugares, ou
aldeas esta freguezia.

A jgreja he de huma só nave, séo orago he = Santa Suzana = tem tres altares: o primeiro
he do orago, o segundo de Nossa Senhora do Rozario, de que há jrmandade, o treceito
[sic] he das almas, que tambem tem jrmandade; o parocho he capellão curado, e da
aprezentação de El Rei, como mestre da ordem militar de Santiago, tem de renda, que
paga o mesmo senhor de seo real celleiro tres moios de trigo, noventa alqueres de
cevada para a cavalgadura, e des mil reis em dinheiro, e não tem beneficiado, ou
ajudador. Não tem convento, hospital, caza de mezericordia, ermida, ou romagens, os frutos, que
dão suas terras são trigo, cevada, centeo, mas trigo em maior abundancia; todo o
governo desta freguezia está sugeito ao governo de Alcacere, de que he termo, e de
Setuval comarca. Não he couto, cabeça de concelho, honra, ou behetria, nem ha
memoria que desta freguezia florecesse pessoa alguma em arma, letras, ou virtudes;
não tem feira, ou mercado, servese com o correo de Alcacere, e dista da cidade capital
do arcebispado, que he Evora, sette legoas, e de Lisboa doze, contando em estas as tres
do rio da Mouta para a mesma cidade de Lisboa; não tem privilegios alguns, nem
fontes, ou lagoas, que tenhão agoas de qualidades especiaes. Não he porto do mar, nem
tem muros, ou torres, nem padeceo ruina do terremoto de 1755. Nem acho couza digna
de memoria, que ex vi deste interrogatorio haja de discrever mais.

/p. 1732/ E ao segundo interrogatorio respondo que a serra não tem especial denominação; cada
parte della lhe dão o nome da herdade que a ocupa, e tem para Montemor o novo
extenção de quatro legoas, para o Torrão tres legoas, e para Alcacere huma legoa: não
há em toda a freguezia nascimento do rio, ou fonte de propriedade ou lugar algum, nem
minas de metaes, cantarias, ou outros quaesquer matereaes, ou ervas ou plantas de
virtude especial que se se haja de dar noticia. Toda a serra se cultiva; cortados, ou
roçados os matos de que se veste, e produs centeos, cevadas, e mais trigos, o seo
temperamento he calido, e ha em ella, criaçoes limitadas, mas de todo o genero de
gados e de muitos coelhos, lebres, perdizes, e alguns porcos bravos, não tem lagoa
fojos, ou couza mais alguma notavel em este interrogatorio que haja de fazer manifesto.

E em quanto ao 3. interrogatorio digo, que não nasce em toda freguezia rio algum, he
verdade que sim a cortão duas ribeiras ou rios, a que chamão Rio Mourinho, o outro
Ribeira de Dehege, que dizem trazer o seo nascimento da freguezia de Nossa Senhora
da Graça que fica alem de Evora e que nasce regato não caudalozo, e não corre de
Verão; e o Rio Mourinho nasce junto as covas dos monges de Montemor o novo,
tambem em seo nascimento de curso quieto, e depois que chegão a ser ribeiras grandes
são de curso arrebatado, correm ambos do nascente pera o poente; crião alguns peixes, e
os de maior entidade chamão e barbos: fazem em os mesmos rios seos vizinhos algumas
pescarias dos fins da Quaresma te Agosto, as quais pescarias são livres.

E como em o limite desta freguesia corrão estes rios por penhascos e rochedos em todo
elle não dechão margens que se possão cultivar nem se tem conhesido particularidade
alguma em suas agoas; nem ha memoria que tivesem outro nome estes rios; o Rio
Mourinho conserva o mesmo nome de seo nascimento te que morre: o Dehege dentro
de outras freguezias lhe dão outro nome, junto a Val Verde, ou convento dos capuchos
lhe chamão a Ribeira de Val Verde morrem estas duas ribeiras, ou rios em outra, a que
chamão Ribeira de Santa Catherina de Sitimos a qual se pode fazer navegavel the ao
Rio de Sadão, e de Alcasere, que são navegaveis, mas dificultuzissimamente se poderão
fazer navegaveis as duas ribeiras em o limite desta freguezia por respeito de seos
asperos rochedos, e nenhum tem põte, lagares de azeite, pizoes, noras ou outro algum
engenho em o limite desta freguezia, e só o Dehege hum moinho.

Não há noticia que em algum tempo, ou no presente se tirase, ou tire ouro de suas áreas.
Qualquer pessoa uza livremente de suas agoas. O Rio Mourinho tem de seo nascimento
te onde morre quatro legoas, e mea. O Rio Dehege nove legoas: ex vi dos
interrogatorios não ha nenhuma couza alguma notavel que em este agreste sitio
discreva: fico apetecendo emprego, em que possa mais servir, e agradar a Vossa
Excelencia Reverendíssima, como rogando a Deus conserve a vida, e saude a Vossa
Excelencia Reverendissimo para que se continue a grande felicidade que gosamos todos
em este arcebispado o vivermos tam contentes, favorecidos, e amparados debaxo da
protecção de Vossa Excelencia Reverendissima que Deus guarde muitos annos.

Santa Suzana 27. de Abril de 1758(1).

O Parocho Eusebio Gabriel Vieira de Mattos [assinatura autógrafa]

/p. 1734/ Freguesia de Santa Susana Termo de Alcácer do Sal

(1) O sublinhado da data é da época.

Transcrição: Fátima Pimenta
Revisão: Fernanda Olival

Juromenha, 1758, Abril, 8
Memória Paroquial da freguesia de Juromenha, comarca de Avis
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 18, nº 48, pp. 311 a 322]

/p. 311/

N. 48


Vila de Juromenha. Comarca de Avis
S. Ildefonso. S. Lourenco. Lentisca
1. Esta Villa, tem a sua derivacao., e etimologia (segundo a openiao e vos dos
antigos) de hum homem chamado Jullio Menia, ou de hũa molher chamada Juramenha
que hoie (corructo vocabolo), he Juromenha; acha se edificada na Estremadura, e arraia,
e vizinhancas de Castella, em distancia de hũa legoa, na provincia do Alenteio deste
Reyno, bispado de Elvas e comarca de Avis.

2. He esta Villa dos serenissimos reyis de Portugal; nam ha notisia tivece
donatario: ouve nella hum almeyrante a que chamavam o de Portugal.

