1758 Maio 29 - S. Bento do Mato Memória Paroquial de S. Bento do Mato, Évora [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 23, nº 92, pp. 617 a 620]
Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Vossa Excelência me manda responder a huns interrogatórios, cujas respostas lhe fez a saber sua Magestade, que Deos guarde ser do seu real agrado o sabellas; e obedecendo ao preceito, guardando a ordem dos títulos e números, que nelles se contem, respondo ao primeiro que consta de vinte e sete números à margem, cujo título he: O que se procura saber dessa terra, he o seguinte:
1. Ao número primeiro respondo que esta freguesia de S. Bento do Matto(1) fica na Provincia d’ Alentejo, no Arcebyspado de Évora; a mayor parte della he termo da dita Evora cidade e a menor, em que está a igreja he termo de Evora Monte, de cuja matriz he filial segrada e parte que he termo de Evora cidade desta mesma he comarca, segundo a parte que he termo da villa de Evora Monte, he comarca de Villa Viçoza.
2. Ao segundo, que esta freguezia consta de herdades, cada huma de seu senhor, que a [tem de posse] por título de morgado, capella, herança, doação ou compra.
3. Ao terceiro que a dita freguezia tem cento e noventa e hum vizinhos; e pessoas de hum e outro sexo, nove centos e vinte e huma, a saber: menores de dez annos, duzentos quarenta e quatro, mencionados do termo infante de hum só dia athé à dita idade; e seis centos e settenta e sette, que excedem a referida idade de dez annos.
4. Ao quarto, que a igreja(2) da dita freguesia está situada na fralda de hum pequeno monte, e rodeada de outros de tal modo, que nada he visto senão quando perto della se chega, nem della se descobrem outros lugares.
5. Ao quinto, que não tem a freguezia termo, porque he inteiramente rural, antes ella he termo , como se diz numero 1.
6. Ao sesto, que tem duas aldeyas; huma se chama Venda das Brosserans(3) em que há estalagem, e consta de dezouto vizinhos; outra se nomeya Fóros d’ Arazucha(4), e consta de quarenta. // e outo vizinhos; de ambas está separada a Igreja que junto a si só tem quatro vizinhos, entrando neste número o Cura e o sacristão.
7. Ao séttimo que o Orago da igreja he o Patriarca S. Bento. He esta de huma só nave. Tem sette altares, três na frente ou cabeça, e dous por cada lado no corpo da igreja; no do meyo da frente, que hé o altar mor está a imagem do Orago, que he de madeira em vulto. Nos dous collaterais da mesma frente, no do lado do Evangelho está a Imagem de Nossa Senhora do Rozário, no do lado da Epístola a Imagem de Nossa Senhora da Encarnação; os dous que no corpo da Igreja estão do lado do Evangelho são hum de S. Braz, Bispo e Mártir, outro do Arcanjo S. Miguel; os do lado da Epístola são hum de Santo Amaro Abbade, outro de Santo Agostinho Bispo, e Doutor da Igreja. Há nella duas Confrarias, huma do Rozário outra das Almas.
8. Ao outavo, que tem hum só Cura ou Capellão curado, que tendo todas as obrigações de pároco, para o ser inteiramente só lhe falta o ser perpétuo; a este manda passar carta de Cura em cada hum anno o Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Arcebispo de Evora, a quem pertence prover de Cura a tal freguezia. A sua congrua, que não sahe dos dizimos, mas dos freguezes, a carta, e [obrigatória ...] as herdades he de duzentos e seis alqueires de trigo e para a cavalgadura cento e treze alqueires de cevada, a contigente [incerto]; porque se he dos vizinhos que podem em hum anno mais em outro menos: o sermão a que tem chegado he a cento e settenta alqueires de trigo. O pé de altar que tãobem he contigente dará hum anno por outro em trinta mil reis.
9. Ao nono, que não tem beneficiados.
10. 11. 12. Ao décimo, undécimo e duodécimo, que não há na freguezia convento algum, nem Hospital, nem Caza de Misericórdia.
