Memórias Paroquiais

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Santa Ana, 1758, Maio, 7

Memória Paroquial da freguesia de Santa Ana, comarca de Beja

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 4, nº 15, pp. 75 a 76]

 

/p. 75/

Pello Reverendo Padre Escrivão Eecleziastico Rodrigo Affonço Camacho me foy

entregue hum para que a elles respondese.

1) Em quanto ao primeyro digo, que esta freguezia da Santa Anna do termo desta

Villa de Serpa seu Parocho he freguezia do Campo, termo da mesma Villa, da

qual Villa he Donatario o Serenissimo Senhor Infante Dom Pedro o qual

apprezenta as justissas da ditta Villa.

2) Fica a tal freguezia no Alentejo, Comarca de Beja, e Arcebispado de Evora.

3) Tem trinta e nove vizinhos ou fogos; cento e setenta e sinco pessoas.

4) A sua situação he em campina não mui plana; as povoaçois que della se

descobrem são a cidade de Beja, que dista quatro legoas, e o lugar de Baleyzão

termo da ditta cidade de Beja, que dista duas legoas.

5) Esta freguezia he do termo de Serpa que se compoem de Erdades e hortas, que

humas, e outras são de senhorios, que cobrão as suas rendas.

6) A Parochia está quazi no meyo da freguezia, e não tem nella Aldeya, ou lugar.

7) O seu Orago he Santa Anna: há na Igreja dois altares, o Altar mayor com o titulo

de Santa Anna, e o Altar das Almas.

8) O Parocho he cura posto pello Excelentissimo e Reverendissimo Senhor

Arcebispo de Evora hé do Habito de São Pedro pago pellos freguezes com tres

moyos de trigo, e quarenta alqueyres de sevada.

9) Não tem Beneficiados.

10) Não tem a tal freguezia Convento algum.

11) Não tem hospital.

12) Nem Caza da Mizericordia.

13) Ha nesta freguezia huma Eremida com o titulo de Santa Margarida, que

pertense ao Parocho da mesma freguezia de Santa Anna.

14) He mui pouca a gente, que vay em Romaria á tal Eremida, ahinda no dia da

Santa.

15) Os frutos que os fregueses ordinariamente recolhem são trigo, sevada,

centeyo, vinho e algum azeyte.

16) Não tem Juis por ser freguezia de Campo, mas o Juis de Fora desta Villa de

Serpa he que a governa.

17) Não he couto, cabeça de Concelho, e honra ou behenctria.

18) Não há memoria que della sahissem homens insegnes em virtudes, letras ou

armas.

19) Não tem feyra mais que a desta Villa de Serpa, que he a vinte e quatro de

Agosto tres dias franca.

20) Não tem mais correyo, que o desta Villa que sahe a quinta para Beja, que dista

quatro legoas, e chega a sesta.

21) Dista da cidade Capital do Arcebispado, que he Evora doze legoas, e de Lisboa

vinte e sinco.

22) Não ha na tal freguezia previlegios, ou antiguidades.

23) Não ha nella fonte, ou lagoa celebre, nem perto della.

24) Não hé porto de mar.

/p. 76/

25) He freguezia de Campo dividida em Erdades, ortas, e montes.

26) Não padeceo couza de cuidado com o terremoto do anno de 1755.

Pello que se me procura da Serra, como na freguezia a não há nada digo, e tambem

nada sey da Serra de Serpa.

E pello que respeyta ao Rio, digo

1) O seu nome he Guadiana dizem nacer [sic] no Reyno da Mancha de Aragão em

Castella.

2) He tradição nacer logo caudelozo.

3) Hé moralmente impossivel saberse que Rios entrão nelle.

4) Não hé navegavel, mais que com barcas em que se passa de huma banda para

a outra quando não dáva.

5) O seu curço he arebatado, principalmente em Portugal.

6) Nesta freguezia que com ella confirma a tal freguezia corre a parte do Poente,

mas corre de Norte para o Sul.