3. Tem esta Vila, nela e seus rebaldes, cento e trinta e hũ vezinhos, e na sua
freguesia do campo, dezassete montes; e pessoas na Villa e campo, tudo pertenssente a
mesma freguesia, quinhentas e trinta, e duas.

4. Esta esta Villa na openiao de ser hũa. das povoacoes mais antiguas deste Reyno,
e provincia e das que fundarao os Seltas, nas ribamsseiras do Rio Guadiana (ou Odiana)
como lhe chamarao os antigos: tem o seu castello no cume de hũ alto eminente, e
elevado ao selebrado Rio Guadiana, e tam apique que para se lanssar hũa pedra nelle,
nam preciza mais que largala da mam, e por esta parte, in expugnavel; fica nesta
provincia do Alenteio, em citio munto alegre, e agradavel; e se descobrem dela,
Olivenca, Elvas, Vila Vicoza, e Badajos, em distancia de duas, tres e quatro legoas.

5. Tem esta Vila seu termo, e nele (da outra parte do rio) hua aldea, chamada a de
Vila Real, que tem onze vezinhos.

6. A parochia, he somente hũa, e matriz, e se acha dentro do cas- /p. 312/
do castello desta Villa, nam tem mais lugar, ou aldea.

7. O orago, ou invocacam desta matriz, he a Senhora do Loreto: antiquissima,
como a mesma Igreia, tem quatro altares, o altar maior, com o seu sacrario, e
sacramento, e hũa pequena tribuna, e nella colocada a Senhora do Loreto; dois
colateraes, hũ do Senhor Jesuz, outro da Senhora do Rosario, e outro das Almas. Tem as
images seguimtes, a Senhora do Pe da Cruz, = Sam Joam Evangelista, = Sam Joam
Batista = Sam Lazaro = Sam Sebastiam = Santa Catherina = Tem a igreia tres naves, e
outo columnas, quatro por banda. Tem esta matriz quatro irmandades, erectas na
mesma, com seus compremissos = hũa do Sacramento = outra das Almas = outra da
Senhora do Rozario = outra de Sam Joam Batista, este de devocao e sem compremico
= a capella mayor desta igreia, he de abobeda sumente, e o mais corpo della, he tabicado
= tem sua torre, com dois pequenos sinnos, que mal se precebem fora dos muros,
quando os tocam = tem sua pia batismal.

8. O parocho desta matriz, he prior, com a aprezentacao da Mesa da Conssiencia, e
se da na mesma por opozicao; tem de seu ordenado tres moios de trigo, dois de sevada =
vinte mil reis em dinheiro, em cada hũ anno, e tudo pago pellos fructtos desta comenda.

9. A mesma igreia tem dois beneficciados apresentados pella Meza da Conssiencia;
e cada hũ delles de seu ordenado em cada hũ anno, dois moios de trigo, moio e meio de
sevada, e des mil reis em dinheiro, e tambem pagos polla ditta comenda.
/p. 313/
10. / 11. Nada que dizer do desimo(1) , e undessimo interrogatorio.

12. Tem esta Vila casa da Mizericordia, munto antigua da sua origem, nam ha
noticcia; he pobre, tera de renda, cento e sincoenta mil reis mil reis, e por ser tam
lemitada, nao chega bem a favorecer pobres de terra e passageiros, e a fazer os gastos da
caza.

13. Tem esta Villa tres irmidas, hua do Patriarca Sam Francisco, dos treseiros do
mesmo Santo, fica intra muros da dita Villa, e duas extra muros, a irmida de Santo
Antonio, com sua irmandades [sic], e esta de abobeda situada no mesmo rebalde, =
outra de Sam Lourenco em distancia da Villa, hũ tiro de mosquete tambem com sua
irmandade. Tem a capella de Sam Francisco, hum so altar em que se acham colocadas
as imagẽs do mesmo Patriarcha Senhor dos treceiros, e Senhora das Sete Dores,
contingua a Mizericordia. A Irmandade de Santo Antonio he tambem de abobeda, com
tres altares: hũ em que esta colocado o mesmo Santo, e a Senhora dos Dezemparados, e
Sam Bonifacio, e os dois, he hum das Almas, com seu crucefixio, e da senha [sic] da
Encarnacao, o outro, com a mesma Senhora no dito altar. A irmida de Sam Lourenco,
he de tabica, com hum so altar, e tres images, huma do Santo proprio, e as outras, a
Senhora da Conceicam, e de Sam Joze, todas no mesmo altar; e todas essas tres irmidas,
sam pertenssentes a Ordem de Sam Bento de Avis.

14. Nada ha que diser deste interrogatorio.

/p.314/
15. Os fructos que os moradores desta, e seu termo, colhem de ordinario, com maior
abundancia; sam trigo, sevada, senteio; por serem terras destinadas para os mesmos
fructos, e esta he a sua maior abundancia.

16. Tem esta Villa juis ordinario, que se faz por eleicao todos os annos, e a vottos e
se abre em camara todos os annos, na segunda outava do Natal o pilouro; e dos tres que
sao votados sahe hum, que se confirma pello ouvidor de Avis, como os mais
vereadores, e procurador do concelho, que todos sam feitos a vottos, e saem na dita
outava tambem, com o dito juis, e o mesmo ouvidor os confirma. Tem casas da camara
de propriedades para as justissas de Sua Magestade.

17. / 18. Destes dois interrogatorios, nam ha couza digna de memoria, e menos de se
dar noticia.

19. Tem esta Vila hua feira franca, todos os annos por dia de Sam Lourenco em des
de Agosto e dura tres dias.

20. Esta Vila nam tem correo, e se serve do de Vila Vicosa, que dista desta tres
legoas, chega esse a dita Vila Vicosa nas Quintas feiras de tarde e, parte no Sabado de
manha.

21. Dista esta Vila, da cidade capital do bispado, tres legoas, e da cidade de Lisboa,
cidade capital do Reyno, trinta legoas.

22. Ha traduccao munto antiquissima que esta Vila tinha previlegio, para que os
presos, e seu destricto, nao fossem /p.315/ nam fossem levados a outra parte, e nesta
mesma Villa fossem sentenceados; ahinda que oumnissos fossem, e que este previlegio,
e outros mais tinha esta Villa, cuios se achariam na casa dos Tombos em Lisboa; e
como pellas guerras se perderao, e qeimmarao todos os cartorios della, assim da
camara , como pertenssentes a igreia, tambem se perdeu a memoria de tudo.

23. / 24. Nam ha de que se possa dar noticia, pelo que pertence aos dois interrogatorios.