13. 14. Ao décimo terceiro e décimo quarto que em hum sítio inculto e montuozo cercado de azinheiras, e sobreiras, cujos frutos são sustentação de animais [variados] separada e distante das referidas igreja e aldeias meio quarto de légoa pouco mais ou menos se descobriu no anno de 1754 huma imagem de Nossa Senhora do Monte do Carmo, pintada no pequeno nicho da parede interior de huma cazinha toscamente fabricada de pedra e barro por huns eremitas, que fazendo vida solitária nella habitaram athé o anno de 1754, em que de todo a dezampararão. Descobrio-a huma mulher que chegando a este sítio e cazinha, sem saber o que nella havia, assim que viu a Imagem da Senhora a venerou e lhe pedio remédio para huma enfermidade que padecia; e sentindosse melhor logo, e dahi a poucos dias inteiramente sã, publicou o sucesso, que divulgado concorrerão e concorrem ainda hoje varias pessoas não só dos lugares vizinhos, mas ainda dos distantes, huns pedindo remedio das suas deformidades e de seus animais, promettendo esmolas para a fabrica da sua ermida: outras offerecendoas em agradecimento das mercês, que confessão ter recebido; outras dando-as deliberadamente para o mesmo fim. // Deu-se parte de tudo isto ao Excelentissimo e Reverendissimo Senhor Arcebispo já nomeado, em cujo Arcebispado estava e está o dito sítio que logo deu providência para que se arrecadassem com segurança as esmolas e oblações que para a fabrica da Ermida se dessem e oferecessem. Teve disto [conhecimento] o senhor da herdade em que estava sita a dita cazinha que he morador na cidade de Elvas e se chama Martinho Lopes Lobo Saldanha, moço fidalgo da caza de sua Real Magestade e Capitão de Granadeiros [...] e Excelentissimo e Reverendissimo Senhor por sua petição, que ele queria doar a area necessária para se edificar a Ermida e [... prir] de sua fazenda aquillo a que não chegassem as esmolas e oblatas, pedindo que lhe desse faculdade [...] em seu nome receber e dispender o que para a dita edificação fosse dado e oferecido e prontamente [...] de o fazer Padroeyro da sobreditta Ermida. Tudo conseguiu de sua Excelência Reverendissima deixando para si e seus sucessores reservado chamar-lhe [...] e ficarlhe a ermida sujeita [...] confinar na dita herdade chamada Arazucha seis mil reis em cada hum anno para a fabrica da Ermida [...] mandou em seu despacho se fizessem as ditas obras. Com este despacho entrou o dito senhor da herdade a cuidar da Ermida, e se começarão e findarão as paredes e abóbada da mesma no anno de 1757, e de prezente se continuão na perfeição do [...] não cessando o concurso das esmolas e gentes, que publicão ter recebido da Senhora muitas [...] que testificão com as oblatas de cera, que são em grande número [...](5).
15. Ao decimo quinto, que os frutos que na freguezia se colhem em mayor abundancia são trigo, e cevada e centeyo menos, porque […] de todos os generos se semeam.
16. Ao decimo sesto que está sujeita no governo das justiças da cidade de Évora e da Villa de Evora Monte, segundo a parte que ao termo de cada hum pertence, porque nella não há juiz ordinário nem comarca.
17. Ao décimo settimo que não he couto, termo, cabeça de concelho, nem honra, nem behetria.
18. Ao decimo oitavo que se consta ter sahido dela insigne em letras e virtude o muito reverendissimo Padre Provincial […] da Companhia de Jesus, o Doutor João Henriques.
19.. 20., 21. Ao decimo nono, vigesimo e vigesimo primeiro que não tem feira alguma, nem correio, serve-se do da Cidade de Évora, capital do Arcebispado, de que dista de que dista trêz legoas e de Lisboa capital do Reino dista vinte e huma legoas dezouto por terra e três por mar.
22., 23. Ao vigesimo segundo e vigesimo terceiro, que não consta ter privilégios ou couzas dignas de memória. Não tem lagôa alguma, nem couza célebre nas agoas de suas fontes e poços.
24., 25. Ao vigesimo quarto, e vigesimo quinto, que não há nella mar, nem muros, nem praça de armas, nem torre, nem castello. 26. Ao vigesimo sexto, que no terremoto de 1755 não (hou) // houve ruina notavel, apenas se abrirão de novo algumas pequenas fendas, ou rachas nas paredes, ou se alargarão as antigas, o que facilmente se reparou. 27. Ao vigesimo séttimo, que não me consta haver nesta freguesia couza alguma mais digna de memória, fóra da referida.
