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Santa Maria, 1758, Maio, 2 Memória Paroquial da freguesia de Santa Maria, comarca de Portalegre [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 22, nº 74, pp. 471 a 498]
/p. 471/ Satisfazendo aos interrogatorios da carta inpréssa aqui junta, que me foi cometida pello Excelentissimo Senhor Bispo deste Bispado, respondo a elles na parte, que me pertence depois de me informar cabalmente. Hê esta terra a Villa de Marvão, que no seu principio, dizem se denominou – Malvão: pertence ao Bispado, e Comarca de Portalegre, provincia de Allemtéjo: e hé da Coroa Real deste Rejno de Portugal; tem Juis de Fora, que juntamente serve de Juis dos Orpphaós, ao qual passa a serventia de Corregedor Interino, quando na cidade de Portalegre, que he a Capital desta Villa, falta o Corregedor, e Juis de Fora; perrogativo que tem esta Villa, por ser a mais antiga da Comarca. Está situada em hum dos mais elevados montes deste Rejno, cujo cabeço hé comprido á maneira de Bárco do Nascente para o Poente quazi tres tiros de espingarda; e corre pláno da parte do Súl; e tem de largúra pouco mais de hum tiro de Espingarda do Súl para o Norte, para onde fás meia ladeira a maior parte de sua largura, de que procéde que as Rúas ficão á maneira de de gráos, humas mais altas que outras, e por isso se deixa ver quázi toda a sua structura das partes do Norte, e vezinhanças do Reino de Castella donde a sua vista amóstra de grandeza, e o fás parecer mais populóza: E// /p. 472/ E para esta aparente grandeza comcorrem muito o Castello da mesma Villa, que acrecenta o seu comprimento da parte do Poente; e o Comvento da Senhora da Estrella da parte do Nascente ainda que cada hum tem quazi plano o seu sitio: Rio Da parte do Sul desce o seu vertente quazi hum quarto de legoa, e pára em hum amenisimo prádo, onde as muntas agoas dão principio ao seu celebrádo rio chamado - de Sever, cujas márgens se adornão de arvores frutiferas, e de engenhos reáes, que nos annos secos valem a maior parte da Provincia; e se dis, que as filhas dos Godos e Arménios, cuja cidade no Nascente deste Rio se ve, ainda hoje destruhida, na falta de espelhos para seus adornos, se hião ver nas suas agoas; e que preguntadas donde vinhão, respóndião de Sever, e que daqui veio ficar o nome de Sever = a este Rio; mas dos seus pexes, arvoredos, e engenhos de pizoens, moinhos e asenhas dirão mais clara, e individualmente nas suas informacoens o Reverendo Padre Cura do Rej Salvador, em cuja freguezia este Rio nasce; e o Reverendo Pádre Cúra de Santo Antonio das Aréias, pellas marggés, de cuja freguezia, o mesmo Rio corre; Da parte do Norte desce o vertente deste Monte ou terra, em partes meia, e em partes húa legoa, e fora da povoação a hum tiro de espingarda de distancia; e menos comissa este monte a brotar perenisimas fontes por todos os ládos e a vestirsse de arvoredos, os quaes são os seguintes // /p. 473/ Seguintes – variedade de soutos, cujo fruto consiste em castanha, e madeiras; e este he aqui o mais copiozo; variedade de pumáres, cujas frútas, alem das suas ortalicas, e feijoens brancos, são innúmeráveis, huns temporaos, e outros de guarda, e mũntos vinhos; por cuja razão desde que coméssão as sireijas, que he o primeiro fruto, athe afim do anno, em que se recolhem as castanhas, sempre Marvão está colhendo, e recolhendo muntas frutas, e múntos frútos, de que se utilizão, e surtem os povos vezinhos e ainda os distantes. E em todos os seus pumares, e hortas, que são muntos, há e se crião infenitas ervas medicináes, como são, bardána, eufrazia, solda, celidonia, malvas violletas, salva, linho em rama, gilbarbeira, pionia, arruda, sabugo, legacão, erva moura, tanchagem, rosmaninho, tramagaeira, avenca, barbasco, ourégão, urtigas, funcho, alfavaca de cobra, memendro, héra, erva molarinha, norça, betonica, jarro, salça, ajpo, erva de sam joão, agrioens, e infinitas outras de que os ervedarios da corte vem aqui em todos os annos buscar, para venderem, grande copia; e algumas que não achão pellos, pumáres, vão buscallas dentro do Castello desta mesma Villa, onde tambem são muntas. Alem dos pumares, se seguem os arvorendos de azinheiros, sovereiros em grande abundancia, cu// /p. 474/ Cujos frutos servem assim para os montados do povo, como de fóra, porque de tres mátos, que tem o Concelho desta Villa; em cada anno fás o fruto de hum comum a todo povo, e vende em praça o fruto de dois, que lhe serve para solução dos seus gastos e aumento de sua rendas. Hé tambem huma parte dos arvoredos desta Villa, ou terra, breve numero de olivaes porque estes são em menos quantidade respectivé aos mais, e por isso não tem mais que dois laporas de azeite esta terra pois bastão dois para lhe moerem em dois mezes toda a sua azeitona. Sómente de fruta de espinho se não pode fazer, nem fás produção nesta terra, por ser o seu clima, sobre fresco, grandemente frio, e todo lavado do Norte, e munto fronteiro da Serra das Estrella, com quem este monte compete nas altúras, e lhe bebe os ventos, que sempre de lá lhe vem de neve. Tem tambem esta Villa seus termos, em cujas terras gastão os lavradores o seu tempo, e ocupão os seus bois devidindo os ditos termos em quatro sortes, e fazendo quatro folhas, que em cada anno vão socedendo humas as outras sendo a maior parte da sua produção o senteio; que tambem este fruto hé aqui copiozo; e o menos he o trigo; em razão de serem no seu termo poucos os barros e// /p. 475/ E vem hum delles que está distante desta Villa huma legoa para a parte do Norte no sitio chamado = Maria Viegas = se acha huma fonte que tem as vertudes do emxofar [sic] porque corre por mineral do mesmo, e cura todas as chagas e mataduras das bestas, sarnas, rabusens de caens, o que melhor dirá na sua informação, o Reverendo Padre Cura de Santo Antonio das Areias, no destricto de cuja freguezia a a mesma fonte está. O termo pois desta Villa da parte do Sul no fim de huma grande legoa parte com o da cidade sobredita de Portalegre, de quem dista duas legoas. E da mesma parte carregando para o Nascente no fim de boa legoa, e meia, parte com o termo da Villa de Alegrete, que dista desta Villa tres legoas e da parte do Nascente comfina o seu termo no fim de tres legoas com as Villas da Codeceira, e Maiorga do Reino de Castella; distantes ambas desta Villa quatro legoas; E da parte do Norte, depois de huma grande legoa, e em partes legoa e meia, parte o confina com o termo de Valença do dito Reyno de Castella, aqual Villa dista desta duas legoas; e da parte do Poente no fim de meia legoa, parte, e comfina com o termo da Villa de Castello de Vide deste Reino de Portugal, aqual Villa dista desta huma grande legoa; Voltando pois ao Comvento desta Villa, que ella tem extramuros da parte do Nascente, digo que o seu orago he a Senhora da Estrella, Immagem angelical, cujos principios, e progressos, forão e tem sido tão milagrozos// /p. 476/ Que os não pode aqui, nem ainda por numeros arismeticos contar e descrever esta pena; e só direi aquelle prodigio eu sendo muito presente se acha na mamoria dos prezentes; Nas primeiras guerras, ou nas mais antigos, de que ha memoria houve dois traidores á Coroa deste Rejno, dizem, os quaes ajustando com Castella, emtregarlhe esta Villa, puzerão por obra esta deligicencia da meia noute para a huma hora; e á tempo; que os castelhanos vinhão chegando ás muralhas se ouvio huma vós de mulher, que acordou e despertou geralmente a todos gritando ás armás, e no mesmo ponto amanheceo, e se puzerão em fogida os castelhanos deixando junto da Villa toda a sua bagajem; e foi a Senhora da Estrella a autora deste prodigio, de quem acentou todo o povo que fora aquella vós, que tanto o fes madrugar a elle e mais ao sol. Em tempo que Castella dominou a este Reino, dizem que os castilhanos, abismados dos muntos prodigios desta Santa Imagem, tentarão por varias vezes levalla para Castella escondidamente; mas ainda que ella, se deixava tomar dos Castelhanos, nunca quis passar para Castella porque levandoa fechada; ao passar do Rio Sever, onde devide Portugal de Castella, abrindo o cofre, nunca a podião