25. He esta Vila murada, e praca de armas; estao seu castelo, e muros no cume de
hũ outeiro alto, sobre o rio, e eminente a ele, fica na Lusitania, em sitio bem asombrado:
tem o castello dezassete torres, hũa dellas de maior grandeza, a respeito das mais. Foi
reparado das ruinas que lhe fez o tempo (antiguamente) por El Rey Dom Deniz, na geral
reparacao dos castellos deste Reyno; he lugar mui defenssavel, por natureza, cara, e
sempre representa hũa veneravel antiguidade . Em contorno da Villa, forao achados
muntos alisserces, columnas e bazes, no que mostra ter sido antiguamente lugar nobre, e
grande, o que ja hoie nao he; he hoie da jurisdicao do Mestrado de Avis, que a deu Dom
Sancho o primeiro, ao Mestre Dom Gonssalo Viegas, com os castellos de Mafra,
Alpedriz, e Alcanede. A comenda, he cavalaria da Ordem, de que naquele tempo foi
comendador, e alcaide mor, Dom Antonio de Azevedo Almeirante de Portugal. Suas
armas, sam hũ castello sercado de agoa; devem de notar / sem duvida/ a Villa, e o rio,
que lhe banha o pe: os grilhoes, que
/p. 316 /
(digo) suas armas, sam hũ castelo, sercado de agoa, de que pendem hũns grilhoes; o
castello e a agoa, devem de notar a Villa, e o rio que lhe banha o pe; os grilhoes, hũ
antigo previlegio, de que os moradores os dessa Vila gozavam, que sendo presos nesta
cadea, nam podiam ser levados a outra, e que naquella prezos, ouvicem sua final
sentenca. Hoie he comendador desta comenda, o Eminentissimo Cardeal Corcine,
Protector deste Reyno, por merce de El Rey Noco Senhor defunto, o Senhor Dom Joam
quinto, que Deos haja em gloria. He esta Vila praca de armas, e guarnesida, por
destacamentos, da praca de Olivenca; tem os muros que ja dice, porem arruinados, com
o tempo: he furtificada, de redor dos ditos muros, ou torres com suas moralhas, fossos,
rebilins, coarnisoes, e otras cornas , exteriores, que tudo, sendo, algum dia bem
reparado, serveria, para a boa defenssa desta praca, e o foi, no tempo da Aclamacao, em
que se defendeu, vinte e oito dias, e noites que por nam ser socorrida, com bons
partidos, se entregou; e hoie nam se acha com desposicoes de posuir, vinte e quatro
horas, por se achar tudo desmantelado, e somente mostrao estas obras o que algũ dia
forao, e tudo sam vestigios, daquelas realidades.

26. Padeceu esta Villa, alguas ruinas, no terremoto de mil setecenttos e sincoenta e
sinco: principalmente nos muros della, que munta parte delles vierao abacho, que por
nao cauzarem maior ruina
/p. 317/
ruina, e vistos por emginheiros, detrimanarao, focem demolidos, por nam
exprimentarem os moradores algũas disgracas, o que assim se fez, mas parou logo esta
deligencia, e assim ficarao mais derribados; e so hũ. baluarte chamado Gramacham, foi
edificado, e reparado, quanto preciso hera. Acrece a dizer mais, sobre os predicados
desta Villa, e suas agoas, que alem destas serem boas, e as terras fertelissimas de pastos,
que dizem os moradores, que basta que os gados lambam a terra somente, para
emgordarem; e alem desta exselencia, tem outra de ser munto abundante de azinhaes, e
baldios, mui fortes de caca, que por isso se traz em dizer: Juromenha, boa de trigo, e
milhor de lenha. Tem esta Vila, da outra parte do rio, em distansia de quazi legoa, hũa
xarneca, ou defesa, que foi, e he dos senhores Duques de Braganca, de munta
abundancia de coelhos, lebres, javalis, e algũas veses se emcontrao na mesma, servos e
viados, fica esta na freguesia de Vila Real desse termo. Assim mais, os fructos, que se
colhem da parte dalem do Rio Guadiana sam (in solidum) os seus dizimos, do
comendador, e dessa parte, a tresseira parte lhe pertence somente, e o mais dissimo, he
devidido, pellos conegos de Elvas, e Evora. Nesta mesma Vila, se virao antiguamente El
Rey Dom Afonco quarto de Portugal, e El Rey Dom Afonco segundo de Castela, seu
gemro, com as raynhas suas molheres, e o Infante de Portugal Dom Pedro, nas quais
vistas, tratarao de se achar ambos na Batalha do Salado. Nas coronicas de Sam
Francisco, se acha hũ caso
/p. 318/
hum cazo, que aconteceu ao servo de Deos Frey Antonio de Santarem, guardiam do
Mosteiro de Sam Francisco de Evora, como endemoninhado Domingos de Sam
Machinate, que la poderao ver os coriosos.

= Serra =
1. De ssera nam ha que se diga, nem singularidades ou couzas dignas de memoria,
porem contece, que junto ao Monte dos Bacellos, couttos desta Vila, e em pouca
distancia do poco que chamam da Vinha;em hũa emcosta para o dito Monte, se
descobrira hũ mineral de azougue, e que tirandoce algũ; logo se mandara tapar, e com
efeito, se nao continuou mais nesta deligencia, e foi tida a agoa do dito poco, sempre
por singularissima por esta circunstancia.

= Rio =
1. O rio que se acha nas vezinhancas desta Vila, e munto proximo a ela, he o
selebrado Guadiana. Dizem os que milhores noticias delle tem, que este rio tem seu
nascimento na Espanha, emtre duas serras de Aragam, e que nasce de duas fontes e que
juntas, formam este caudalozo rio, e que no mesmo reyno, entra por bacho da terra sete
legoas, dizem outros, que sinco, o certo he, que no noco Reyno, de Portugal se ve
corrente a superficie.

2. Nam ha duvida que caudaloso parece o seu nascimento, po[r]que impetuosa he a
sua corrente, principalmente de Inverno, no que se vem as numeraveis, e grandes cheas,
que servem de admiracao aos que o vem; todo o anno, nam decha de correr; mas de
Veram, com pouca abundancia, que socede pasarem-no a pe descalco; dizem alguns que
lhe socede
/p.319/
que lhe sucede assim por cauza de lhe tomarem as agoas, ou as divertirem para regarem,
naquelles campos, la na Castella, o que he preciso regarce; outros, que a multidao de
gados, que bachao de terras assima lhe deminuem as agoas. O certo he que de Verao se
ve o rio, das agoas mui empobrecido; sendo de Inverno tam emrriquecido dellas.