Ao segundo intérrogatório, que contém treze números marginais, cujo título hé: O que se procura saber de sua Serra hé o seguinte:
Respondo que nesta freguesia não há serra alguma, ainda que he montuoza, e aspera da parte do Nascente e Norte. Os frutos que produz a terra são os declarados no número 15. do primeiro interrogatório. Crião-se nella vacas, ovelhas, cabras e animais imundos [de cada] couza pouca, e ainda munta de caça, lebres, coelhos e perdizes; e nada mais há digno de memória sobre o segundo interrogatório e seus números.
Ao terceiro interrogatório, que consta de vinte números marginais, cujo título hé:
O que se procura saber do Rio dessa terra hé o seguinte: Respondo que nesta freguezia não há Rio algum mas só duas ribeiras com o nome de ribeiras, chama-se huma a ribeira de Fonte Boa, na qual há huma ponte de pedra e cal; chama-se a outra a ribeira de Pardielas. Correm ambas do Norte para o Sul; aquela na distância de huma legoa, esta na de trêz pouco mais ou menos entrão na ribeira chamada Odijebe, onde tomão este nome, perdendo os que sempre antes de nella entrarem conservavam. Das agoas destas duas ribeiras se uza livremente e tãobem livremente se pescaão huns pequenos peixes, nam pouca quantidade chamados bordallos e pardelhas. As margens da ribeira de Fonte Boa são cultivadas, e produzem trigo, mellões e mellancias. As margens da ribeira de Pardielas são incultas e fragozas, e o que produzem são mattos de azinho e sôbro. Nada mais há que responder digno de memória sobre o terceiro interrogatório, e seus números. Isto, e nada mais, hé o que pude saber acerca do interrogatório que Vossa Ecxelência me manda responder e tudo o mais que me ordenar cumprirei com a mais rendada obediência.
São Bento do Mato 29 de Mayo de 1758.
De Vossa Excelência O mais humilde e obediente subdito O Cura Braz Mendes Varregoso
(1) S. Bento do Mato: Freguesia rural do Concelho de Évora. O principal núcleo populacional e sede da freguesia é Azaruja. Área: 6 655ha. População presente: 1 447 hah. (Censos 1991). O seu nome parece estar ligado a devoção popular a S. Bento, protector das pestes, mordeduras de víboras e lacraus que existiam abundantemente nesta região.
(2) A Igreja Paroquial (junto ao cemiténo é um edificio construído ou reconstruido no século XVI, mas que sofreu profundas alteracões no XVIII, subsistindo do primitivo apenas a capela-mor, a sacristia e o arcobotante que serve de escada para o campanário; na parede exterior da capela-mor são visíveis os esteios de uma anta desmantelada. Apesar de estar classificada como “Imovel de Interesse Público” (1957), encontra-se bastante arruinada e desprovida de imagens religiosas.
(3) Morgadio das Brosseiras foi instituido pelo Doutor Alvaro Cardoso e já existia em 1420.
(4) Nos meados do século XVI já existia neste local uma ribeira denominada “Razucha ou Alarucha”, que deu o nome a uma herdade, propriedade, em meados do séc. XVIII, de Martinho Lopes Lobo de Saldanha. Este proprietatio aforou uma determinada área, originando o aparecimento dos primeiros fogos habitacionais. “Alarucha é, provavelmente, um hidrotopónimo dc origem árabe, como existem tantos outros no Alentejo.” - Marta Ângela Beirante, Évora no Idade Média, tese de doutoramento, pág. 8. Não se conhece o diplome régio da sua elevação a vila, porém nas Tábuas Topográficas e Estatístisas (1801) é mencionado “Aldea do termo de Évora criada Vila”; também nos inícios do séc. XIX aparecenos sob a designação de “Vila Nova do Principe Regente”. Em 1835, o inglês Tomás Reynolds instalou na Azaruja a primeira fábrica de cortiça, cuja direcção técnica entregou ao catalão André Camps, que chamou operários da Catatunha para a dita fábrica.