7) Criase peixes que se costumão crear em agoa doce, como são barbos,

bordallos, bogas, e eyrozes, sebutelhas, e todos estes se crião em abundancia.

8) Não há nella mais pescaria que a de cana, e redes para os coriozos em todo o

tempo.

9) As pescarias são livres; so há nesta freguezia e que chamão caneiros, que são

de duas familias particulares digo, huma pescaria, ou caneiro que de pessoa

particular.

10) Suas marges não se cultivão por serem fregozas só em algumas desta freguezia

so fazem huns pequenos meloais.

11) Não consta de virtude particular de suas agoas, ahinda que alguns banhos se

tomão nelles mas com pouco, ou nenhum effeyto.

12) Sempre tem concervado o seu nome de = Guadiana; della dizem, que em

Castella corre sette legoas por bacho da terra, e nestemo [sic] de Serpa, digo, e

neste termo de Serpa pella Serra corre tão apertado que a peça com salto hum

homem de huma banda a outra, cuja estreyteza concerva algumas legoas.

13) Vay morrer no mar Occeano junto a Ayamonte Reyno da Castella, e Castro

Marim Reyno de Portugal.

14) Nesta freguezia não he no tal Rio levada, mais que a dos asudes, que fazem

moer os moinhos que nella há.

15) Não tem em Portugal ponte alguma.

16) Nesta freguezia, e Reyno tem moichos mas não de azeyte: tem pizoes mas não

nesta freguezia.

17) Nunca em tempo algum, nem reprezente há memoria de se tirar, ouro ou prata

de suas aréas.

18) Esta Villa não uza de suas agoas para cultura alguma por ser terra fragoza as

suas marges.

19) Hé moralmente impossivel saberse as legoas de Guadiana, e as povoaçois por

honde passa.

He o que posso dizer, e responder aos interrogatorios que me forão

apprezentados

Serpa 7 de Mayo de 1758

O Parocho da Igreja de Santa Anna Bras Passos

Neste Rio de Guadia[na] em esta freguezia entra nelle hum grande ribeyro

chamado Enchoes que he freguezia he no tal ribeyro montados em o Rio

Guadiana há dois moinhos pertencentes ao termo de Serpa.

O Padre Bras Passos [assinatura autógrafa]

 

Transcrição: Ofélia Sequeira

Prazeres, 1758

Memória Paroquial de Senhora dos Prazeres, Comarca de Vila Viçosa

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 42, nº 352, p. 170]

 

/p. 170/

N.352: Praseres

Praseres, ou Senhora dos Praseres, he aldea, a Parochia do termo da Villa = Monforte =

na Commarca de Villa Viçosa = o seo povo consta de 56 vizinhos na Matris dedicada a

Senhora dos Praseres.

O Parocho he Prior apprezentado pela Mitra de Elvas e tem de congrua 240 alqueires

de trigo.

 

Transcrição: Ofélia Sequeira

Panóias, 1758, Junho, 24

Memória Paroquial da frguesia de Panóias, comarca de Campo de Ourique

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 27, nº 44, pp. 283 a 286]

 

/p. 283/

Resposta do Senhor da Vila de Panóyas as perguntas seguintes

He Villa esta posta no Arcebispado de Evora Comarca do Campo de Ourique

He de El Rej a jurisdicão, por quem poem justiças e as rendas da Comenda sam de

donatario ao perzente xamado Jozé Joaquim de Miranda Coronel do Regimento de

armada.

Tem a Vila em si vezinhos noventa, e seis; e pessoas tem duzentas e ouitenta, e sinco

Esta posta em hum monte em o mesmo monte com huma larga planise para a parte do

Sul descobre se a Villa de Messejanna que dista huma legoa a Vila de Ourique duas

legoas a freguesia de Santa Lucia no termo de Gravão legoa e meja

Tem esta Vila termo não tem lugares, nem aldejas só na distancia de huma legoa esta a

Ermida do Glorioso São Romão que ha neste termo com continuas romagens e

innumeraveis pordigios que obrar: tem vezinhos o termo duzentos, e trinta, e tres, e

pessoas que tem o mesmo termo sam quinhentos e quarenta

A Igreja Parrachial esta posta no mejo da Villa o nada mais desta.