3. Neste rio, em distancia, de tiro de espingarda, se mete a ribeira de Mures, e em
distancia quazi, de mea legoa, a Ribeira da Asseca; isto he, junto a esta Vila, que em
distancias maiores, se metem outras ribeiras, e ribeiros: neste termo, so a Ribeira de
Pardais, na distancia de legoa, e tres ribeiros, de menos qualidade, em distancia de mea
legoa, e menos, como sam o de Patalao desta parte do rio, e a da outra, o de Villa Real,
e do Freyxial.

4. He navegavel este rio Guadiana, e as suas embarcacoes, nao excedem a barca, e
seus barquinhos e nam me parece pode admetir outras, e sam as que sempre nelle vi, e
nao ouvi o contrario.

5. Paresseme, que o seu cursso todo, he o mesmo em todo o rio, arrebatado mais no
Jnverno pellas impetuosas \agoas/, que mais o faz emfuresser, e de Veram, mui pacifico,
e quieto, pella deminuhicao dellas e bom socego, e isto me parece, lhe sucede em toda a
sua corrente, porque, o contrario, nam me consta.

6. Este selebrado rio, tem sua corrente do nascente
/p.320/
do nascente, ao poente.

7. Cria este rio, muntos pexes, e de varios nomes, e diverssas espessies hũns sam
barbos, outros cumbos, outros beissudos, outros verceiros, estes sam os de maior
qualidade, que ha barbo, que chega a ter o peso, de doito [sic[, vinte, e trinta arrates;
ha tambem outra qualidade, de pexes de menos grandeza, a que chamam escarpios, e
pemcas, os maiores, pezao quatro, sinco, seis arrates; fora desta qualidade, ha eyrozes,
que sam como as jnguias no mar; ha entam pexe mihudo, bogas, bordalos, saralosas ,
pardelhas, e etc. Neste rio, ou este rio, entra hũ selebrado, chamado Pego do Lima, que
pellos especiaes escarpios e pencas, de que o enriquecia, nelle se fariao grandes e
selebres pescarias, de Verao, pella abundancia de agua que lhe ficava, hoie se acha sem
pequia, e so consserva a agua, no tempo do Inverno, e ja estas pescarias tem sessado,
por esta causa. A foz de Mures, e da Asseca, que no dito rio entrao, como ja dice, em
qualquer dellas, se fazem pescarias, de toda a qualidade de pexes, e os principais, e em
mais abundancia, bogas e bordalos.

8. As pescarias, que ha neste rio, e mais pingues e vistozas se fazem de Veram,
com redes, e moscoes, com que se pescao os mais, e mais nobres pexes.

9. Nam consta, que as pescarias deste rio seiam captivas, nem de pessoa particular,
mas livres, para toda a pessoa, e nao
/p.321/
e nam sei se pratique o contrario.

10. No noco Reyno, nam tenho noticia de serem cultivadas as suas marges, mas
antes infrutifero, por nam lanssar suas agoas fora.

11. As agoas deste rio, lhe nam conheco vertude particular; so ousso dizer, que he
bom o beber agoa por pao da tarrafeira que no dito rio ha munta, e que esta agoa pellos
copos da tal tarrafeira, he boa para desfaser a obstrucao. Eu nao o esprimentei.

12. O dito rio Guadiana, nam sei que tenha outro \nome/ neste Reino, ou fora delle,
mas antes nas historias honde se fala neste rio, sempre com o mesmo nome.

13. Este rio morre, e finda no mar, junto a Vila de Serpa, honde chamam o Salto do
Lobo. Digo de Mertola.

14. He certo que este rio por todo elle tem muntos asudes e mohinhos, e por isso
nao. se pode em toda a parte navegar, mais que tam somente nas partes desempedidas.

15. Nam tenho noticia, que este rio, no noco Portugal tenha mais de hũa ponte, em
distancia desta Villa hũa legoa, na freguesia da Senhora da Ajuda, termo de Elvas, que
se acha demolida a principal parte dela, e se nao passa; e he de cantaria.

16. So mohinhos tem este rio, e nao sei tenha outro algũ emgenho, no noco Reyno.

17. Nam temos que dizer.

18. Nam sei tenham algũ empedimento as agoas deste rio
/p.322/
deste rio, para a cultura dos campos, e para tudo o mais pressiso, porque veio, dellas se
uza livremente.

19. Nam sei das legoas, que o rio tem, nem das povoacoes por onde paca, so algũas
do noco Reyno, poderei, inconfuso, dar algũa noticia. De Badajos para este Reyno,
passa pelo termo de Elvas, e termo de Olivenca, por esta de Juromenha, vezinhancas de
Monssaraz, Mouram, Moura, nam sei se por, Serpa, ou Beja.

20. Nam sei mais de couza notavel deste rio, e de tudo o mais, que se pertende saber,
e do que alcanssei ou tive noticia, vai expendido por mim, nesta naracam, qui faco,
segundo os interrogatorios que se me apresenterao. Nam faltara, quem com mais
individuacao fassa esta deligencia, e que milhor noticia tenha. O que confirmo, e paco
esta na verdade. Juromenha 8 de Abril de 1758

O Prior Fr. Gaspar Mendes Fragoso(2)
[ Ass. autografa]

(1) Riscadas as letras “un” que iniciavam a palavra.
(2) Foi-lhe passada provisão para receber o hábito de Avis, a título do benefício curado de
Juromenha a 23 de Outubro de 1727 (ANTT, Chancelaria da Ordem de Avis, Lº 27, fl. 323v).
Em 9 de Outubro de 1745, foi apresentado no priorado da localidade (Ibidem, Lº 33, fl. 159v),
tendo tido já desde 20 de Julho de 1742 este lugar, mas na qualidade de encomendado
(Ibidem, Lº 31, fl. 408).

Transcricao: Ricardina Balsante
Revisao: Fernanda Olival

Castro Verde, 1758, Junho, 01.
Memória Paroquial da freguesia de Castro Verde, comarca de Campo de Ourique
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 10, nº 228, pp. 1521 a 1526]

 

 

/p. 1521/

N. 228(1)

Noticias que Sua Mag.de Fedelissima, manda descrever desta Villa de Castro Verde
comarqua de Azeitam e Arcebispado da cidade de Evora.