(5) Ermida de Nossa Senhora do Carmo: localiza-se a cerca de 2 km da Azaruja; foi construída em 1757/58 (as construções anexas - pousadas dos peregrinos e casa do capelão privativo foram construídas em 1771. 1781, 1790 e as outras construções existentes são posteriores. Foi construida por Martinho Lopes Lobo de Saldanha (Padroeiro) e doações dos devotos. Origem: neste local existiu um modesto nicho em barro amassado, erguido por eremitas filiados na Ordem do Monte Carmelo, que habitaram o local até 1754; cerca de três anos depois, chegou ao local uma mulher doente que ao ver a imagem da Senhora a venerou e lhe pediu remédio para a sua enfermidade. Alguns dias depois, sentiu-se inteiramente sã e divulgou o sucedido, começando logo a acorrer muitas pessoas de lugares vizinhos e distantes; o proprietário da herdade ao tomar conhecimento destes factos, doou área para a erecção da ermida e propôs-se como seu padroeiro. Características da Ermida: Estilo rococó, de características rurais, com planta octogonal irregular, telhado de oito vertentes, 3 portas, sendo a principal soltada a Norte; mede 7.85m × 7,77m; no interior destacam-se os estuques polícromos e de relevo, a capela-mor de talha dourada, a imagem da padroeira pintada na parede a têmpera, os dois retábulos laterais - St°. André Avelino e Srª. Ana e a Virgem e o grande conjunto de pinturas votivas dedicadas à Senhora do Carmo. Romaria: a festa principal realizava-se no segundo domingo de Setembro e durava três dias; foi considerada das mais importantes do Sul do Pais e a ela acorriam grande número de pessoas. Na Ermida de Nossa Senhora do Carmo existe um conjunto muito grande de “quadros votivos” dedicados à Senhora do Carmo, que inundam e recobrem quase na totalidade as paredes do templo e da sacristia, imprimindo ao ambiente poesia e religiosidade. São cerca de 1500 “quadros”, sendo um dos mais antigos de 1754, pintado em tela. Quadros Votivos: são painéis pintados que atestam e celebram admiráveis milagres, proclamando e perpetuando o reconhecimento pelas graças obtidas; exprimem, pois, a gratidão e o sentimento religioso e foram concebidos para figurar como exibição votiva em locais de culto. Outros nomes por que são conhecidos: “milagres”, “retábulo figurativo”, “tabuíae votiva”, “ex-voto”, “retábulo pintado”, etc. Origem: a maioria dos autores filiam-nos nas “tabulae” ou “tabellae” rontanas, enquanto outros vêm neles, à semelhança das alminhas, um expediente da Contra-Reforma; o insestigador Carlos da Silva Lopes considera-os uma consequência do surto retabular, que eclodiu em Portugal cerca de meados do séc. XV. Características: Obedecem, geralmente, a 4 regras de figuração: representarão da força natural (do sagrado), figuração do votante ou daquele que faz o apelo; representação do sucesso que fez a invocação e legenda (nem sempre existe) que proclama o carácter gratulatório da tábua. Material: madeira, tela, folha de Flandres, papel, vidro, cortica. Técnica: óleo, sobretudo, com ou sem protecção em verniz, raramente à têmpera. Artistas: artífices e amadores ocasionais. Descrição horizontal do cenário Importância histórico-cultural: são um valioso testemunho da religiosidade popular, que exprime o sentimento de gratidão para com a intervenção divina. São uma forma de arte popular, sinónima de arte tradicional e colectiva.