O orago da Igreja he o Principe dos Apostollos o Senhor São Pedro tem tres altares

esta Igreja o Altar Mor do Senhor São Pedro dois colletarais o da parte do Evangelho

he das bandittas Almas e da Nossa Senhora da Concejção e donde esta o caxivo da

Reliquia do Glorioso São Romão, e o da parte da Epistolla he do Senhora do Rozario a

capella he de abobeda e o corpo da Igreja tem tres arcos em distancia ig[u]al da

Capella athe porta principal de parede a parede e tres traves huma que corre no mejo

dos dittos arcos, e as duas como de huma parte, e outra da outra amadejrada de paos

em quadro, e forrada por sima dos paos: tem sinco Irmandades a saber do Santissimo

Sacramento de Nossa Senhora do Rozario, de Nossa Senhora Concejção, das Almas, de

São Romão.

He o Parroco desta Igreja Prior da Sse este Priorado depoi de papeis pronptos e exame

fejtto em a Mensa da Conciencia, e Ordens sobe por conculta a Sua Magestade e Sua

Magestade fes merce della a quem lhe parece que tem mais justica tem de renda

pago pella Comenda da mesma Vila cento e sincoenta alqueres de trigo e cento e vinte

alqueres de sevada, e vinte mil reis em dinheyro he esta Igreja da Ordem de São

Thiago e o Prior e beneficiado trazem abitto da mesma ordem que sam perfecos nella.

Somente há hum beneficiado, e tem de proprina paga pela Comenda cento e sincoenta

alqueres de trigo, e noventa alqueres de sevada e dois mil reis em dinheyro: aprovado

no//

/p. 284/

Modo, asima ditto sobre o Prior.

Não tem Convento algum;

Não tem Ospital;

Tem Igreja da Mizericordia que no terramoto de Novembro de 1755 cajo toda a

abobeda do corpo, da Igreja, e autualmente ainda asim se axa, mas esta ajustado o

concerto de ser agora de paos em tizora forrada por baxo em paos em estejra e

concertarem a Capella de abobeda e forrarem a Caza do Despaxo e juntamente a obra

de pedrejro por duzentos e dezazeis mil, e tantos reis, a sua origem foi fejtta de

esmollas esta Igreja, e havera couza de 60 annos hum capitam xamado Manuel Mestre

Rapoza morador nesta Vila, lhe deixou couza de cento e ouitenta alqueres de trigo que

é o que tem com obrigaçaó de darem de esmolla 30 reis a cada porem sendo secular, e

vindo por Carta Regia, e Ecleziastico 100.

Dentro desta Vila esta a Igreja da Mizericordia na forma ditta, e está a Igreja do Spirito

Santo; junto a Villa mas fora está a Ermida do Martir São Sebastiam estas Ermidas sam

da diministracaó da Camara, e sam contas ao Provedor da Comarca, fora, na distancia

de huma legoa, está a Ermida do Gloriozo Sellomaó e toma comta das esmollas deste

Santo oficiais que a governaó Juis e escrivaó e depozitario que sam conta ao Juis da

ordem e os vizittadores ordinarios, e quem lhes pede.

A Ermida de Senhor São Romaó todos os dias (por acazo no anno hé algum dia que

asim não soceda) vem romejros pella grande fé; e continuos millagres que obra com o

mal de raiva tristezas do coracaó, e tanto asim que ja teem xegado a vil gente danada,

e nesta Ermida por virtude deste Gloriozo Santo alcancarem melhora, e ao menos

quando qualquer criatura animal inracional ou gente, vem a esta Ermida, e ao depois

se da nam he com raiva mança, que naó fazem mal a pessoa alguma nem a criatura:

fosse festa nesta Ermida pello Spirito Santo que devocaó da gente de Beja, e o depois

desse tempo fas festa ao mesmo Santo ha devotto de Ferrejra e paga o Santo duas

festas huma nos oitavos da Pascoa, e outra em Agosto que se fazem os fruttos que

nesta terra se costuma se colher com abundancia he trigo, e sevada, e algum sentejo.