Esta esta terra setuada no meio do Campo de Ourique por cabessa de comarqua a Villa
de Ourique, a qual esta distante desta Villa duas leguas, e por ser a dita terra de Exmo.
Duque de Haveiro por esa razam he do destrito da ouveduria de Azetam.
Tem esta Villa dentro en ci duzentos e dezaseis fogos, de confisam tem seiscentas e
cincoenta pesoas(2).

E o termo tem cento e quarenta cazais emtre os quaes entrao huma aldeia chamada os
Giraldos distante desta Villa hum quarto de legoa, e outra chamada os Ayvados distante
da mesma Villa duas legoas. E esta freguezia encluise em hum termo so e este tem mil e
quinhentas pesoas entre maiores, e menores.
Esta esta terra setuada em terra plana, as povasois que se descobrem da dita Villa he a
Villa de Entradas que dista duas legoas, e a cidade de Beja que dista sete legoas, e a
Villa de Serpa que dista des legoas, e tem esta freguezia quatro legoas de comprimento,
e tres e meia de largura.
A parroquia esta no meio da Villa, o orago dela he Nossa Senhora da Conceisam, e
tem, e tem [sic] sinco altares o altarmor esta a Sra. da Concicam na terbuna, e se acham
colocados no mesmo altar S. Joze, e Sto. Antonio

/p. 1522/ e dois culatrais hum de N. Senhora do Mon[te] do Carmo e outra de S. Francisco, e
mais dois juntos aos culatrais hum de N. Senhora d´Asumcam, e outro de N. Senhora do
Rozario, e nao tem a dita jgreja nave nenhuma, e tem esta jgreja a confraria do
Santicimo Sacramento que tem sinco moios de renda e estes sam de trigo que servem
para as despezas da mesma comfraria que vem a ser para a capela da mesma, e azeite
para a lanpada que alumeia o Santicimo Sacramento, e mais despezas que tem dos
Endoencas, e tem maes quatro comfrarias o Santicimo Nome de Jezus, e a de Nossa
Senhora do Rozario, e a de Nossa Senhora d´Asunsao que estas terao de renda dois
moios cada huma, e estes se gastam em despezas das mesmas confrarias, e tem mais a
comfraria das Almas que esta he de poco rendimento, e tem mais a confraria de Sto.
Antonio e S. Joao que estas nao tem nada senao o que ganham os guiais(3) em algum
enterro; e o parroco he prior provido pella Meza da Conciencia e por ser da orde e
mestrado de Santiago da Espada, e tem este quatro moios de trigo e dois de sevada, e
vinte mil reis em dinheiro e destes se lhe tirao des tostois para o subcidio e Cullegio de
Cunibra [sic]; tem tres beneficiados que(4) de renda cada hum deles des quarteiros de
trigo e seis de sevada e des mil reis em dinheiro, e pagam para o mesmo Colegio de
Cunibra seis [tos]tois cada hum e sam tambem porvidos pella Meza da Conciensia nao
tem comvento algum de religiozos

/p. 1523/ ou religiozas.
Tem Caza de Mezericordia e esta tem vinte e hu moio de trigo de renda tem quatro
capelais a quem paga, e juntamente ao espital que este he na mesma Santa Caza, a qual
ademenistra provedor e mais jrmaos, e a reger nao se sabe.
Dentro nesta Villa tem de N. Senhora dos Remedios por titullo as Chagas do Salvador
felial da matris desta Villa, a qual tem de renda, perto de tres moios de trigo, e cento e
vinte mil reis do terrado, e pesos da feira que se faz na mesma Villa os tres Domingo
[sic] de Outubro.
Tem [m]ais huma heremida de Santo Antonio e esta he muito pobre.
He perto do povo esta outra heremida de S. Sebastiao que esta ademenistras\e/ de
esmola dos devotos. Tem maes adianta para a parte do nacente esta huma heremida de
S. Martinho Bispo tambem sem renda alguma, e de distancia de hũa legoa esta a
heremida de S. Pedro das Cabesas de Hel Rej chamase asim porque foi o lugar aonde se
cortaram as sinco cabesas aos reis moiros na ultima batalha que deo Hel Rej o Sr. D.
Afonco Henrriques, e este lugar he hum outeiro alto bastantemente e por baxo do tal

/p. 1524/ do tal lugar onde se de[u] a dita batalha esta hoje edefecada a dita hermida esta para a
parte do nascente huma rebeira chamada a Ribeira de Cobres, e mais abaxo se mete em
outra chamada Maria Delgada e em se ajuntando anbas se chama Torges e esta coreo
tres dias a agoa tinta de vermelho da grande infuzao de sangue que ouve na dita batalha,
ha maes para a parte do ponente huma heremida chamada o Sr. S. Sebastiao dos
Bicados e tem este apelido por estar junto a hum monte chamado Os Bicados e esta
heremida esta distante huma legoa desta Villa, e tem mais outra heremida do Sr. S.
Miguel na mesma deretura tambem para a parte do ponente que he distante da villa
legoa e meia, e esta tem copiozo rendimento e a esta acodem suas romagens quaze todo
o anno e pelo dia do Senhor veem huns devotos da cidade de Beja a fazerem sua festa,
e he ademenistrada pela camara a qual tem obrigacao de lhe fazer hũa festa no seu dia a
qual se lhe faz na vespera por deixar o dia do santo dezenpedido aos devotos da dita
cidade de Beja, que estes a nao querem fazer senao no seo dia.
Os maes frutos desta terra sam trigos sevadas senteios, e o mais abundancia trigos.
E tem juizes ordinarios pela ordenacao; e camara e estes tam sugeitos a oveduria de
Azeitam.

/p. 1525/ Esta terra nao tem correio, mas pasa por ela o correio do reino do Alguave [sic] todas as
quartas feiras e este somente chega a cidade e volta logo no dia Sabado da mesma
semana, e este he que leva as cartas desta terra, e esta terra dista sete legoas a dita
cidade de Beja.
Dista esta villa da cidade capital do Arcebispado de Evora dezaseis legoas; e da cidade
de Lisboa capital do rejno, vinte e sinco legoas, que vem a ser vinte e tres por terra, e
tres por mar.
Em distancia de quaze meio quarto de legoa esta huma fonte junto a huma horta
chamada a Serrena a qual fonte so de Verao mana agoa para fora e de Inverno esta seca,
e esta agoa nao consta que fasa mal algum a quem a beba.