achar, e se vião, dezião ellas, empanados da portuguezita. Asim a tratavão por este diminutivo por ser tão pe// /p. 477/ Pequena esta Immágem da Senhora da Estrella, que apenas tem de comprida pálmo e meio, mas sendo esta Immagem tão pequena, he o seu pezo de couza munto grande. O seu principio, dis a tradição que foi por este modo; vinha sobindo por este monte hum pastor com o seu gado a horas de meio dia; e ali na gruta que dá principio ao cabeço deste monte, lhe apareceo esta Sagrada Imágem, sobre aqual se devizara hũa formozisima lux á maneira de Estrella, de cuja a[d]miração attrahido o pastor, qual outro Mouzés a examinar as chamas da sarça chegou a ver as luzes daquella estrella; e asim como a Mouzés falou o Senhor das chamas, asim a este pastor falou a Senhora da Estrella, e lhe dice foce àquelle povo vezinho expor que era sua vontade que ali se lhe fizesse huma caza de louvor; veio o povo a este avizo, e vio no ár a estrella, e na grúta a Senhora, por cuja razão a tratou desde logo com o titullo de Senhora da Estrella. Asima digo que este monte está fronteiro e compete na altura com a Serra da Estrella; mas agora digo que na competencia lhe furtou o nome, e que pello que vou dizendo, o nome de Serra de Estrella hé hoje o nome proprio deste monte e que Marvão he a melhor Serra de Estrella porque he a sua Estrella munto melhor que a daquella Serra. Ali pois junto á mesma // /p. 478/ Gruta formou Marvão hum grandiozo templo, em que Deos he louvado por meio da Senhora da Estrella, e em que esta Estrella, como a dos magos, condús todos os dias o povo aos louvores, e adoracoens de Deos. Passou este templo a ser Comvento de Religiozos Claustráes; e depois de muntos annos a ser o que hé hoje, comvento de observantes da primeira ordem de Sam Francisco da Provincia de Xabregas; e hé este e tem sido hum dos seus melhores, e mais rendozos Comventos, asim como ainda hoje e o templo a maior, ou das maiores Igreijas da sua Provincia; E a razão he Porque de trinta annos já trás sempre a Senhora esteve metida na grúta com luzes, para se ver, por não antrarem alias luzes do dia, e no lugar onde antravão a vella, cabião só seis pesoas; e hera athe áquelle tempo a Senhora na gruta hum tão grande atractivo da gente, e hum tal Imman dos coraçoens, que havia descomposturas sobre quem havia de ver a Senhora e cada hum trabalhava por estar mais tempo a vella, e nenhum antrava na gruta que não sahia posuhido da devoção e cheio de lagrimas de compunção. Pello que de todos povos desta Provincia hera em todo o anno e todos os annos huma continuá da procição de romagem, sem nunca amtrar nenhum romeiro que já mais ficase satisfeito de todo de// /p. 479/ De ver quanto queria a Senhora, nem sahisse sem grande saudade do que vio, e por isto, e pello comtinuado dos milagres da Senhora herão tantas a[s] esmollas, e pezos de trigo, e de sera e mortalhas, que houve goardião que por todos os dias do anno o menos que recebeo forão des, e doze mil reis de esmollas, excepto as das missas. E pella mesma razão, mo esta Senhora hé o refúgio deste, e dos mais povos vezinhos e a ella se recorre em todas as aflicoens, muntos dos socorridos tem deixado na morte algumas fazendas a esta Senhora das quaes he admenistrador o Excelentissimo Senhor Ordinario do lugar deste tempo antiquisimo; e como estas fazendas tem seus emcargos de missas, o dito Senhor Ordinario manda satisfazer a esmolla dellas, aos Religiozos deste Comvento que os dizem, e o mais rendimento o gasta no adorno da Capella da mesma Senhora, e o reparte pellas nececidades do mesmo Comvento a titullo de esmolla; e por este modo gasta o dito Senhor o producto das ditas fazendas, de que he admenistrador. Porem há trinta annos a esta parte, depois que por ordem do Ordinario daquelle tempo, se tirou a Senhora da gruta, e a poder de polvora se quebrou o rochedo, em que se virão alguns prodigios, e se fes capella, onde as luzes do dia// /p. 480/ Do dia demóstrão a Senhora, menór haja a davoção e menos são já a[s] esmollas, porque tirado o povo de Castello de Vide donde em todos os dias e em todas as suas afliçoens são continuas as vezitase romarias, para esta Senhora. De todos os mais povos desta Provincia somente nos mezes de Setembro, e Outubro he em todos os annos a Romágem continua. Tem este Comvento duas Irmandádes, huma a da Senhora da Estrella e outra a da Ordem Terceira de meu Padre Sam Francisco; mas não consta que tenha padroeiro este Comvento, ainda que consta que da Capella da dita Senhora he padroeiro o Conde de Val dos Reiis onde o mesmo Conde de Val de Reiis tem seu jazigo. Em este Comvento a porta da Igreja, e a sua porta para o Poente, donde lhe fica esta Villa em distancia de sincoenta passos, pouco mais, ou menos, aqual Villa toda he murada, e os seus muros correm direitos da parte do Comvento athe o Castello em comprimento de quazi tres tiros de espingarda; e comtinuão com os muros do castello, que lhe fica para o Poente, asim os muros da parte do Sul; como os da parte do Norte. Tem esta Villa intramurós duas Igreijas Parrochiáes com suas freguezias, cujo destricto sahe fora dos muros ao campo; huma he a Igreija de Santiago, e outra a de Santa Maria, que he a Matris// /p. 481/ Ambas são Priorados, as quaes ambas tem fora dos muros os montes seguintes – galegos, pitaranha laginha, que comfinão com Castella; e os cazaes seguintes – Bardos Cardos com huma Ermida de Santo Antonio junto ao Rio de Sever; Torre; e Querença da mesma parte; e para a parte de Castello de Vide, tem os seguintes cazaes – Fonte de Carvalho, Maceira, Minhota, Abenaria, Etecetera, cujo curativo pertence a cada hum dos Priores por alternativa pernual; pertencem mais aos ditos dois Priorados tres Ermidas que esta Villa tem extra muros proximos ás suas muralhas, que são a Ermida de Sam Domingos, a Ermida de Sam Brás, e a do Calvario, e outra de Santo Andre que está destroida, cujas solemnidades fazem, ou celebrão os ditos dois Priores tambem por alternativa anual. Tem mais os dois Priorados nos campos desta Villa tres Igreijas Parrochiaes e filiaes suas, que são a freguezia do Rej Salvador para a parte do Sul; a freguezia de Sam Jolião carregando da mesma parte para o Nascente e a freguezia de Santo Antonio das Areias sita para Norte; e o que nestas freguezias há memoravel, se verá nas informacoens que derem os seus curas; Havia mais outra freguezia de campo, companheira destas, que hera a de Sam Sebastião do Monte dos Galegos, asima referido, aqual está decahida, ainda que o zello do Excelentissimo Senhor Bispo tem hoje constituhida na maior prefeicão a sua dita Igreja e dezeja justisimamente a nova erecção desta freguezia// /p. 482/ Freguezia por acudir ao bem esperitual de seus parrochiannos, que vem de hũa legoa a receber os sacramentos por anual alternativa a hua, e outra Igreija desta Villa, e Pertence a aprezentação destes curatos do campo por direito aos dois Priores de Santiago, e Santa Maria, e na falta destes curas, estão elles obrigados a hirem admenistrar os sacramentos; e os dizimos, destes curatos, e de todos os mais moradores do campo se repartem todos igualmente pellos dois Priorados; porem há quarenta annos sertos que o Senhor Ordinario está na posse da aprezentação dos ditos curatos; Do Priorado de Santiago dara inteira, e clara informação o Reverendo Prior da mesma Igreja, é do Priorado de Santa Maria Matris direi eu como Prior que sou da mesma Igreija. Hé pois esta Igreija Matris de Santa Maria a Igreja mais antiga desta Villa; denominávase a principio – a Igreija de Nossa Senhora, mas depois que adveio a este povo a Senhora da Estrella, como deixo dito, porque a sua Igreja se comesou a chamar Igreija de Nossa Senhora mudou esta a denominação, e comesou a chamarse – de Santa Maria. Era do padroado; e dizem se deu a hum Infante de Portugal com outra de Sam João da Villa de Castello de Vide para este como Grão// /p. 483/ Gram Prior deste Rejno as pensionar, como o pensionou por bulla apostolicas para o Comvento de Maltezas, que fes na Villa de Estremos, que hoje he o de Sam João da penitencia; e desde amtão ficou este beneficio incluido no numero