Há Juizes Ordinarios, tres Veriadores, dois almotaces em cada 3 mezes, e hú

Procurador do Concelho.

He Vila o Santo nome.

Naó tenho axado noticia que daqui sahisem sojettos asinallados em letras, naó em

armas, ne tenho noticia de Santo algum desta terra.

Nam tem feira nem a dezejam.

Naó xega a ella correjo servese [sic] do correjo de Messejanna que dista huma legoa.//

/p. 285/

A Evora que a Capital do Arcibispado sam 16 legoas; a Lisboa vinte legoas.

Naó tem privillegios nem exençois.

Naó tem fonte de espisial [sic] mencaó né agoas singulares dista do mar 7 ou 8 legoas.

Naó he murada, né praça de armas.

Teve muita roina no seo tanto no terramotto de 1755 cazas muitas cairam quazi todas,

se teem reformado, que os edificios sam de pouca dutaçaó com pouco se reparam

padeceo grande ruina a Igreja do Sagrado Spirito Santo ja se lhe fes huma capelinha de

novo muitto mais asiada: da Igreja da Mizericordia estamos com essa esperança a

Igreja Matris padeceo, ruina grande a torre da Igreja aonde tinha dois sinos naó ficou

capas de ficar, acabouce de derrubar, está hú sino ainda em dois paos com se xama o

povo aos sacraficios, e para os Sacramentos e officios devinos o corpo da Igreja e

Capella pello pouco ponto que tinha a Igreja axa se ainda hoje cuberta de telha solta,

ainda que pouco lhe xove hú retavallo lizo ou tribuna, que tem o altar mor esta ainda

na pura madeyra axase [sic] com o arco da capella, mor forrado de madejra sem mais

ornatto de todas estas couzas esta Igreja tem gran necessidade em honra de Deos se

pedem estas obras o Padre Senhora tem pouca renda para hir requerer a Lisboa na

Meza da Conciencia, e pera este requirimento necessitasse muittos mezes, e talvez

annos a Corte esta da sorte que se conta que dela se está fugindo quanto mais hir lá

daxe [sic] a providencia Devina facelitte o modo destas poucas obras se fazerem que

sam mujtto necessarias. Naó ha couza digna de memoria.

Naó tem Serra o termo desta Villa.

O temperamento só o poderam dizer os medicos dottos e praticos ou o nome que

sempre ouvi xamar a estes sittios he zona torrida.

Neste campo crianse [sic] bastante gado tanto de lam como de cabello, e caca [sic] em

abundancia de lebres perdizes coelhos.

Naó tem mas couza notavel.

Nam tem rio

So tem duas ribeyras que corem emquanto xove.//

/p. 286/

Correm do Sul para Norte.

Criam pexes, bogas, bordallos, e barbos, e de qualquer destas calidades em grande

quantidade.

Fazense [sic] nestas ribejras pescarias em Agosto, e Setembro com redes por occaziam

destarem mais secas em Janeiro Fevereiro e alguns mezes mais de cana.

Naó tem poribicaó [sic] as pescarias nestas ribejras. Se naó as da Lej do Rejno.

De ordinario sam as marges destas ribejras de lavora para trigo, sevada, e pouca couza

pera milho por serem mujtto secas.

No termo desta Vila sempre teem o mesmo nome.

Naó teem neste sitio repteza [sic], nem em tempo algum sam capazes pera calidade

alguma de embarcaçam.

Naó teem pontes neste termo.

Somente no termo desta Vila há sette mojnhos que moem trigo, sevada, e sentejo,

milho quando xove ou pouco depois.