A ruina que padeseo so foi nos tetos da jgreja matris e estes se retificarao ja, e nao e nao
[sic] ouve perigo algum considravel.
Nesta terra ha alguma casa que vem a ser perdizes, coelhos, lebres rapozas lobos que
alguns annos sao vistos co mais fercoencia por se criarem alguns rebanhos de ovelha
onde fazem grande estrago.
E esta jgreja he vezitada pello juiz da orde da Comarqua de Ourique todos os annos; e
pello ordinario

/p. 1526/ do arcebispado de Evora onde pertense seu territorio.
A qualidade do tenperamento desta terra, he muito calida de Veram, e de Inverno muito
fria, e nela se acham pesoas de outenta annos para sima.
Nao. ha lagoas, nem foios, torres, castellos, nem couza que se posa notar, e digna de
descreverse mais que o que fica ponderado. Castro Verde de Junho 1 de 1758.

O Prior Manoel Bernardo Rapozo de Andrade.
[Assinatura Autografa]

 

 

(1) Riscado o numero 109 e sublinhado da epoca o numero 228.
(2) Segundo a obra de Antonio Carvalho da Costa, publicada na primeira decada do sec. XVIII, a Vila tinha
400 vizinhos. COSTA, Padre Antonio Carvalho da, 1707-1712, Corografia Portugueza, Vol. 3, Lisboa,
(edicao em CD-Rom da CNCDP).
(3) O segundo “i” tera sido acrescentado depois de escrita a palavra.
(4) Falta muito provavelmente uma palavra. A margem esquerda esta cortada ao longo de toda a pagina,
dificultando a leitura de algumas letras.

 

 

Transcricao: Ligia Duarte
Revisao: Fernanda Olival

Nossa Senhora da Orada, 1758, Maio,20
Memória Paroquial da freguesia de Nossa Senhora da Orada, comarca de Vila Viçosa
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 26, nº 33, pp. 285 a 288]

 

 

/p. 285/

N. 33

Freguezia de Nossa Senhora da Orada

1. Esta esta freguezia situada na provincia do Alentejo no termo da villa de Borba
do arcebispado de Evora, e comarca de Villa Vicosa.

2. Como a ditta villa he do Serenissimo Estado de Barganca, he a ditta freguezia
tambem sujeita a mesmo Estado.

3. Consta de cento e sincoenta vizinhos que comprehendem seiscentas, e vinte
pessoas entre mayores, e menores.

4. Esta situada em hũa formoza campina, e de alguns lugares della se descobre a
celebrada cerra da Estrella, e de Portalegre, e Villa Boym.

5. Tom [sic] em si tres aldeyas. Hũa chamada das Gorduras, outra do Sande, e
outra dos Galegos, e cada hua nao passa de oyto vizinhos.

6. O seu orago he da Orada, e he tradicao corrente tomara este nome pella oracao,
que no mesmo lugar fes o seu fundador o Conde Estavel [sic] o Nuno Alvares pello
triunfo que conseguio de huma batalha.

7. Tem ao prezente tres altares, o mayor em que esta colocada a prodigioza
jmagem da Virgem Santissima, e Senhora da Orada, e na banqueta do mesmo altar estao
as jmages do apostolo S. Pedro, e Sam Joam Baptista, outro dedicado a mesma senhora
com o titulo do Rosario, e na banquetta do mesmo as jmages da Senhora da Guadalupe,
e de Santo Antonio e outro que alem de hum admiravel paynel das Almas, tem de vulto
huma prodigioza jmage de Christo Crucificado, e ou //

/p. 286/ E outra de Sam Miguel; he de huma so nave de boa grandeza, e formada de abobada.
Tem duas jrmandades huma sujeita ao Excelentissimo Ordinario, e outras de que tem a
conta o provedor das comarcas de Evora e Estremoz.

8. O seu paroco he ad nutum amovivel da aprezentacao do Excelentissimo
Arcebispo de Evora, e tem de renda chamada bolo real duzentos, e sete alqueires de
trigo, e sincoenta, e seis de cevada alem do bolo pessoal, o pe de altar que por ser
contingente he mais, e menos.

9. No seu districto tem huma pequena hermida dedicada ao bisppo Sam Nicolao.

10. He a jgreja parochial frequentada de romagez em varios dias do anno.

11. Os fructos de que mais abunda sam trigo, cevada, centeyo, feijao, e varios
legumes.

12. Como a ditta freguezia, ainda que a mayor parte esta situada no termo de Borba
e no mesmo termo a distante huma legoa da mesma villa, a jgreja parochial da ditta
freguezia; tambem comprehende grande parte do termo da villa de Estremoz, e ainda
alguma parte do termo de Elvas. Tem dois juizes chamados da vintena subordinados ao
governo da justissa de Borba e de Estremoz.

13. Tem hum correyo de postas com treze cavallos promptos, que o ligam a
Estremoz distante duas legoas, e a Elvas distante quatro legoas.

14. Dista de Evora capital do arcebispado oyto legoas, e vinte, e seis de Lixboa
capital do reyno.

15. Tem tres estalages, que ficam na estrada real de Estremoz para Elvas.

16. Muy perto, ainda que fora da ditta freguezia esta huma lagoa chamada a fonte de
Sam Pedro, a outra fonte do Vicoxo, cujas agoas dao principio a celebre ribeira
chamada da Alcaxariffa, que corre pello//

/p. 289/ pello districto da mesma freguezia do sul para o norte; e nesta se acham muitos
pomares, tem dezoyto asenhas, tres moynhos, e hum pizao, e de tudo se paga foro a
Serenissima Caza de Barganca.

17. A ditta ribeira tem huma ponte de pedraria, muito perto da jgreja parochial, na
estrada real de Estremoz para Elvas, conserva o seu nome da Alcaxariffa a espasso de
legoa, e meya athe a herdade da Bispa, de que tem o nome, e com este corre o espasso
de hum quarto de legoa, em que se emcorpora com a ribeira da Anna Loura [sic] ja fora
da ditta freguezia, a qual discorrendo por varias partes, e tomando diversos nomes vay
fenecer no Tejo.

Estas sao as couzas, de que posso dar noticia respondendo aos
jnterrogatorios, e confirmandome nelles a respeito do que ha nesta freguezia de
Nossa Senhora da Orada termo de Borba em fe, da que fis esta declaracao me
asigney em os 20 de Mayo de 1758 .

O paroco P. Francisco Franco Vicente
[Assinatura autografa]

/p. 288/ Freguezia de N. Sra. da Orada termo de Borba

 

 

Transcricao: Ligia Duarte

Borba, 1758, Junho, 15
Memória Paroquial da freguesia de Borba, comarca de Vila Viçosa
[ANTT, Memórias Paroquiais, Vol. 7, nº 38, pp. 989 a 1000]

 

 

/p. 989/

N 38

Notticia historica, geografica, e politica da Villa de Borba.