dos da Religião de Maltha, e por isso se não fás merce a ninguem deste priorado sem a clauzula de que dentro em seis mezes será obrigado a tomar o habito, e professar no gráo de Frej Capellão de Obediencia, por ser o beneficio regullar. Hé pois hoje este beneficio da aprezentação do Serenisimo Senhor Infante Dom Pedro Gram Prior deste Rejno de Portugal; a renda deste beneficio, asim em dizimos, como passaes da Igreija chega huns annos por outros a quinhentos mil reis; mas a pensão emtra só nos dizimos, de que lévão as ditas Religiozas Malthezas de Sam João da penitencia da Villa de Estremos duas partes, e fica ao Prior huma com os pasáes todos da mesma Igreija. Hé esta Igreija de tres naves, e a do meio se sustenta em collunas de mármore, de diverssas cores; o paviméto do corpo da Igreija todo he de sobrado de madeiras formado de campas e caixilhos para sepulturas; o tecto do mesmo corpo da Igreja tambem he de madeiras; e só o da capella mor he de abobeda, e o seu pavimento delagiado cuberto de esteiras, quando não hé juncado, que tudo são reparos do frio; Tem dentro da capella mor dâs [sic] portas correspondentes cada hua de sua sanchrestia; a da parte do Nascente emtra para a sanchrestia da Irmandade do Santisimo// /p. 484/ Santisimo Sacramento desta Villa, que está aneza á esta Igreija; e a da parte do Poente emtra para a Sanchristia da mesma Igreja. O seu orago como ja dice he Santa Maria; aqual imagem hé de vulto e tem seu nicho, no altar mor da parte direita, e da esquerda lhe comrresponde o Senhor Sam Joze com o Seu Menino, e no meio asima do Sacrario está hũa Imagem do Menino Deos em grande propoção; e todas estas imagens são de vulto e vem a ser as de Jezú, Maria Jozé; adiante do Sacrario está hú Cristo Crucificado de marfim; e tudo o mais são pinturas dos misterios do Senhor em quadros; e tem a mesma Capella da parte do Nascente huma vidraça cristalina por onde o sol a emche de luzes. Tem esta Igreija mais dois altares colateraes fora da dita capella cada hú no fim de sua nave; O da parte direita he do Anjo Custodio deste Rejno; onde se achão tambem a Senhora da Graça, e Sam Sebastião, todas tres de vulto, e tem o Anjo Custodio sua Irmandade, ou Confraria. O altar da parte esquerda tambem corresponde á sua nave; he do Arcanjo Sam Miguel, que está em vulto; e tem este altar tambem sua Comfraria, ou Irmandade das Almas; Da parte do Poente tem esta Igreja huma capella de abobeda e azolejada, com seu altar, e tribuna onde se venera a Senhora do Rozario Imagem de vulto a maior, e mais especioza que ha em todo o Bispado, tem altura de nove palmos, bem propor// /p. 485/ Poporcionada com hum Menino na mao esquerda e hum Rozario na direita; he esta Imagem de munta devoção e se tem visto prodigios nas rogativas que se lhe tem feito; tem mais este altar da dita senhora duas Imagens colateraes, a saber huma de Sam João Baptista, e outra de Santa Barbara, e ao lado esquerdo desta capella fica a Sanchrestia desta capella com huma Imagem pequena da Senhora do Rozario; Tem tambem este altar sua Irmandade, e Comfraria de Crux, que he da Senhora do Rozario; e todas estas Irmandades com a que deixo dito da Senhora da Estrella no seu Comvento, são da erecção do Senhor Ordinario. Da mesma parte, mais a baixo fica o Baptisterio tambem de abobeda; e seguesse logo a porta principal para o Sul, de fronte da muralha; e da parte do Nascente, em frente da dita capella do Rózario tem esta Igreija a porta do Sol, ou travéssa por outro nome, que comresponde á Villa, e não he collegiada esta Igreija, mas tem coadjutor da sobredita aprezentação, e a sua renda são – 400.00 – aqual está sita em todo o simo da Villa, e immediata ao castello que se lhe segue da parte do Poente trinta e sinco passos distante m subida; e tem esta Igreija duas fabricas, huma de dentro que paga o Prior, e freiras maltezas de Estremos a quem está pensionada a mesma Igreija e outra de fora, que paga o povo, e Concelho, asim por ser esta a sua Igreija em que, fas as suas prociçoens// /p. 486/ Como tambem por se utilizarem hum e outro dos postos, e ervajens dos pasaes desta Igreija, e das arvores de bolota, que a mesma tem no sitio da Cova da Moura, de que falla o Reverendo Padre Cura do Salvador na sua informação, as quaes ervajens, pastos, e bolota vendem para augmento de suas rendas; e consiste esta fabrica em vinte mil reis; dés que paga o povo, e dés que paga o Concelho, para o que tem a mesma Igreija huma Provisão Regia do Senhor Rej Dom Jozé que Deos Guarde. No destricto desta freguesia intramuros está a Igreija do Devino Esperito Santo filial desta Matris; e na mesma se achão anexas as confrarias, e Irmandades seguintes, a saber a Irmandade das chagas de Cristo aqual tem duas Imagens especiozisimas asim na grandeza, como na proporção; huma he a do Senhor dos Passos, que he de Róca, de altura de nove palmos, com a crux ás costas; e outra he a do Eccehomo em vulto, que tem oito palmos; e ambas estas Imágens servem nas tardes da Quarésma, que o povo fás nas Domingas nesta mesma Igreija do Esperito Santo; e na Procição de Passos, serve só huma, que he a do Senhor com a Crús ás costas. Nesta mesma Igreija do Esperito Santo, está sita a Irmandade de Nossa Senhora do pé da crús; e asim esta, como a das chagas sobre// /p. 487/ Sobredita pertencem ao Senhor Ordinario, e são da sua erecção; e esta do pé da crus tem huma Imagem de Nossa Senhora, de Roca. Tem a dita Igreja do Esperito Santo tres altares, e saber, o maior, e dois colateraes; no maior está a Imagem do Padre Eterno em vulto, com a pomba do Esperito Santo, e tem esta Imagem seis palmos de altura; Da parte direita está a vezitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, tambem na mesma Igreija está sita esta Irmandade, a qual tem Sanchrestia, e da parte do Poente junto á mesma Igreija tem o hospital com sua Infermaria, o qual a mesma Mizericordia a menistra; a Irmandade tem secenta mil reis de renda sertos em soutos, foros, e outras fazendas, que lhe deixarão pesoas particulares por sua morte; E o Hospital não tinha mais renda que dois mil reis de hum foro; mas há hum anno que hum Conego de Miranda filho desta terra lhe deixou dinheiros, com que se lhe comprase fazenda, que hoje lhe rende já sesenta e sinco mil reis sabidos, e he ésta Irmandade da Mizericordia da proctesão Real e da erecção do Senhor Rej Dom Manoel que Deos em Santa Gloria haja. Da parte esquerda tem o dito altar mor a Imágem de Santo Estevão em vulto, que tem quatro palmos e meio, e pertence aos mossos do Esperito Santo// /p. 488/ E Juis dos Mancebos, que tambem tem sua Sanchrestia da parte do Nacente; no meio deste altar, abaixo do Esperito Santo está hum Christo Crucificado na grãdeza de hum prefeito varão Imagem que mete compaixão summa, e cauza muita devoção, e pertence a Irmandade sobredita das Chagas, que tambem tem sua sanchrestia na dita Igreja da parte do Poente. No altar colateral da parte direita estão as Imagens de Sam Gregorio pontifice de quatro palmos e meio, e a de Sam Francisco Xavier de tres palmos ambas em vulto; E no altar colateral da parte esquerda esta a Imagem de Sam João Baptista pertencente á Camara desta Villa, e tem tres palmos de altura esta Imagem, que tambê he de vulto. He a dita Igreija de abobeda e tem seu coro tambem do mesmo, e as ofertas, que se fazem ao Esperito Santo pertencem ao Prior da Matris de quem esta, como levo dito, he filial. Tem esta Villa tres dias de feira a saber dia da Ascenção de Cristo, dia de Sam Francisco ambas extra muros junto ao Comvento, e na quinta Dominga da Quaresma intra muros na Praça da mesma; e nenhua destas feiras he franca; As pesoas, que sahirão desta Villa no prezente secullo, as quaes por suas obras se fizerão destintas,// /p. 489/ E que ao prezente ha dellas memoria, são – Leonél de Parada, que foi generál em França - o Padre João Gração da Companhia de Jesus Cancelario na Universidade de Evora insigne mathematico - a veneravel madre Isabel do Menino Jesus Abadesço do Convento de Santa Clara de Portalegre cuja vida anda inpressa publicando as suas muitas vertudes. As terras, que claramente se descobrem e