Naó axo noticia que axasem nelles ouuros [sic].

Livremente uzam de suas agoas pera beberem os seos gados que he pera que servem,

sem pençaó alguma.

Nada mais ha espicial [sic].

Fejtta nesta Vila de Panojas em 24 de Junho de 1758 pello Senhor da Igreja Matris da

ditta Vila

O Padre Ignacio Jozé da Lança [assinatura autógrafa]

 

Transcrição: Ofélia Sequeira

Ouguela, 1758

Memória Paroquial da freguesia de Ouguela, comarca de Elvas

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 26, nº 47, pp. 371 a 374]

 

/p. 371/

Satisfazendo ao que me detremina o Illustrissimo cabbido por ordem da Secretaria de

estado de Sua Magestade que Deos guarde, sobre os interrogatorios a que me mandou

responder, dos quais me informei e inteirei com a individuassaô possivel, e achei

constarem o seguinte;

Do primeiro interrogatorio consta, que fica esta Villa de Ouguella em a Provincia do

Alentejo e pertence ao Bispado e Comarca da cidade de Elvas, e o termo, e freguezia

da dita Villa.

Ao segundo que he senhorio de prezente Sua Magestade que Deus guarde.

Ao terceiro que tem esta Villa sincoenta e dois vezinhos, e pessoas do mascollino

setenta, e do sexo femenino sessenta e seis.

Ao quarto, que esta Villa esta situada em hum oiteiro, da qual se discobre a Villa de

Albuquerque do Reyno de Castella que dista duas legoas.

Ao quinto que tem esta Villa termo seu de comprimento de legoa e meya, e huá de

largura no qual existem doze vezinhos.

Ao sexto que esta a Parochia dentro desta dita Villa.

Ao septimo que he o seu Orago a Senhora da Grassa, e tem tres altares altar mór, o da

Senhora do Rozario, e o da Senhora da Conceiçaô, e tem quatro Irmandades a do

Santissimo Sacramento, a da Senhora do Rozario, a das Almas, e a da Mizericordia.

Ao outavo, que o Parocho he Prior//

/p. 372/

Prior o qual aprezenta Sua Santidade e o Excellentissimo Senhor Bispo

alternativamente, e tem de renda huns annos por outros cento e trinta mil reis, e ha

na dita Igreja mais hum cura que aprezenta o mesmo Excellentissimo Bispo.

Ao decimo e undecimo, naô comprehende nada.

Ao duodecimo que esta Villa tem Caza de Mizericordia aqual teve a sua origem por

fallecimento de hum testador que lhe deixou humas terras, que rendem hum moyo de

trigo todos os annos para a cura dos pobres.

Ao decimo terceiro tem esta Villa tres Ermidaz no seu termo as quais pertencem a

Parochia da dita Villa, que sam do Senhor Salvador do Mundo, a Senhora da Inxara, e a

do Senhor Sam Pedro.

Ao decimo quarto, naô comprehende nada.

Ao decimo quinto que a maior abundancia de frutos que colhem os moradores desta

Villa, saô trigo e vinho.

Ao decimo sexto, que tem Juiz Ordinario, e Camara.

Ao decimo septimo, decimo outavo, e decimo nono nam comprehende nada.

Ao vigecimo naô tem correyo e se serve do da cidade de Elvaz que dista desta Villa

quatro legoaz.

Ao vigecimo primeiro dista esta Villa a cidade Capital do Bispado quatro legoas e a de

Lisboa Capital do Reyno trinta e quatro legoaz.

Ao vigecimo segundo que tem pervilegio//

/p. 373/

Pervillegio para nesta Villa naô se fazerem soldadoz.

Ao vigecimo terceiro que ha proximo desta Villa hua fonte que tem duas singullares

propriedades huá que todos os animaes criados em outra agoa que se lhe lancam

dentro morrem no lago, e outra que naô coze carne nem legumes como as outras

agoas.

Ao vigecimo quarto, naô comprehende nada.