Borba, Villa situada em os Estados da augustissima Casa de Braganca, na
Provincia do Alentejo, Comarca de Villa-Vicosa, Arcebispado d´Evora. Esta ao
septentriao em hum valle, junto de huma pequena serra, que lhe fica a Occidente
distante d´Evora oito legoas, e de Lixboa vinte, e seis. Tem assento em Cortes no XV
banco. Descobrem-se della a distancia de trez legoas para o nascente hũa pequena
aldeya de Sancto Antonio da Terruge e Villa – boim, Villa.
Seus primeiros fundadores lhe derao o nome de Barbo, em razao de haverem
achado dois desta especie em hum lago, aonde hoje esta o castello, os quaes tomarao
por armas da mesma Villa, mandando-os esculpir em alguns lugares, porem ao presente
so se vem retratados nos espaldares das cadeiras da camara. Pello decurso do tempo se
veio a corromper o nome = barbo = em = Borba =.
Os seus ares sao purissimoz, nao obstante o serem d´Inverno demasiadamente
frios, pella impressao, que lhe fazem os do Norte.

/p. 990/ Norte; o que nao deixa de contribuir para a fazer mais saudavel. Todas as suas cazas
tem quintaes com pocos de excellente agoa de que uzao os moradores para beberem e
regarem suas hortalicas.
He cabeca de conselho com juiz de fora, e camara. O seu termo he muito
celebre, e notavel pella memoravel Batalha de Montes Claros, tao famigerada nas
historias, nelle succedida em 17. de Junho de 1665: em que o Marquez de Marialva
derrotou inteiramente e venceu o exercito castelhano, commandado pello Marquez de
Carracena, em cujo lugar mandou levantar o Rey D. Afonso VI. hum soberbo padrao,
que nas suas quatro faces da a ler toda aquella historia.
He patria do grande heroe Diniz de Mello de Castro, primeiro Conde das
Galveas. Do insigne Estevao Mendes da Sylveira, comissario geral, que foi da
cavallaria, cujo valor, e accoens mereciao melhor atencao aos que escreverao as ultimas
guerras de Portugal. Dos padres Bento Pereira, e Bento de Macedo, bem conhecidos
pellos seus escriptos, e de outro Padre Bento com o cognome de Martir, por ser hum dos
do Japao.

/p. 991/ Japao, todos trez da Companhia de Jezus, em louvor dos quaes corre impresso hum
ellogio, de que, por ser extenso, se transcrevem so os dois primeiros, e dois ultimos
versos =
“Inclita tres celebres Benedictos, Borba, tulisti,
“sanguine conjumtos, religione pares.
“Ergo same e novum nomen, Benedicta vocari:
“Sic tribus his natis ser bene dicta manes.

Tem correio, que chega a Quinta feira de tarde, e parte ao Sabado de manham.
Divide-se em duas freguezias, a da Matris e a de Sam Bartholomeu, cujas
igrejas sao da Ordem d´Aviz: a da Matriz tem 400. vezinhos dentro da Villa, e 100.
dispersos pello campo. O numero das pessoas chega a 2000$(1). Tem a sua Igreja afastada
da Villa em lugar separado, sustentada em duas naves com dois altares collateraes por
banda: a saber, da parte do Evangelho o altar collateral do Patriarcha S. Bento, a capella
do Bom-Successo, a dasAlmas, e a do Anjo Custodio. Da parte

/p. 992/ da parte da Epistola o altar collateral da Cruz, a Capella do Rosario, a da Misericordia, por aqui ser antigamente fundada antes de ser transferida para o castello, e a de Sao Pedro. Foi
fundada esta Igreja por Dom Fernam Rodrigues de Sequeira XXII. Mestre da Ordem d
´Aviz em tempo do Rey Dom Joao I. Em 1458, como consta de huma pedra quadrada,
imbutida na parede do corpo della, da parte de dentro, ao lado direito, com a seguinte
inscripcao em letra gotica =
≫ Esta: Egreia: he: da: Ordem: daviz: e:
≫ mandoua: fazer: o: nobre: Senhor:
≫ Do: Ferna: Roiz: de: Sequeira: me :
≫ da: Cavalaria: da: dita: Ordem: e: foi:
≫ feita: ho: anno: da: Era: de: mil: IIIIc:
≫ e: L:VIII: Aviz: Aviz: Sequeira:
≫ Sequeira: =(2)
O seu patrono he Nossa Senhora do titulo das Neves, mas vulgarmente se diz de Nossa
Senhora do Sobral, por haver tradicao muito antiga, de que naquelle sitio, que
antigamente, e antes da sua ereccao, era povoado de arvores sylvestres, aparecera a
imagem da mesma Senhora, que agora se venera. Ha nella quatro irmandades, a do
Sacramento, a do Rosario, a da Cruz, e a das

/p. 993/ Almas. O seu prior he da Ordem d´Aviz, apresentado pella Meza da Consciencia, com 200.000(3) de renda. Tem tres
beneficiados da mesma Ordem com perto de 100.000(4).
O castello , obra do Rey D. Diniz, he hum quadrilongo, em cujos
angulos se levantao quatro cubos, e dois nas faces lateraes. Teve duas partes na sua
primeira fortificacao, huma, que olha para o Norte, e outra para o Nordeste, ambas
defendidas por dois cubos. Depois lhe abrirao terceira na face do Norte, e lhe
accrescentarao duas torres para a parte do poente; huma das quaes, por mais capaz,
serve de cadeya, e outra, mais pequena, tem o relogio da Villa. Sobre a principal porta,
que esta ao Norte, se ve huma cabeca de pedra de forma humana, a que o vulgo chama
Maria de Borba, tam gasta, que se lhe nao percebem as feicoens, e debaixo da mesma
esta hũa tosca lamina de pedra, cuja escriptura, pella mesma causa, se nao le. As
muralhas por partes com sua ruina em os alicerces, porque o tempo pella banda de fora
lhe vai gastando algumas pedras. Na parte superior se vem ja muito informes, principal-

/p. 994/ principalmente as torres, cujas cimalhas estao totalmente arruinadas; e estas
com o terremoto de 1755 se aballarao muito mais. Tem huma fonte o mesmo castello,
cujas copiosas agoas sao hum dos mananciaes, que formao a Ribeira de Borba. Tem
mais trez ruas, e nellas perto de 40 vezinhos,a caza, e Hospital da Misericordia, hũa das
mais ricas da Provincia com 6.000 cruzados de renda, capellao mor, quinze menores, e
hum thesoureiro. Tudo he admenistrado por hum provedor, e irmandade nella erecta.
Foi fundada pella Rainha Dona Leonor, mas as suas rendas forao-lhe dadas por pessoas
particulares. A sua primeira existencia foi na Igreja Matriz. Em 1663 foi tomado este
castello pellos castelhanos.