Transcrição: Maria Ludovina Grilo Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758 (Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95), pp. 89- 156. 7
1758 Maio 23 - S. Bento de Pomares Memória Paroquial de S. Bento de Pomares, Évora (Freguesia suprimida, foi anexada à freguesia de Torre de Coelheiros) [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 29, nº 204, pp. 1413 a 1414]
Excelentissimo Reverendissimo Senhor Satisfazendo a hordem que emanou de Vossa Excelência, para que responda aos enterrogatórios que por hordem de Sua Magestade que Deos guarde serve mandar responder ao que respondo no theor e forma seguinte ao que me manda responder desta Parochia de S. Bento de Pomares(1) do termo e Arcebispado da cidade de Évora distante da mesma quatro legoas aprezentação do mesmo Prelado contem em si a freguezia sinco herdades com vinte e dois moradores número de hum cento de pessoas e não tem aldeya nenhuma. O orago da Caza há o Patriarca S. Bento. Tem a Igreja huma só nave com três altares em o altar mór está o Patriarca S. Bento e aos lados do mesmo Santo está Santo António e Santo Amaro e em hum dos colateraes entrando a mão esquerda está o altar de Nossa Senhora com o título das Neves e no colateral a mão dereyta está o altar de S. Brás. Hé freguezia limitada no rendimento porque só tem o cura dois moyos de trigo e trinta alqueyres de sevada a próprio não tem a freguezia dentro de si hirmandades alguma hirmida nem Convento. Os frutos da freguezia em mais abundância he trigo e algum senteyo e sevada. Fica a Igreja em sitio montuozo que de todas as partes se sobe para ella avistando algumas terras, em cercuyto como são a cidade de Évora para a parte do noroeste distante quatro legoas a villa de Evora monte para o norte distante sette legoas Moncerás para a aparte do nascente distante seis legoas Villa Alva e Villa Ruiva distante duas legoas Alvito quazi a mesma parte distante três legoas e para a mesma parte do Sul a Villa da Oriolla e a Lisboa capital do Reyno, sem que esta se aviste, vinte e duas legoas. E não padeceu a Igreja nem a freguezia // nem a freguezia ruina alguma no terramoto do anno de mil sette sentos e sincoenta e sinco. Nestes montes desta freguezia de S. Bento de Pomares alcançou Viriatto Portuguez aquella insigne vitória contra o Pertor romano Cayo Placio e segunda contra o Pertor Quincto Pompeyo ficandolhe nas mãos vinte e sette bandeyras com morte de quatro mil romanos terceyra batalha alcançou Sertório a vitória contra o Pertor romano quinto Sirilio Dentatto de que fazem menção Rezende e Évora Glorioza. Parte dezoito e vinte e ouito nesta mesma freguezia na herdade do Garducho se acha hum vale a que dão o titulo dos besteyros e no alto do mesmo vale para a parte do Sul distante trezentos paços pouco mais ou menos se acha hum pedrão há tradição levantara Viriato em memória de huma das vitorias que alcançou o mesmo Viriato contra os romanos no mesmo vale dos besteyros no simo do dito vale se acha huma fonte manancial de todo o anno de agoa excelente. Estas são as noticias que posso dar desta freguezia respondendo aos entorrogatorios que Sua Magestade que Deos guarde manda que responda e Vossa Excelencia munto Reverendissima asim me ordena. S. Bento de Pomares 23 de Mayo de 1758. O mais humilde subdito e Venerador De Vossa Excelencia Reverendicima O Parrocho Julião Vicente Guião
(1) S. Bento de Pomares: Extinta freguesia rural do Concelho de Evora, já existente no século XVIII. Pelo DL nº. 35 927, de 1/11/1946 passou a integrar, em conjunto com S. Jordão e S. Marcos da Abóbada, a Freguesia de Torre de Coelheiros. O Padre Francisco da Fonseca na sua obra Évora Gloriosa (pág. 223) diz-nos que era um “Sítio celeberrimo pello templo de Vénus, e victorias de Sertório, e Viriato” e Diogo Mendes de Vasconcelos “Foi achado este letreiro na Aldea de Pomares, distante desta cidade XVI M.P. e […] donde estavam os frescos montes, que Appião de Alexandria conta estarem prantados de vinhas, e que fora alhi Templo de Vénus.” - Livro V do Municipio Eborense, Évora, Martim de Burgos, 1593, pp. 67-68.
Transcrição: Maria Ludovina Grilo Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758 (Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95), pp. 89- 156.
1758 Maio 21 - Nossa Senhora de Machede Memória Paroquial de Nossa Senhora de Machede, Évora [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 22 nº 17, pp. 95 a 106]
Desta aldeia e freguezia de Nossa Senhora de Machede, ,termo da cidade de Evora, ao que della se procura saber pellos interrogatorios prezentes respondo,
1. Ao primeiro - Esta terra he aldea e freguezia de Nossa Senhora de Machede(1), fica na Provincia do Alemtejo, pertence a este Arcebispado de Evora, he commarca e termo da mesma cidade de Evora, pertence e he freguezia de Nossa Senhora de Machede, porem os dizimos se pagão á Santa Sé da dita cidade, e ás outras quatro igrejas da dita cidade, conforme o sitio das cazas que na mesma cidade servem de pousada aos lavradores desta freguezia, e varios uzos que na arrecadação dos mesmos dizimos ha por antiguo costume.
