Nossa Senhora da Boa-Fé Évora
Nossa Senhora da Boa-Fé, 1758, Maio, 2.
Memória Paroquial da freguesia de Nossa Senhora da Boa-Fé, concelho de Évora.
ANTT- Memórias Paroquiais, vol. 7, nº 23, pp. 897 a 902.
Resposta ao interrogatório que toca a freguesia de
Nossa Senhora da Boa-Fé.
Está esta igreja situada em hum alto e rodeada por todas as partes de mattos de
estevas, murtas, carrascos e alecrins, e outros mais, em que fazem rossas para semearem
trigos, senteos, e sevadas, que he o mais que nesta freguesia se cultiva.
Hé termo, comarca e arcebispado de Évora.1 Hé apprezanda pello senhor arcebispo
de Évora; não he collada.
O paroco he cura e o que rende de proprio ao paroco por lotaçõens de arados lançados
as herdades, e fazendas: sam dois moios de trigo, e sevada, traçados, a rezão de seis
alqueires, cada arado; e os cazeiros renderão moio e meio de trigo, a alqueire meo cada
hum, que tudo junto, fará soma de tres moios e meio pouco mais ou menos.
Dista esta paroquia da cidade de Évora duas leguas e meia, fica a parte do poente.
Dista de Lisboa dezasette legoas e meia. Terá oitenta e quatro vezinhos e duzentas e
vinte pessoas maiores, e sincoenta menores, pouco mais ou menos; cujos os mais,
asistem no termo de Montemor por estar a igreja junta ao tal termo; e os menos estam
no termo de Évora, e pella parte do nascente a cerca Montemuro, de cujo poderão dar
relação o parocho da Tourega e de Sam Mathias, por terem dentro delle suas Irmidas. A
parte do Sul em distancia de meia legoa fica a paroquia// de S Brissos, e a parte do
Norte fica em distância outra meia legoa a paroquia de S. Sebastião da Giesteira: e a
1 Freguesia rural do concelho de Évora. Nos Censos de 1864 a 1900 figura como Boa Fé. Nos anos de
1911 e 1920 estava anexada à freguesia de Nossa Senhora da Graça do Divor. Pelo Decreto nº. 12 509, de
18/10/1926, foi desanexada daquela freguesia e passou a constituir freguesia autónoma, tendo anexa a
freguesia de S. Sebastião da Giesteira. Pelo Decreto-Lei nº. 27 424, de 31/12/1936, S. Sebastião da
Giesteira passou a fazer parte desta freguesia.
Situa-se a cerca de 18km de Évora e o seu acesso faz-se pela EN 114 (Évora-Montemor). Área: 3 480 ha.
População presente (Dados preliminares Censos/91): 393 Hab.
Segundo o Padre Francisco da Fonseca, o topónimo Boa Fé é uma corruptela do termo arábico que
significa (Palácio de Filé), príncipe mouro, senhor destes termos; porém, não conhecemos nenhum
documento que nos leve a aceitar esta afirmação.
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parte do poente quaze no centro desta freguesia em termo já de Montemor esta a quinta
chamada a Torre da Giesteira,2 em que esta huma Irmida de S.Francisquinho3 logo da
parte de fora, à qual imagem recorrem alguns devotos nas suas necessidades, nesta
Irmida esta colocada a Immagem da Senhora da Conceição, e a Imagem de S.
Francisquinho, S. Ignacio, S. Francisco Xavier, e Santo António tudo em hum altar, e
pellos aredores bastantes pomares de frutas, e algumas arvores de espinhos e olivaes
que se regão com agoas nativas. He administrador Ignacio Caetano de Mira. Há também
nestes circuitos varias ervas medicinaes, como sam muito alecrim, herva arcal, erva de
sette sangrias vulgo erva saragacinha, horsa fioninha, vulgo roza albardeira dos mattos,
e outras mais que se lhe não sabe a vertude.
Está sugeito o povo desta freguezia ao governo de Evora, os que estão no seo termo,
e os que estão no termo de Montemor ao governo de Montemor o novo, pondo nesta
freguezia juiz, e escrivão da vintena para executarem as ordens que os taes lhe
mandão. //
Por defronte desta Igreja passa huma ribeira que devide o termo de Evora com o de
Montemor o novo, a qual se compoem de huns ribeiros que vem do Norte da parte da
freguezia de S.Sebastião da Giesteira onde principião, e outros que manão nesta
freguezia e por isso aqui tem o nome da ribeira da Boa Fé, e vai continuando com suas
correntes para o Sul para a freguezia de S. Brissos; nesta ribeira há moinhos de pam,
e hum alagar de azeite que moe com agoa da mesma ribeira, junto ao qual esta huma
ponte para serventia do alagar, e do povo; de pedra de cantaria; e quasi todo o anno
corre, por ter agoas nativas.