Ha as ermidas de Santo Antonio, e S. Sebastiao, dentro da Villa, e fora della as
de S. Miguel, S. Pedro, e S. Claudio, todas sugeitas a Igreja Matris.
Afastado da Villa menos de meio quarto de legoa, no sitio, que antigamente era
caza de campo dos serenissimos Duques de Braganca, esta o Convento de S. Francisco
da Provincia da Piedade, fundado pello Duque D. Jaime IV. no anno de 1505.

/p. 996/ 1505. Vulgarmente se chama o Convento do Bosque, por ser o da sua cerca tanto, ou
mais celebre, que o do Bussaco, e pella espessura de arvores de toda a qualidade, aonde
se encontrao algũas de tanta corpolencia, que igualao na grandesa as dos sertoens da
America. Grande numero de ruas de murtas, buxos, e louros, devotas ermidas,
deliciosas fontes, e outras recreacoes muito dignas de admiracao. Em hũa destas
ermidas, intitulada da Piedade, assistio seis anos de vida penitente aquelle principe, seu
primeiro fundador, acompanhando de seus religiosos e todos os votos: e sahindo de
Portugal occultamente com desejo de fazer profissao nas maos do Papa, o Rey D.
Manoel, por justas causas, lhe encontrou este sancto designio;
Entre os muitos religiosos de grande virtude, que este sancto retiro ha produzido,
e produz, se destingue o veneravel Fr. Francisco da Gata, religioso leygo, que floreceu
em os anos de 1505, cuja vida, e morte preciosa, cheya de milagres, se venera, e guarda
authenticada como o mais rico, e sagrado monumento deste claustro. Todo elle
experimentou grande estrago em o Terremoto fatal, principalmente a abobeda da igreja,
que cahio inteiramente. Nenhuma

/p. 996/ Nenhuma das povoacoens circunvesinhas
padeceu tanta ruina.

Abunda o terreno em azeite, legumes, e pouco trigo, por cauza dos muitos
arvoredos, e estreiteza delle. O seu principal, e mais importante fructo sao os generosos
vinhos, os mais deliciosos, e de melhor reputacao da Provincia, de que ordinariamente
recolhem os moradores mais de 110, e 120.000 almudes em todos os annos. He, porem,
tal a opiniao em que tem este seu genero, que sempre nesta Villa se vende mais caro, do
que nas outras, aonde o ha.

De todos os lados a cercao continuadas hortas, e pomares, cujos arvoredos,
principalmente em a Primavera, formao, a mais bella, e agradavel floresta. Produzem
todo o genero de fructas, e com especialidade jinjas, as melhores, e mais fromosas do
Reino. Estas particularidades fasem tao ameno o paiz, que nao tem inveja as celebradas
frescuras, e amenidades d´Entre- Douro(5) e-Minho.
Contem em si, e no ambito de seus arrebaldes infinitas

/p. 997/ infinitas fontes
de admiraveis agoas, que ham muitas dellas de per si moem asenhas em todo o anno.
Entre todas se distinguem, por singulares, a que chamao dos Finados, proxima a igreja
matriz, digna do melhor ornato, e estimacao; porque, conforme a observacao dos
medicos, alem de serem as suas agoas muito puras; e saborosas sao as mais salutiferas
do Continente.

De todas ellas se forma a pequena ribeira, chamada a Ribeira de Borba, que depois
de dar agoa a algumas asenhas, e fertilizar com suas correntes as mais das hortas, que
estao no Oriente, vai desembocar em distancia de duas legoas para a mesma parte em a
da Asseca.

A serra immediata a Villa que principia pouco distante de Estremos, e vai accabar
em a Villa do Alandroal, tera de comprimento do Norte ao Sul quasi duas legoas, e do
nascente ao poente, meia de largura

/p. 998/ largura: dos seus diversos nomes,
correspondentes aos seus bracos so tem notticia os naturaes; porque hum, que se estende
para o Sul se chama Serra da Vigaria, em cuja emminencia esta um padrao para
memoria, de que para aquelle lugar se retirou o Marques de Carracena, perdidas as
esperancas do vencimento da referida Batalha de Montes-Claros. E outro braco pouco
distante, que se continua tambem para o meyo dia se nomeya vulgarmente Serra do
Moiro.

Por partes he cultivada de vinhas, e olivaes, mas o mais predominante em toda a
sua extensao he matto e quantidade prodigiosa d´alechrim, de que se provem para
medicinas, e para as suas fogueiras de Sam Joao as povoacoes vesinhas.
Produz todo o genero de caca, principalmente, perdises. Toda ella he hum
thesouro de canteiras de finissimas pedras de extremada grandeza e de variedade de
cores; e he certo,

/p. 999/ certo, que sao as mais preciosas que se descobrem em todo o
Reino. Daqui sao conduzidas a custa de grande dispendio para Evora, para Lisboa, e
para outras muitas partes.

Feita em Borba aos 15. de Junho de 1758.

O Prior da Matriz Joao de Matos de Lucena Coutinho.
[assinatura autografa]

/p. 1000/ Freguesia da Matriz de Borba

(1) Sabendo que o cifrão tem valor de mil, é provável que o autor se tenha enganado, pois não
podem ser 2000.000. Para converter vizinhos em habitantes, o cálculo pode ser o seguinte 500
(vizinhos) x 4.5 = 2.250 (habitantes) ou 500x4= 2000. Por esta razão manteve-se o cifrão na
transcrição.
(2) Transcrição da inscrição em letra gótica: “Esta egreja he da Ordem d´Avíz e mandoua fazer o
nobre Senhor Dom Fernam Rodriguez de Sequeira Mestre da Cavalaria da dita Ordem e foi
feita ho anno da Era de mil IIIIcentos e LVIII. Aviz: Aviz: Sequeira: Sequeira”.
(3) Não indica a unidade de conto monetário.
(4) Não indica a unidade de conto monetário.
(5) Aqui o Autor não colocou o traço.

Transcricao: Ana Esmeralda Carvalho e Fernanda Olival


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