avistão desta Villa para a parte de Castella, para o Nascente, só Albuquérque, que dista sete legoas; Sam Vicente que dista 4; Valenca que dista 2; E carregando para o Norte se ve no mesmo Rejno de Castella Bróces, que dista nove, a cidade de Placencia, que dista 14 legoas, e carregando mais ao Norte; se ve Ferreira que dista 5 legoas; Santiago sinco legoas, as quaes Villas todas são do Priorado de Alcantara do Reino de Castella. Pella mesma parte do Norte se deviza desta Villa Montalvão, aqual Villa dista desta sinco legoas e pasando o bejo para a Beira, se vé Castello Branco que dista desta Villa dés legoas, a Villa da Soalheira, que dista quinze, Alpedrinha, que dista dezaseis, Momsanto que dista dezasete, a Lardoza, que dista treze; e todas estas Villas são deste Rejno. Olhando desta Villa pello Poente se avistão as Villas seguintes – Castello de Vide que dista huma legoa// /p. 490/ Legoa grande Niza que dista quatro, Alpalhão que dista tres Arés que dista sinco, Gafete, que dista quatro; e carregando do Norte para o Sul se ve Gavião que dista 8. Abranthes, que dista 12, e carregando mais ao Sul se avista a cidade de Portalegre, ou suas Ermidas que dista duas legoas boas; Cabeço de Vide, que dista seis; Fronteira que dista sete; Souzel que dista nove; Estremos, que dista dés; Alter poderozo que dista seis; Cratto, que dista quatro, Benavilla, que dista nove; Avis, que dista dés; Hé esta Villa praça de armas, a mais inconquistavel de todo o Rejno; da parte do Sul hé inaccecivel [sic] de tal sorte que só aos pasaros, premite antrada, porque em todo o comprimento he continuo e continuado o despenhadeiro de vivas penhas em tanta altura, que as aves de mais elevados voos, delle se deixão ver pelas costas; donde, toda a pedra, que se deita tem munto salto que dar, e toda a pessoa que cahio, tem o seu remedio em morrer, mas sobre todo este despenhadeiro corre muro desde o principio da Villa athe findar no Castello, o qual muro serve mais, para não deixar cahir os de dentro, do que para inpedir a antrada aos de fora e por isso, em muitas partes he este muro baixo. Onde principia este muro da parte do Nascente// /p. 491/ Tem hum forte altisimo com a pontaria a Castella, e nelle huma pessa de artelharia, áqual nas ocazioens de suspeita costuma estar montada em seu carro a que se lhe guarda; Deste forte corre outro muro fortisimo, e altisimo com paseio, por sima para o Norte athe outro torrejão quadrádo, e de bastante largura; e daqui vai continuando o muro na largura de nove palmos, e altura de trinta pouco mais ou menos, para o Norte athe chegar á porta principal da mesma Villa, que fica para o Nascente de fronte do Comvento da Senhora da Estrella já dito; Tem esta emtrada a primeira porta em húa estacada, correndo para Poente, aqual está toda destroida. Logo volta outra porta para o Sul emtrando para hum forte grande onde está outra pessa de artelharia, como a que asima digo, com pontarias a Castella e esta antrada está boa, e ainda se fecha em todas as noutes; Logo se segue outra porta emtre dois torrejoens redondos, que fás antrada para Poente; e por fim tem outra porta no muro principal que se acha depois de quinze passos para o Sul, e fas entrada para o Poente; de fronte da qual está o corpo da// /p. 492/ E todas estas tres, portas ainda se fechão, por que estão boas. Desta porta pois, corre o muro e contra muro da grosura e altura dela, toda a face do Norte athe o castello; mas antes de chegar a elle tem esta Villa outra emtrada de duas portas, huma no contra muro, com seu forte e guarita, como os mais; e nelle outra péssa de artelharia como os mais com a apontaria a Castella; e outra porta no muro principal, com seu corpo da guarda de fronte; mas esta emtrada só tem uzo no tempo da pas e fica para o Norte. Daqui continua o muro sobindo para o Castello, o qual tambem tem estacada; e depois della que esta destroida se emtra no Castello com caras ao Poente, cuja porta se fecha todas as noutes e logo na entrada á parte do Sul fica hum rebolim com guarita, e pessa que está quebrada desde a guerr, que estourou tirando arebate e pella parte do Norte fica a emtrada para huma cisterna de abobeda a modo de Igreja toda arcada que hé a couza mais notavel desta Villa. Aqual he toda de cantaria, e se dis que a fizerão os Godos; tem de comprida secenta covados e de larga, quinze, e de altura doze; e no simo tres clarasboias para luzes, e sobre ella está hum jogo de bolla para divertimento de pesoas prin// /p. 493/ Principais desta Villa; logo voltando alguma couza para o Sul, emtre dois torrejoens, se acha outra emtrada tambem com suas portas; e ao lado direito se acha a emtrada que vai ao jogo da bolla sobre a cisterna, e depois inclinando ao Norte, se acha a porta principal do castello, a que se segue hum corpo da guarda da parte do Sul, que está maltratado; o qual castello tera de largo sincoenta passos, e de comprido noventa pouco mais, e todo está sobre penhas, e despenhadeiros; e dentro tem muitas ervas medecinaes, porque sem embargo da sua altura, dizem os vedores de agoas; que a poucos palmos por hum dos lados da cisterna dita, se acha huma telha de agoa, o que ametáde discorre por baixo do Castello para o campo, e outra ametáde por baixo da Villa que se fes escrever nos livros da Camara; cuja humidade e frescura dá lugar á produção das ditas ervas; e de dentro do Castello vai hua porta falça para a dita cisterna, para se tirar agoa sem se preceber. Mais tem este castello hua grande Torre quadrada que fás vegias á cisterna, e a toda a Villa, e no fim do mesmo para o Poente; tem outra estacáda com sua porta que entra para o Norte; e loga seis passos tem emtre duas torres outra porta principal no muro, que entra para o Poente; onde está huma grandisima torre para a parte do Sul, que serve de armazem da polvora, e murrão, logo pella mesma parte se sé// /p. 494/ Seguem os armazens, das armas, ballas, picaretas e mais petreichos de guerra, tudo com seu pateo que terá trinta e sinco pasos de comprimento e vinte de largo, e tudo muito bem fechado, e por fim de tudo arremata, e finaliza tudo com hũa grandisima torre quadrada da parte do Poente, aqual padeceo suas roinas no terremoto de 1755; e o seu lado direito da parte do Sul tem huma portinha falça que sahe para o campo para recolher socorro, por onde ninguem a pode discorrer. As chaves destes armazens tem o almoxarife e as do castello, e Villa, tem o Governador desta práça, ou prezidio, que ao prezente he Jozé Godinho de Carvalho com patente de Sarjento Mór filho de Estremos donde vem destacada em todos os mezes huma companhia para guardar, e vigiar esta praça e em todos os dias, estes soldados metem guarda, nas portas da Villa, castello, e do Governador. Alem destes soldados, que vem, e se vão em cada mes, tem esta praça dentro os moradores da freguezia de Santiago, os que dirá o Reverendo Prior da dita Igreja, e os moradores desta freguesia que são os seguintes – fogos – 105, e nelles emtre maiores e menores – 380 – pessoas// /p. 495/ E no campo tem nove fogos, e nelles emtre maiores e menores 47 pessoas. O correio de que se serve esta Villa, he o de Portalegre, que lhe dista duas legoas, onde manda lançar as cartas na quarta feira, e tirallas no Sabado por hũ estafeta, aquem se fás partido das rendas do povo. Não tem esta Villa fonte dentro nem outra agoa mais que a da cisterna sobredita, e a fonte concelhia de que se serve fica extra muros hum tiro de balla de espingarda fora das muralhas da parte do Norte. Pode porem ter posso de agoa nativa abaixo da praça publica em hum sitio chamado o Terreiro que está intra muros, porque há quarenta e sinco ou seis annos que em tempo de seca, hum vedor ali descobrio em altura de dois homens meio anel de agoa, de que beberão muntos dos que estão vivos, mas como visem que era pouca agoa para fazerem fonte, tornarão a emtulhar, e cobrir a dita agoa, porem como os Juizes de Fora são os que aqui dão alma aos negocios de muntos e elles não tem interesce, porque acabado o lugar, se retirão, por isso nunca se fará tal obra sem se fazer avizo a algum Menistro, para que se faça das sobras