O orago desta igreja he a Senhora da Boa Fé; está collocada em a capella mor em
huma tribuna em trono de tres vidraças; tem de altura quatro palmos de madeira
estufada, tem hum menino recostado em o braço direito da Senhora, que nasce da
2 Antigo paço rural, situado no cume de um monte, é composto por uma torre rectangular, com cerca de
15m de altura e 9,40m de largura; data dos princípios do século XVI; possui duas elegantes aberturas
geminadas (janela e portal) de influência mudejar, capitéis de mármore, de decoração coetânea,
manuelinos; no remate, cortina de ameias chanfradas assente num cordão contínuo, chaminé antiga e
pitoresco torreão cilindrico de chapéu cónico, para o norte, com escadaria helicoidal. - António Francisco
Barata, Évora e seus arredores, 1904, pp. 45-46 e Túlio Espanca, Património Artístico do Concelho de
Évora. Arrolamento das Freguesias Rurais, 1957, p. 119
3 Trata-se da Capela do solar da Torre da Giesteira, dedicada à Imaculada Conceição. Tem no exterior um
curioso portado de vergas de granito, datado de 1698 e no interior merece destaque o frontal do altar de
azulejos, provavelmente, da primeira metade do século XVIII. Ligado à capela e de vastas dimensões
,subsiste o edifício do Recolhimento de Nª. Srª. da Conceição, instituido em 1872 pela Condessa de
Sarmento, e que foi habitado pelos padres franciscanos de Varatojo até 10 de Marçºço de 1910, quando
foi decretada a sua extinção.- Túlio Espanca, Idem.
2
mesma madeira, tem este em a mão esquerda huma roman, e com a direita metendo
hum baginho na boca.4
Esta milagroza Imagem antigamente era invocada com o titulo de Nossa Senhora das
Nascenças, e muito milagroza, assim com o titulo da Boa Fé, com que hoje se venera,
como o das Nascenças, com que antigamente era venerado: o motivo, que hove em se
lhe mudar o titulo, foi porque reinando em Portugal Elrey D.Fernando, como asevera
hum reverendo prior que foi desta Igreja; ou no reinado de D.Chanxo, o 1º; como quer o
Sanctuario Mariano tomo 6.livro 1º. //titulo 96. pagina 335; houve em Portugall huma
grande peste acompanhada de extraordinaria esterilidade, recorrerão os moradores da
cidade de Evora a este Sanctuario naquele tempo ja o mais milagrozo e juntos todos
fizerão cantar Missa implorando com lacrimozas deprecacõens a protecção da Rainha
dos Anjos Senhora das Nascenças, ao mesmo tempo que implorarão todos a antifona da
Senhora que comesa recordare Virgo Mater; apareçeo vizivelmente hum Anjo com
huma espada emsanguentada em sangue que trazia nas mãos, a qual alimpando-a a
recolheo na bainha, ficando todos os que implorarão a protecção da Senhora
milagrozamente sãos: e agradecidos a este beneficio, que alcansarão por intercessão, e
merecimentos da May de Deos,diserão todos em altas vozes com alegria suma: esta he a
Senhora da Boa Fe; mudando-lhe assim o nome, que tinha das Nascenças; esta he a
origem do titulo com que a Senhora he venerada que refere Rezende das antiguidades de
Evora, e o Sanctuario Mariano ja citado.
E com este titulo da Boa Fé he igualmente milagroza com que de prezente se venera;
comcorrendoo a esta Igreja de todo este Arcebispado gados de toda a casta a benzer
quando os criadores os sentem molestos de males contagiozos e de qualquer queixa, e
ainda mordidos de caens marfados, e tanto que o paroco os benze em nome da Senhora
logo recuperão melhoras, e tanto, que confessão os ganadeiros que os trazem que assim
como avistam a caza da Senhora os sentem // mais alegres, e de melhor cabelo, e lhe
mandam dizer Missa e lhe oferecem sua cria e tem muito gosto de a trazerem no seo
rebanho; e quando os não podem trazer logo de romaria a Senhora; só invocando-a e
prometendo traze-lo a Sua Santa Caza, logo esperimentão melhoras e contão serem
innumeravens os miligres (sic) que experimentão, e deste producto que offerecem a
4 Segundo Túlio Espanca trata-se de uma "... preciosa escultura de Nª. Srª. da Boa Fé (Virgem com o
Menino), policromada e estofada e de encantadora doçura. Mede 1m de altura e é de execução anterior a
1550". Op. Cit. p.119.