Ao vigecimo quinto, que esta Villa he prassa de armas e morada os quais muros se

achaô muito damnificados e nestes estam sinco torres.

Ao vigecimo sexto que os ditos muros padéssesseram [sic] grande ruina no terremoto

de mil setecentos e sincoenta e sinco, e principalmente a torre da Igreja que veio a

maior parte della abacho e algumas cazas da dita Villa e tudo está ainda por reparar, e

athe o vigecim[o] septimo naô ha mais couza alguma digna de memoria.

Sobre o que se pergunta a respeito desta Villa se responde e pello que pertence a sua

Serra.

Ao primeiro, segundo e terceiro interrogatorio que se chama a Serra de Sam Pedro, he

esta de muito pequeno comprimento e largura.

Ao quarto e quinto naô comprehende nada.

Ao sexto ja se respondeo no interrogatorio vinte e tres supra.

Ao septimo, outavo e nono naô comprehende nada.

Ao decimo que he o clima desta terra no Inverno muito intemperada por cruzados

ventos nortes, e no Veraô muito callida por cauza do vento Sul.

Ao undecimo que ha no termo desta Villa criaçoens de todo o genero de gados.

Ao duo decimo//

/p. 374/

Ao duodecimo, e decimo terceiro, nam comprehende nada.

O que se pergunta a respeito do Rio que passa proximo a esta Villa se responde.

Ao primeiro interrogatorio que se chama o Rio Severa o qual tem o seu nacimento ao

pe da Serra de Sam Mamede corre pellas penedias do monte do Sete e passa junto a

Igreja de Saô Julliam, e de hú lugar the vinte sinco cazas, a que chamam Severa, de que

neste Rio tomou o nome.

Ao segundo que nasse logo caudollozo, e corre todo o anno.

Ao tresseiro [sic] que entra neste rio junto a esta Villa outro a que chamam Abrillongo,

o qual tem o seu nassimento no Reyno de Castella.

Ao quarto naô comprehende nada.

Ao quinto, que he de curço arebatado em toda a diztancia.

Ao sexto que corre do Norte para o Sul.

Ao septimo, que se criaô no principio deste Rio muitas trutas por suas agoas serem

muito frias e para bacho naô cria senaô pexe ordinario que levam as mais ribeiras do

Alentejo pellas terras serem calidas e he o que tras em maior abundancia.

Ao oitavo que ha nelle suas pescarias todo o anno.

Ao nono que saô suas pescarias livres.

Ao decimo, undecimo e duodecimo naô comprehende nada.

Ao decimo treceiro se ajunta este rio com o rio Boteva, e ambos entraô em Guadiana

avista da Cidade de Badajos.

Ao decimo quarto que tem seus asudes.

Ao decimo quinto naô comprehende nada.

Ao decimo sexto que tem muitos moinhos.

Ao decimo septimo, e decimo outavo naô comprehende nada.

Ao decimo nono, que tem sete legoas de comprimento este rio, e por onde passa ja se

respondeo, e naô incontrei mais couza algua digna de memoria.

O Prior Manuel Martinz Lobatto [assinatura autógrafa]

 

Transcrição: Ofélia Sequeira

Nossa Senhora dos Degolados, 1758

Memória Paroquial da freguesia de Nossa Senhora dos Degolados, comarca de Portalegre

[ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 13, nº 9, pp. 55 a 56]

 

/p. 55/

A freguezia dos Degollados he filial da Matriz da Villa de Arronches, e está no seu

termo distante tres legoas della e sete da cidade de Portalegre, cabeça do mesmo

Bispado, e Comarca na Provinçia de Alentejo, distante trinta e tres legoas da Corte de

Lisboa. O orago da Igreja he Nossa Senhora da Graça dos Degollados, naõ me consta da