da produção das ervajens do povo, que são muitas. Pode mais ter fonte no fosso da murálha pella banda de fora da parte do Convento onde hum vedor de// /p. 496/ De Braga descobre tres aneis de agoa, e se obriga, dandoselhe duzentos mil reis, que o povo das suas ervajens pode dar sem prejuizo de terceiro nem seu; mas isto sem vontade de Menistro não pode efectuarse. Sendo serto que esta praça ou prezidio não pode ter contra si em tempo bélico mais que a falta de agoa, porque a da cisterna he chovediça, e esta em annos secos, pode faltar, e esta falta pode ter remedio no poço, ou fonte que digo cujos apontamentos se tombarão no livro da Camara haverá sinco annos estando prezente o vedor, que em todo o termo desta Villa descobrio varias fontes. Tem mais contra si esta praça ou prezidio a retirada que seus moradores vão fazendo della para os seus campos, como se verá nas informaçoens dos Reverendos Curas do seu campo, em que os moradores excedem grandemente na quantidade aos moradores da Villa e esta fojida he por estarem na sua liberdade, e não estarem fechados de noute, de que nasce que dentro dos muros toda a caza que hũa ves cazas vinculadas, de sorte que se achão ja cahidas quarenta e seis moradas de cazas antes mais do que menos. Tem mais contra si o ter grande parte dos seus muros, estacadas, corpos da guarda, guaritas e torres, aruinada, e nececitão tudo de huma grande reforma; do que o Governador tem// /p. 497/ O Governador tem grande sentimento, porque tendo dádo varias contas ainda não foi ouvido. E a tudo parece se deve dar providencia, por ser esta praça fronteira de Castella e a ella tão proxima se Sua Magestade a fizer couto intra muros, como já foi muntos annos, logo crecerão os seu[s] habitadores; e se lhe mandar huma companhia de reformados, ou de pé de castello logo crecerão mais os moradores desta praça; e se ao Menistro que for nella Juis de Fora fizer demonstração de que na mesma dezeja fonte, ou poço; logo esta praça tem agoa, e por fim me parece se deve mandar ao Governador que declare o estado, e ruina, em que se acha esta praça; pois creio que faltandose a isto, e que havendo descuido, em muito poucos annos perderá Sua Magestade esta praça; e este he o comum sentir de todos. Seguiase descrever o rio, as ribeiras, as serras com sua produção mas deixo esta deligencia aos Reverendos curas do campo desta Vila, em cujas freguesias se achão estas couzas, e sei que de tudo dão mais clara e destinta informação, porque receberão cada hũ sua carta interrogatoria; só advirto que da parte do Sul em todo o tempo de sobre os muros se estão vendo, e ouvindo cantar as perdizes cotidianamente e que esta he tambem hũa grande produção deste monte. Marvão de Maio 2 de [1]758 O Prior Frei Miguel Viegas Bravo [assinatura autógrafa]
Transcrição: Ofélia Sequeira Santa Margarida, 1758, Maio, 3 Memória Paroquial da freguesia de Santa Margarida, comarca de Avis [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 22, nº 54, pp. 353 a 362]
/p. 353/ Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Por ordem de Vossa Excelencia Reverendisima, me foj emtregue hum papel de letra empreça, com varios emterrogatorios para responder a elles; o que se procura saber; e satisfazendo aos perceitos de Vossa Excelencia Reverendisima, e ordens de Sua Magestade que Deus Guarde, vendo os interrogatorios, cada hum de por si; respondo aos mesmos; com a clareza que pude indagar, e toda a verdade sobre o que nesta freguezia há. Resposta ao primeiro – Não tenho Vila, e so tenho freguezia, Arcebispado, Cameras, termos; Resposta ao segundo – Esta freguezia hé de campo, fica na Provincia de Alentejo Arcebispado de Evora pertençe a Camara da Vila de Avis, a major parte desta freguezia e a quarta parte dela pertençe a Camara da Vila das Galveas, por ficar no seu termo; a Vila de Avis, hé de Sua Magestade que Deos Guarde; e a das Galveas, hé de donatario que o hé dela o Ilustrissimo Cardeal.// /p. 354/ Ao terçeiro – Tem esta freguezia ojtenta e sinco vezinhos e pessoas trezentas e sincoenta e sinco. Ao 4º – Está esta freguezia, situada em huma campina pequena; a povoaçaô que dela, se descobre, hé a Vila das Galveas, que dista dela huma legoa. Ao 5º – Não tem termo seu esta freguezia, e só tem huma aldeja; que se chama Aldeja Velha; que consta de nove vezinhos que já está emcluidos no numero asima. Ao 6º – Está esta Parochia, no campo junta com Aldeja Velha asima declarada; não há mais lugar algum dentro dela nem aldeja; Ao 7º – O orago desta freguezia hé Santa Margarida, tem sinco altares mor, e dois coletrais e a parte direjta, hindo para a cappela mor, Nossa Senhora do Rozario; e a parte esquerda Santo Antonio, e por baixo deste, no pe direjto da Igreja, o altar das almas, e outro altar esta cem ornato algum, por que era das almas; mas como este se mudou para a outra parte; ficou ainda cem se demolir, em cujo pentendo [sic] por Nossa Senhora dos Prazeres, e Santa Luzia, que estão no mejo do altar mor; cem terem nicho onde estejaô; para o que, pertendo; pedir algumas esmolas para compor o altar, de toalhas, castisaes, e cortinaz que hé o que lhe falta, não tem esta Igreja nave alguma; nem irmandades; e só tem Santa Margarida, Jois, escrivaô, e Thezourejro, e Nossa Senhora do Rozario, e Santo Antonio, da mesma sorte;// /p. 355/ Ao 8º – O Parocho hé cappelaô; por ser a Igreja cappela curada: aprezentaçaô hé de Sua Magestade que Deos Guarde; e hé de oppoziçaô na Meza da Consiençia, por ser da Ordem de Saô Bento de Avis de que Sua Magestade hé perpetuo admenistrador e governador; tem o Parocho de ordenado, ou de renda, dois mojos de trigo; mojo e mejo de sevada; para a besta, pagos pela Comenda que desfruta o real Comvento de Avis, e quinze mil reis em dinhejro, pagos pelo almoxarifado da Vila de Benavente. Ao 9º – Não tem beneficiado algum. Ao 10º – Não tem comventos de religiozos, nem religiozas. Ao 11º – Não tem hospital. Ao 12º – Não tem caza de mizericordia. Ao 13º – Tem a Hermida de Nossa Senhora da Rabaça, que está no campo, tem esta altar mor, e dois colletrais, a parte direjta, Santo Antonio, e a parte esquerda Saô Bento; hé toda de aboboda; e tem tres naves, e tres colunas, de cada parte tem pulpito, a segunda coluna, da parte esquerda; e outro no alpendere, da parte exterior da Igreja, esta Ermida, desfruta o Prior de Avis por costume; tem duas moradas de cazas de que cobra a renda delaz, e juntamente as offertas de trigo, mortalhas, o dinhejro, e frangos, e outras couzas mais que os devotos oferessem, tanto a Senhora como aos mais Santos// /p. 356/ Tem mais duas moradas de cazas, huma morada hé para o Jois da Frota, se aprezentar nos dias delas, como logo se dirá, e a outra morada hé, do ermitaô de Nossa Senhora e todas estaô pegadas a Igreja da Senhora. Esta Igreja, se fez de esmolas, que derão os devotos; Ao 14º – Na primejra cesta fejra do mes de Março de cada hum anno, se fas hum sermão por costume antigo, e os mais dos annos. Se lhe canta a miça. Este hé obrigado o Jois, desta freguezia e neste dia, comcorre munta quantidade de gente. A çinco de Agosto, de cada hum anno se fazem nesta Igreja, da Senhora da Rabassa, tres festas com sermão, missa, cantada, e vesporas de tarde. A primejra festa, hé no dia sinco, com vesporas no dia quatro: e hé do Jois desta freguezia e no dia sinco de tarde, as vesporas eraô do Jois, da Vila de Monteargil, hoje porem naô vem ja o Jois, e mais devotos deste povo fazer a festa a Nossa Senhora, por duvidas que tiveraô com o Prior que desfruta estes lucros e lhe fazem a festa, na dita Vila de Avis, hé no dia sete e nestas tres partes: há Jois, iscrivão thezorejro e nestes tres dias comcorria munta quantidade, de gente de todas estas terras vezinhas, e se abarracavaõ em barracas, e de baxo de humas, sobrejras, que estão no sitio da Igreja, e se festejava a Senhora, alem das festas de Igreja: com comedias, e touros; hoje porem, acode munto pouca gente nestes dias; e// /p. 357/ E se vaj, perdendo a devoção, ainda que pelo anno adiante; sempre comcorrem alguns devotos. Ao 15º – Os frutos, que os moradores desta freguezia, recolhem, em major abundançia são trigo, centejo, milho e os montados. Ao 16º – Não há Jois Ordinario, nem Camara e só o há da Ventena, está esta freguezia sobgejta [sic] ao Governo de Avis; por ser termo dela e huma pequena parte a Vila das Galveas, por ficar, no seu termo. Ao 17º – Não há couto, cabessa de Conselho, honra ou behetria. Ao 18º – Não há memoria que desta freguezia sahisem, nem foleressessem [sic], homes alguns, nem por letraz, nem por armas, nem vertudes. Ao 19º – Não tem fejra, em dia algum dia anno nem franca, nem cativa. Ao 20º - Não tem correjo, e servesse do correjo de Avis cada hum amanda buscar as suas cartas pelo seu criado, ou pessoa que para la vá o correjo chega a Vila de Avis, a quinta fejra de tarde de todas as semanas e parte ha cesta fejra ao mejo dia. Dista esta Vila, desta freguezia duas legoas. Ao 22º - Dista esta freguezia da cidade Capital do Arcebispado que hé Evora, onze legoas, e da de Lisboa capital reino vinte e tres.