3
Senhora se converte em obras, e gastos da mesma Senhora, e alguns lavradores se tem
feito foreiros em trazerem todos os annos seos gados de romaria a Senhora a benze-lo5
em quanto as creaturas homanas que se sentem com queixas implorando com fé o
patrocinio da Senhora, e levando alguma prenda da Senhora confessão, experimentarem
melhoras e de hum zambujeiro que esta em o adro chegão, alguns annos a despirem-no
quasi todo das folhas que levão para as trazerem por prenda para recuperarem saude; e
depois de estarem melhores as trazem embrulhadas em papelinhos e os deixam
pendurados em o zambujeiro.6
O que posso afimar he que huma viuva desta freguezia que tendo cazado huma filha
moreo de parto e ficando-lhe huma menina, e não tendo ordem para a por a criar,
valendo-se de algumas esmolas de leite que davão a menina de dia: de noite se deitava
com ella, custando-lhe muito acomoda-la chegava os peitos à menina implorando o
patrocinio da Senhora da Boa Fé ,em as necessidades que sentia passar a menina; //
ouvio-a a May de Deos: e logo começou a ter leite em abundancia, com que criou a
menina sendo viuva de alguns sincoenta annos, e havia quazi vinte annos que nam
paria; e ainda estam vivas assim avó, como a netta, que ja tem vinte annos.
Tem esta igreja huma nave, altar mor onde esta a Senhora da Boa Fé, e S. Pedro e
S.Sebastiam, S. Miguel e S. Joam Baptista.7
Tem dois altares colateraes fronteiros huns dos outros; hum he de N. Senhora do
Rozário, onde esta tambem huma Senhora pequenina do Rozario e a Imagem de S.Braz;
5 "Em todas as festividades descritas e que são dedicadas a Nossa Senhora e a diversos Santos [...]
encontramos duas características comuns: serem todas elas consagradas às entidades protectoras do
gado ,e ser este levado junto da igreja [...] no dia da festa em que se pagam as promessas feitas. [...] D.
Carolina Michaelis de Vasconcelos [disse que] as nossas romarias são hoje o que eram na Idade Média:
restos do paganismo que ficaram na ascética religião cristã. Esta circunstância leva-nos a pensar estarmos
perante uma sobrevivência de ritos pagãos, e como são festas todas elas dedicadas e de agradecimento a
entidades protectoras dos gados, somos levados a pensar que se trata da sobrevivência do culto em honra
da entidade pagã que protegia o gado, isto é, de Diana." Fernando Castelo-Branco, Sobrevivências de
cultos pagãos em Portugal, separata da Secção VII das Publicações do XXVI Congresso Luso-Espanhol
(Porto, 22-26 de Junho de 1962), Associação para o Progresso das Ciências, Porto, 1962, pp. 10-11.
"Com a propagação do cristianismo as entidades míticas da gentilidade desapareceram na máxima parte,
quanto aos nomes, não desapareceram de todo quanto às funções." J. Leite de Vasconcelos, Religiões da
Lusitânia, Lisboa, 1913, Vol. III, p. 594
6 "Na sacristia existe uma pintura popular sobre tábua, representando o milagre da "Aparição da Senhora
da Boa Fé sobre o zambujeiro."
7 A actual igreja remonta ao início do século XVI (e segundo Frei Agostinho de Saunta Maria, substituiu
uma anterior ermida medieval ali existente) e sofreu grandes modificações nos séculos XVII/XVIII.
Merece destaque o portal em estilo manuelino; a nave é revestida por interessantes painéis de azulejos
monocromáticos, representando cenas da vida mariana e dos quatro evangelhos, além de frisos e painéis
com pássaros e sanefas. Esta bonita igreja está classificada como imóvel de interesse público (IIP, Dec.
nº. 1/86, DG de 2/1/1986)
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e o outro tem huma Imagem do Senhor Crucificado da altura de sinco palmos onde está
tambem a Imagem de S. Antonio; e a Imagem de S. Bento e todas as Imagens sam de
madeira estofadas, e os retabolos emtalhados de novo: a Senhora da Boa Fé festeja-se a
oito de Septembro, no dia da Natividade, a Senhora do Rozario tem a sua Irmandade
quazi perdida, ha somente hum peditório das Almas; faz-se hum sermão com missa
rezada ao Santo Nome de Deos de devoção: outra festa devoção a Senhora do Rozario
que he dos mancebos, isto he o que posso relatar desta freguezia aos interrogatorios que
se me procurão, do que achei e tive noticia. Boa Fé 2 de Mayo de 1758.
O Paroco Sebastião da Silva Correa
Transcrição: Maria Ludovina Grilo
Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758
(I Parte). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 1ª Serie, nº 71 (1988), p. 187-
212.
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