Origem deste appelido, como taõ bem da sua fundaçaõ /supponho por se queimarem

os archivos da Villa de Arronches, no tempo da guerra da Acclamaçaõ; por ser ali a

praça fórte que Castella occupou nesta Provinçia, no tempo que durou aquella

Guerra/. A Igreja he bastante grande, a Capella mor hé de abobeda de barrete, obra

antigua con seus cordois [sic] no tecto, o telhado do corpo della he de madeira de duas

agoas; foi cuberta no anno de 714, porque na guerra ultima da quadruple aliança, foi

destruida pelos espanhois, e a freguezia desabitada de moradores, por estar sempre,

invadida das entradas; que faziaõ os castelhanos neste Reino. Tem tres altares, o

mayor donde está a Imagem de Nossa Senhora e dous coleteraes, hú de Saõ Jozé, e

Nossa Senhora do Rozario, e outro do Senhor Jezus, e Almas. Naõ tem Irmandades. O

Parocho he Cura adnutum da aprezentaçaõ do Excellentissimo Prelado de Portugal:

tem para a sua Congrua, e substentaçaõ tres moyos de trigo, que lhe pagaõ os

freguezes, porque naõ recebe nada de dizimos. Hé composta de trinta e duas Erdades,

e alguns cazaes, que lhe fazem 42, fógos, e nelles ha duzentas e duas pessoas, de

ambos os sexos; a saber: cento, e quarenta, e sette homens; e cincoenta, e outo

mulheres. Tem de comprimento quasi duas leguas; porque vem acabar partindo com –

o termo de Campo Mayor, que /pertense ao Bispado de Elvas/ em distancia de hum

quarto de legoa, tam sómente daquella Villa, e de largura, terá o mesmo; porque parte

com a Ribeira a que chamaõ de Ouguella, e referta, ou terras a que chamaõ de

duvidas, por serem comuas a Castella, e Portugal, em pastagens, e seáras, pella parte

do Nascente, e de Poente com - o Rio Caya, que devide, os dous Bispados de Elvas, e

Portalegre, por esta freguezia, e a de Santa Catherina daquelle Bispado: metade desta

freguezia, tem matos de azinho, em que se engordaõ muitos porcos, e a outra a

metade, he campo descuberto muito forte fertil de trigo, centeyo, e algúa cevada. Está

a Igreja cituada, no meyo da freguezia, na ponta dos matos, em lugar quazi plano, e

junto della estâ hum val de terra pingue, e abundante de agoas,//

/p. 56/

Porque em pouca distancia, tem cinco fontes copiózas, em que nunca se sentio

esterilidade, inda quando os Veroens saõ rigorozos. Junto da freguezia se vem

vestigios, de tanques, e cânos, que mostraõ a ver ali algú dia fazendas de melhor

qualidade, porque hoje senaõ semeaõ, senaõ trigo. Há no meyo da freguezia tres

vestigios de minas de ferro, que inde hoje conservaõ o nome de ferrarias, e parece

foraõ dos Romanos; porque a pouca distancia dellas, se vem vestigios de huã crusada

/a que aqui daõ nome de alicerse/, muito antiga, que pelo meyo das pedras, tem

azinheiras, muito velhas, e se deixou ver em partes fóra dos caminhos, que hoje tem,

atravessando muitas erdades; porém bem se – mostra, que vaõ dar a huã ponte, que

estâ na passagem do Rio Caya, por baixo de Arronches aruinada, a que chamaõ a

ponte velha, feita de pedra de rosso, que há por aquelle citio, com boa arquictetura, e

lavor; e por estar em outra freguezia, naõ digo nada mais della. O Terramoto do anno

de 1755 naõ cauzou ruina notavel, mais que algumas rachas nas paredes da Igreja, e

telhados, que tudo estâ repairado.

Esta hé amformaçaõ que posso dar da minha freguesia respondendo aos quesitos [sic]

do papel que me foi mandado de Vossa Excelencia Reverendissima.

De Vossa Excelencia Reverendissima

Subdito muito Reverente

O Cura o Padre Luiz Barboza Cordeyro [assinatura autógrafa]

 

Trancrição: Ofélia Sequeira


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