// /p. 358/ Ao 22º - Não consta que tenha previlegios alguns, antiguidades, ou outras couzas, dignas de memoria. Ao 23º - Não ha nesta freguezia ou perto dela alguma fonte ou lagoa, selebre, e so na Vila das Galveas, que dista huma legoa há a fonte do Povo, que dizem por espriencias, hé boa para os obestruidos, e que naoconssente obestujiaõ o mesmo me emforma, o lavrador da Erdade de Val de Figuejra, desta freguezia, que tem a mesma vertude por exprienssias, que ja tem fejto em algumas pessoas e que ou os poem sanos, ou os deruba de todo. Ao 24º - Não hé porto do mar, nem o há, nestas terras vezinhas. Ao 25º - Nao há nesta freguezia, couza murada, nem torre alguma, nem castelo. Ao 26º - Naô padesseo nesta freguezia, couza alguma ruina no terramoto, de mil setecentos e sincoenta e sinco. Ao 27º - Naô há couza digna e memoria de que se possa dar conta. O que se procura saber dessa Serra hé o seguinte. Ao 1º - Naô há nesta freguezia, Serra alguma, nem o mais que se procura saber sobre esta materia, e por iso nao respondo ao segundo, e terçeiro, interrogatorio. Ao 4º - Naô há rio algum; que nassa da Serra. Ao 5º - Não há vilas, que estejão na Serra, nem ao longo dela. Ao 6º - Naô há fontes, de propriedades algumas, mais do que se dis asima no interrogatorio vinte e tres.// /p. 359/ Ao 7º - Naô há minas de metaes ou cantarias, de pedras, nem de outros matriaes de astimação. Ao 8º - Naô ha plantas, nem ervas medessinaes. Ao 9º - Naô ha mostejros, nem Igrejas, de romagem nem Imagens milagrozas. Ao dessimo e dessimo, e undessimo, e dessimo segundo, e dessimo tercejro, não tenho nem ha couza de que se possa dizer. Ao 1º - Naô há rio, e so ribejra esta se chama das Galveas nasçe no sitio da Estalage, do Cantarinho termo da Vila, das Galveas. Ao 2º - Nasçe munto pouco caudeloza, e corre todo o anno em partes mas com pouca forteleza. Ao 3º - Nesta Ribejra, emtra outra ribejra mais pequena, que corre todo o anno, e mais viva das agoaz esta nasçe junto da Erdade da Val de Figuejra e entra na outra junto da Erdade dos Moneroz logo por sima da Senhora da Rabassa, e se chama a da Sagolga e aonde nasçe, e entra , he tudo desta freguezia e termo da Vila de Avis. Ao 4º - Naô he navegavel, nem capas, de embarcaçaô alguma. Ao 5º - Em toda ela hé de curso sossegado e quieto. Ao 6º - Corre do Nascente para o Poente. Ao 7º - Os peixes que cria, saô bordalos, pardelhas, couza de munto pouca comssideraçaô. Ao 8º - Não há pescarias algumas em todo o anno, maiz que pesca de cana, por devertimento e naô ser de canasde outro genero de pescariaz.// /p. 360/ Ao 9º - Estas pescarias saô livres, e naô sej que haja Senhor algum delas. Ao 10º - Estas suas margens se cultivão em algumas partes de Verão por milho meudo, grosso e feijaô fradinho e naô tem arvoredo algum. Ao 11º - Naô há notissia, que as suas agoas, tenhô vertude alguma. Ao 12º - Sempre comsserva o mesmo nome, asim no prinsipio, como no fim, e não há memoria de que em outro tempo tivesse outro nome. Ao 13º - Emtra em Sor junto da Erdade da Sagolga, freguezia de Monteargil, Arsserdagado [sic] de Santarem, Patriarchado de Lisboa. Ao 14º - Tem pouco desta freguezia que será quazi meja legoa, huma penha de huma e outra parte, que ainda que fosse capas de embarcassoens naô podiaô navegar, dela para sima, por cahir a agoa mais de vinte, ou trinta, palmos para baxo. Ao 15º - Naô tem ponte alguma em toda a sua distançia, nem de pedra de cantaria, nem de madejra. Ao 16º - Tem dois moinhos que estaô, quazi demolidoz e há muntos annos, que senaô uza delez e naô tem lagares de de azejte nem pizons, noraz nem outro algum emgenho. Ao 17º - Naô há notissia que em tempo algum, se tenha tirado ouro, de suas arejas e só na ribejra da Sagolga que emtra nela se tira munta quantidade de area preta dela se preve munta gente desta provinssia. Ao 18º - Todos os moradores nesta freguezia, sempre// /p. 361/ Sempre uzaraô das agoaz livremente, e sem penssaô alguma. Ao 19º - Esta ribejra tem tres, para quatro legoaz, desde o seu nassimento, athe ao seu fim, onde se mete no rjo de ser, onde acaba. Ao 20º - Naô há couza notavel de que se possa fazer mençaô digna de memoria. Santa Margarida 3 de Majo de 1758. De Vossa Excelencia Reverendissima O mais obediente e menor sudito Frei Manuel Gonçalves Curado [assinatura autógrafa]
Transcrição: Ofélia Sequeira Santa Luzia, 1758 Memória Paroquial da freguesia de Santa Luzia, comarca de Campo de Ourique [ANTT,Memórias Paroquiais, vol. 21, nº 166, pp. 1393 a 1396]
(Margem justa)
/p. 1393/ Relassam desta freguesia de Santa Luzia termo da Vila de Gravam Fica esta freguezia sitta na provincia do Alentejo he do Bispado de Evora e Comarca do Campo de Ourique termo da Vila de Gravam freguezia chamada da Senhora Santa Luzia e he do Fidellissimo Rej o Senho Dom Joze o Primeiro comtem em si toda a freguezia sento e quarenta e ojto vezinhos e quatrosentos e seteenta e nove pessoas. Esta situada em hum corguo [sic] emtre dois montes que o da parte do Norte se chama Serro do Dominguo o da outra parte que he do Peguo da orta dos guizados de dentro da terra não se descobre povoasam alguma nas dos seus [arre]dores junto a mesma se descobre a Igreja Matris da Villa de Messejana dista duas leguoas e a Villa de Panojas [sic] que dista huma leguoa e a Igreja Matris da Villa de Cazival que dista tres leguoas e a hermida do Anjo Sam Miguel que dista que dista tres leguoas e muj [a] e parte da Villa de Ourique que dista tres leguoas não tem termo seu he do termo da Villa de Gravam não tem luguares nem aldejas fora da que fica junto a Igreja chamada de Santa Luzia como asima ja dise aqual consta de setenta e ojto vezinhos como atras fica dito mas tem montes que sam Alaguoa que tem hum vezinho Val de Sexo que tem outro vezinho a Quinta outro vezinho Monte Velho dois vezinhos Azinhal hum vizinho Val de Alconde outro vezinho Corte Branca dois vezinhos Val de Nuvrejra dois vezinhos Monte da Abelha dois vezinhos Monte da Abelhinha hum vezinho a Ribejra de Baxo tres vezinhos o Montinho dois vezinhos o Monte da Ribejra dos Pimentos tres vezinhos o Monte Reijno hum vezinho o Monte do Malinhodois vezinhos Quinta da Zorra hum vezinho Monte dos Carrlhos [Carrilhos] hum vezinho Ventoza de Baxo dois vezinhos Ventoza do Alto hum vezinho Cazas Novas hum vezinho a Lage de Baxo tres vezinhos Lage de Sima dois vezinhos, o Monte do Mujnho do Vento qu[a]tro vezinhos o Monte dos Malvejros hum vezinho, o Monte da Parrejra hum vezinho o Filhejro dois vezinhos Marxica dois vezinhos o Monte da Porta tres vezinhos Monte da Amorejra hum vezinho, Monte da Aberta dois vezinhos Monte da Serra dois vezinhos os Bastos dois vezinhos o Monte da Molejrinha hum vizinho o Monte da Atafona hum vezinho, Val de Sebolas outro vezinhoo hora desta freguezia he a Senha [Senhora] Santa Luzia esta Igreja demolisse com o terramoto [borrão] e tinha so dois altares hum da Senhora Santa Luzia e outro da Senhora do Rozario e aguora como cahio estam as paredes fejtas e coberta de valladio e amadejrada [sic] de canbutiado tem quatro altares collatrais o altar major mas tudo por guaornesser [sic] por estar a freguezia mujto pobre e o dinhejro das comfrarias quazi acabado e so resta algum// /p. 1394/ Algum que esta deficultozo de cobrar que ainda que se cobre não chegua a atinjir parte da guarnissam tinha tres naves mas aguora não tem naves ficou na mesma conta do comprimento que eram sassenta palmos e acresentaranselhe seis de largura que eram vinte e quatro e tem trinta não tem Hirmandade alguma ainda que pellos livros antiguos acho que a Senhora do Rozario teve Hirmandade comfrimada pello Nosso fidelissimo Senhor Rej Dom Joze o Primeiro despois de examinado no Tribunal da Menza com Consiencia por conçulta e pertensseao mestrado por ser da Ordem de Sam Thiaguo rende dois mojos e quarenta alquejres de triguo e mojo e mejo de sevada não tem beneficiados não tem Comvento algum tambem não tem ospital ne Caza de Mizericordia nam tem hermidas e so o oraguo desta Igrej [a] da Senhora Santa Luzia acodem romagens no Veram e tambem nos tenpos do Inverno mas sam poucos ou muito menos que no Veram á mais abundancia dos frutos desta terra he triguo nesta terra não ha Juis nem Ouviadores e Camara esta sugejta a Villa de Gravam que tem dois Jujzes Ordenarios e Camara e he fillial esta freguezia da de Gravam não sej que aja couto mas dizem que aqui ha terras do Conselho aonde se costuma emcojmar porcos em se axando nella mas não outro guado desta terra sahio hum Geronimo Rapozo que foj [sic] para a India com o posto de alferes que pellas sertidoins que vieram consta ter fejto a Vossa Magestade bastantes servissos nos estados da mesma India e tambem me consta que que neste mesmo termo houve hum capitam de Ausseulliares chamado Barthollomeu Fernandes Lobo que nas ultimas guerras fora bastantemente vallerozo no servisso do seu soberano o Senhor Rej Dom Joam o Quinto nesta freguezia nam ha fejra e so na Villa de Gravam ha huma que dura tres dias que sam a des a onze e a doze de Majo e he cativa nesta terra não ha correjo mas Dodemira [sic] que he Villa que fica daqui tres leguoas passa aqui esta fita todos os Sabados que vaj para Messejana que dista daqui duas leguoas daqui a sidade Capital do Bispado que he Evora sam quinze leguoas e daqui a sidade Capital do Rejno sam vinte e huma leguoas não tem prevellegios antiguos nam antigujdadesdignas de memoria não ha neste sercojto [sic] em que aja fonte nem laguoa nem aguoasque tenham espessiallidade não ha porto de mar não he terra murada nem prassa de armas não ha Castello ou torre antigua todas as cazas deste povo sua freguezia padeseram [sic] pello terremoto ruina asim nos tilhados como nas paredes porem a major ruina foj a da Igreja que ainda que não cahio de todo ficou incapas de se// /p. 1395/ Se lhe emtrar dentro porem se disse tem as paredes fejtascuberta de valledio [sic] e não sej que aja mais cojza digna de memoria esta freguezia não tem em si serra e so tem alguns montes pequenos e poucos nesta terra não ha Rio o que he nesta terra he o que tennho narrado O Prior Alexo Guerreiro Alvares [assinatura autógrafa]
Transcrição: Ofélia Sequeira Santa Justa, 1758, Maio, 25 Memória Paroquial da freguesia e Santa Justa, comarca de Estremoz [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 18, nº (J) 50, pp. 327 a 328]
/p. 327/ Santa Justa termo do Vimieiro Antonio Marques Caejro Parocho desta Freguezia de Santa Justa termo do Vimiejro satisfazendo a ordem do Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Dom Frei Miguel de Tavora Arçebispo de Evora meu Prelado fis aprezente relação na forma que me foi mandado, pellos interrogatorios da mesma. Interrogatorio 1º O que se procura saber dessa terra he o seguinte: em que Provinçia fica, a que Bispado pertençe freguezia Comarca, e termo? Respondo, que fica na Provinçia do Alentejo, Arcebispado de Evora, Comarca de Estremos, e freguezia da Senhora Santa Justa, e termo do Vimiejro. Interrogatorio 2º Se he del Rej, ou de Donatario, e quem o he ao prezente? Respondo que a freguezia, e Igreija esta no mejo de sinco Herdades que são da Comenda de Mendo Marques que as esta actualmente pessuindo o Excelentissimo Marquês de Pouvea, e as mais Herdades de que consta a freguezia humas são de Comonidades, e outras de Donos particulares. Interrogatorio 3º Quantos vezinhos tem, e o numero das pessoas? Respondo que tem oitenta, e dois vezinhos, e trezentas, e seçenta pessoas, pouco mais ou menos, emtre majores, e menores. Interrogatorio 4º Se esta cituada em cãpina, valle ou monte, e que povoaçois se descobrem della e quanto dista? Respondo que a Igreija esta çituada em hum valle, e senão descobrem povoaçois algumas do lugar em que a Igreija esta. Interrogatorio 5º Se tem termo seu, que lugares, ou Aldeias comprehende, como se chamão, e que vezinhos tem? Respondo, que deste interrogatorio não tenho que responder. Interrogatorio 6º Se a Parochia esta fora do lugar ou dentro della, e quantos lugares, ou Aldeias tem a freguezia todos pellos seos nomes? Que, digo, respondo que a Parochia esta emtre herdades, e não tem lugar, nem aldeia. Interrogatorio 7º Qual he o seu orago, quantos altares tem, e de que Santos, quantas naves tem, se tem Irmandades, quantas e de que Santos? Respondo que o orâgo he a Senhora Santa Justa Virgem e Martir, tem tres altares, o altar môr da Senhora Santa Justa, e junto ao altar môr da parte da Epistola o altar da Senhora de Esperanca e junto ao altar môr da parte do Evangelho o altar da Senhora do Rozario, e tem sinco imagens a Senhora Santa Justa a Senhora da Esperanca, a Senhora do Rozario, o Senhor Santo Antonio, outra Senhora do Rozario que se ve nas procicois [sic], e huma reliquia da Senhora Santa Justa, e he a Igreija de abobeda, e não tem nave alguma e tem so huma Irmandade que he o Rozario. Interrogatorio 8º Se o Parocho he cura, vigario, ou Rejtor ou Prior, ou Abade, e de que aprezentação hê, e que renda tem? Respondo que he capellão curado, e que tem de renda de proprio quatro mojos, e nove alqueires de pão, duas partes de trigo, e huma de sevada, e que he de aprezentação do Senhor, Arçebispo Metropolitano de Evora. Interrogatorio 9º Se tem benefissiados, quantos, e que remda tem, e quem os aprezenta? Respondo que deste interrogatorio nada. Interrogatorio 10º Se tem Comventos, e de que Religiozos, ou Religiozas, e quem são os seos Padroeiros? Respondo, que deste nada. Interrogatorio 11º Se tem hospital, quem o admenistra, e que remda tem? Respondo que deste interrogatorio nada. Interrogatorio 12º Se tem Caza de Mizericordia, e qual foi a sua origem, e que remda, e o que houver notavel, em qualquer destas couzas? Respondo, que deste interrogatorio não tem nada. Interrogatorio 13º Se tem algumas Ermidas, e de que Santos, e se estão dentro ou fora do lugar, e a quem pertençem? Respondo que nesta freguezia que nesta freguezia ha tres Ermidas, huma de São Sebastião do citio de Val de Pereiro, outra de Santa Luzia, e estas duas pertençem ao Senhor Arçebispo de Evora, e outra da Senhora Santa Anna que he dos Religiozos de São Francisco da Terçeira Ordem da penitançia e as ditas Ermidas estão em campo, e não em lugar algum; Interrogatorio 14º Se acodem a ellas romagens sempre, ou em alguns dias do anno, e quais são estes? Respondo que sendo nos seos dias proprios vãos os seos devotos vizitar os ditos Santos// /p. 328/ Interrogatorio 15º Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem em major abundançia? Respondo, que he trigo, sevada, e senteio, e frutos de mattos, de azinhos, e sobro. Interrogatorio 16º Se tem Juis Ordinario etecetera, ou se esta sojeito ao Governo das justiças de outra terra e qual he este? Respondo que como esta freguezia consta de herdades, e tem herdades no termo da cidade de Evora, e no termo de Arrajolos e no termo do Vimiejro ahonde esta a Igreija as do termo de Evora: estão sojeitas ao Juis de Fora, e Camera de Evora, e as que estão no termo de Arrajolos estão sojeitas ao Juis de Fora, e Camera de Arrajolos, e as do termo do Vimiejro estão sojeitas aos Juizes Ordinarios e Camera do Vimiejro. Interrogatorio 17º Se he couto, cabeça de Conçelho Honra, ou Behetria? Respondo, que deste interrogatorio nada. Interrogatorio 18º Se ha memoria, de que florecessem, ou della sahissem alguns homens insignes por vertudes, letras, ou armas? Respondo, que alguns Ecleziasticos tem sahido desta freguezia exemplares em vertudes, e letras. Interrogatorio 19º Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, se he franca ou captiva? Respondo, deste interrogatorio nada. Interrogatorio 20º Se ha correo, e em que dias da semana chega, e pârte, e se o não tem de que correo se serve, e quanto dista a terra ahonde chega elle? Respondo que como esta freguezia he de campo não tem correo e huns se servem do correo da cidade de Evora que dista dêsta freguezia tres legoas, e meja, e outros se servem do correo de Arrajolos, que dista desta freguezia legoa, e meja, pouco mais ou menos. Interrogatorio 21º Quanto dista da cidade Capital do Bispado, e quanto de Lisboa Capital do Rejno? Respondo que da cidade Capital do Bispado que he Evora, dista tres legoas, e meja, e de Lisboa Capital do Rejno dista vinte legoas. Interrogatorio 22º Se tem alguns previlegios, antiguidâdes, e outras couzas dignas de memoria? Respondo, deste nada. Interrogatorio 23º Se ha na terra, ou perto della alguma fonte ou lagoa, celebre, e se as suas agoas tem alguma espeçial qualidade? Respondo que junto a esta Igreija, esta huma asinha, e huma fonte que tudo da Igreija hé que tem espeçial virtude pera curar sârna por vertude da Senhora Santa Justa. Interrogatorio 24º Se for porto do mar descrevasse o sitio que tem por arte, ou por naturêza, as embarcaçois que o frequentão, e que pode admetir? Respondo deste nada. Interrogatorio 25º Se a terra for murada digasse a qualidade de seos muros: se for praça de armas, descrevasse a sua fortificação, se hâ nella, e seu destricto algum Castêllo, ou Torre antigua, e em que estado se acha ao prezente? Respondo, deste nada. Interrogatorio 26º Se padeceo alguma ruina com o Terramoto de 1755, e em que, e se esta ja reparada? Respondo que nesta freguezia não houve ruina notavel. Interrogatorio 27º E tudo mais que houver digno de memoria de que senão fassa menção no prezente interrogatorio respondo, que nada mais. E na segunda ordem de interrogatorios em que se procurava saber em treze interrogatorios da Serra, e suas propriedades, e mais circunstançias não tenho que responder por não haver nesta freguezia Serra a que se fassa memoria. E na terçeira ordem de interrogatorio em que se procurava saber em vinte interrogatorios do Rios e suas propriedades e mais circunstançias do[s] mesmos interrogatorios não tenho que responder por não haver nesta freguezia Rio de que se fasse memoria, ao referir a tudo he o que posso dizer sobre os interrogatorios supra de que fis esta relação na forma que se me ordenou: Santa Justa de Majo 25 de 1758. O Parocho Antonio Marques Caejro [assinatura autógrafa]
Transcrição: Ofélia Sequeira Santa Ana, 1758, Maio, 7 Memória Paroquial da freguesia de Santa Ana, comarca de Beja [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 4, nº 15, pp. 75 a 76]
/p. 75/ Pello Reverendo Padre Escrivão Eecleziastico Rodrigo Affonço Camacho me foy entregue hum para que a elles respondese. 1) Em quanto ao primeyro digo, que esta freguezia da Santa Anna do termo desta Villa de Serpa seu Parocho he freguezia do Campo, termo da mesma Villa, da qual Villa he Donatario o Serenissimo Senhor Infante Dom Pedro o qual apprezenta as justissas da ditta Villa. 2) Fica a tal freguezia no Alentejo, Comarca de Beja, e Arcebispado de Evora. 3) Tem trinta e nove vizinhos ou fogos; cento e setenta e sinco pessoas. 4) A sua situação he em campina não mui plana; as povoaçois que della se descobrem são a cidade de Beja, que dista quatro legoas, e o lugar de Baleyzão termo da ditta cidade de Beja, que dista duas legoas. 5) Esta freguezia he do termo de Serpa que se compoem de Erdades e hortas, que humas, e outras são de senhorios, que cobrão as suas rendas. 6) A Parochia está quazi no meyo da freguezia, e não tem nella Aldeya, ou lugar. 7) O seu Orago he Santa Anna: há na Igreja dois altares, o Altar mayor com o titulo de Santa Anna, e o Altar das Almas. 8) O Parocho he cura posto pello Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Arcebispo de Evora hé do Habito de São Pedro pago pellos freguezes com tres moyos de trigo, e quarenta alqueyres de sevada. 9) Não tem Beneficiados. 10) Não tem a tal freguezia Convento algum. 11) Não tem hospital. 12) Nem Caza da Mizericordia. 13) Ha nesta freguezia huma Eremida com o titulo de Santa Margarida, que pertense ao Parocho da mesma freguezia de Santa Anna. 14) He mui pouca a gente, que vay em Romaria á tal Eremida, ahinda no dia da Santa. 15) Os frutos que os fregueses ordinariamente recolhem são trigo, sevada, centeyo, vinho e algum azeyte. 16) Não tem Juis por ser freguezia de Campo, mas o Juis de Fora desta Villa de Serpa he que a governa. 17) Não he couto, cabeça de Concelho, e honra ou behenctria. 18) Não há memoria que della sahissem homens insegnes em virtudes, letras ou armas. 19) Não tem feyra mais que a desta Villa de Serpa, que he a vinte e quatro de Agosto tres dias franca. 20) Não tem mais correyo, que o desta Villa que sahe a quinta para Beja, que dista quatro legoas, e chega a sesta. 21) Dista da cidade Capital do Arcebispado, que he Evora doze legoas, e de Lisboa vinte e sinco. 22) Não ha na tal freguezia previlegios, ou antiguidades. 23) Não ha nella fonte, ou lagoa celebre, nem perto della. 24) Não hé porto de mar. /p. 76/ 25) He freguezia de Campo dividida em Erdades, ortas, e montes. 26) Não padeceo couza de cuidado com o terremoto do anno de 1755. Pello que se me procura da Serra, como na freguezia a não há nada digo, e tambem nada sey da Serra de Serpa. E pello que respeyta ao Rio, digo 1) O seu nome he Guadiana dizem nacer [sic] no Reyno da Mancha de Aragão em Castella. 2) He tradição nacer logo caudelozo. 3) Hé moralmente impossivel saberse que Rios entrão nelle. 4) Não hé navegavel, mais que com barcas em que se passa de huma banda para a outra quando não dáva. 5) O seu curço he arebatado, principalmente em Portugal. 6) Nesta freguezia que com ella confirma a tal freguezia corre a parte do Poente, mas corre de Norte para o Sul. 7) Criase peixes que se costumão crear em agoa doce, como são barbos, bordallos, bogas, e eyrozes, sebutelhas, e todos estes se crião em abundancia. 8) Não há nella mais pescaria que a de cana, e redes para os coriozos em todo o tempo. 9) As pescarias são livres; so há nesta freguezia e que chamão caneiros, que são de duas familias particulares digo, huma pescaria, ou caneiro que de pessoa particular. 10) Suas marges não se cultivão por serem fregozas só em algumas desta freguezia so fazem huns pequenos meloais. 11) Não consta de virtude particular de suas agoas, ahinda que alguns banhos se tomão nelles mas com pouco, ou nenhum effeyto. 12) Sempre tem concervado o seu nome de = Guadiana; della dizem, que em Castella corre sette legoas por bacho da terra, e nestemo [sic] de Serpa, digo, e neste termo de Serpa pella Serra corre tão apertado que a peça com salto hum homem de huma banda a outra, cuja estreyteza concerva algumas legoas. 13) Vay morrer no mar Occeano junto a Ayamonte Reyno da Castella, e Castro Marim Reyno de Portugal. 14) Nesta freguezia não he no tal Rio levada, mais que a dos asudes, que fazem moer os moinhos que nella há. 15) Não tem em Portugal ponte alguma. 16) Nesta freguezia, e Reyno tem moichos mas não de azeyte: tem pizoes mas não nesta freguezia. 17) Nunca em tempo algum, nem reprezente há memoria de se tirar, ouro ou prata de suas aréas. 18) Esta Villa não uza de suas agoas para cultura alguma por ser terra fragoza as suas marges. 19) Hé moralmente impossivel saberse as legoas de Guadiana, e as povoaçois por honde passa. He o que posso dizer, e responder aos interrogatorios que me forão apprezentados Serpa 7 de Mayo de 1758 O Parocho da Igreja de Santa Anna Bras Passos Neste Rio de Guadia[na] em esta freguezia entra nelle hum grande ribeyro chamado Enchoes que he freguezia he no tal ribeyro montados em o Rio Guadiana há dois moinhos pertencentes ao termo de Serpa. O Padre Bras Passos [assinatura autógrafa]
Transcrição: Ofélia Sequeira |
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