2. Ao segundo - Esta aldea e freguezia he e sempre tem sido de Sua Real Magestade Fidelissima El-Rey Nosso Senhor que Deos conserve felizmente por muitos annos; e as cazas desta aldea estãao edificadas em os confins de duas herdades, huma se chama a herdade do Bossalfão de que he senhorio Fernando de Larre(?) provedor dos almazaes da cidade de Lisboa; e a outra he a herdade de Moncoveiro de que he senhorio Rodrigo Chimenes Pereyra Coutinho Barriga e Veyga da dita cidade de Lisboa e dizem ser fidalgo de Sua Real Magestade Fidellissima, a cujos senhorios pagão os moradores // desta aldea, que nella tem cazas e ferrejaes, huma galinha de foro por cada vinte varas de terra que occupão em circuito com as cazas e ferrejaes. E os lavradores que lavrão o restante das ditas herdades pagão suas rendas conforme se ajustão com os ditos senhorios.
3. Ao terceiro - Tem esta aldea cento e setenta vezinhos, e tem mais as quarenta e huma herdades que comprehende toda a freguezia nas quais ha oitenta e oito vezinhos entrando lavradores e cazeiros, e vem a somar todos os vezinhos que tem toda esta freguezia, entrando aldea e herdades o numero de duzentos e sincoenta e oito vezinhos. Ha nesta aldea quatro centos e sincoenta pessoas de confissão de ambos os sexos, e há nas quarenta e huma herdades desta freguezia, quatro centos e sincoenta e seis pessoas de confissão de ambos os sexos. E vem a somar todas as pessoas que há por toda a freguezia entrando herdades e aldea o numero de nove centos e seis pessoas de confissão; e haverá mais de cem pessoas de idade de sete annos para baixo.
4. Ao quarto - esta aldea esta situada em campina; mas tem seus outeiros não mui levantados por toda a freguezia, e a aldea tambem esta situada sobre dois e parte de tres outeirinhos; e dos outeiros se descobre a cidade de Evora para a parte do nascente; o castello da villa de Evoramonte para a parte do poente, e a villa de Montoito para a parte do Sul; porem de dentro da aldea não se descobre nenhuma destas terras; e a cidade // de Evora dista desta aldea duas legoas; e a villa de Evoramonte dista tres legoas; e a villa de Montoito dista outras tres legoas.
5. Ao quinto - Esta aldea e freguezia não tem termo seu, mas he termo da cidade de Évora.
6. Ao sexto - A parochia que he a igreja(2) esta dentro desta aldea na parte da herdade de Moncoveiro sobredita; e não tem mais lugares, ou aldeas esta freguezia.
7. Ao setimo - O orago desta Igreja he Nossa Senhora da Natividade de Machede. Tem a igreja tres altares: o primeiro he o altar mor que he da dita Senhora orago, e do Santissimo Sacramento; tem a imagem da mesma Senhora feita de vestir, colocada á mão direita do dito altar, e da parte esquerda tem a imagem do Senhor São Joze feita de estofado; em o meyo esta o Sacrário com o Santissimo Sacramento, aonde se conserva ha dois annos somente porque antes não havia sacrário nesta igreja. O segundo altar he de Nossa Senhora do Rozario, e de Nossa Senhora da Assumpção, tem a imagem desta Senhora feita de vestir, collocada no meyo, e da Senhora do Rozario feita de estofado colocada á parte direita e da parte esquerda está a imagem de Santa Luzia feita de estofado. E o terceiro altar he das Benditas Almas do Purgatorio, e do Menino Jesus; tem a imagem do Santissimo Menino no meyo dentro em huma vidraça e a imagem do Senhor São Miguel estofada a parte direita e a imagem de Santo Antonio (?) para a parte esquerda, ficão estes dois altares pegados ao arco cruzeiro da capella mor da parte de fora da dita capella, virados para a porta principal da Igreja em correspondencia hum do outro. A igreja não tem naves, pois toda ella he de huma so nave bem fortificada // das paredes e abobadas, tem azulejo athe o meyo das paredes assim o corpo da Igreja como a capella mor e do meyo para sima he de estucado em quadros com varias imagens pintadas athe pelo tecto os tem com várias pinturas do misterio da Virgem Nossa Senhora. Tem tres irmandades huma he do Santissimo Sacramento erecta no anno de 1756 proximo, outra he das Santas Almas do Purgatório erecta no anno de 1721, e a terceira he de Nossa Senhora do Rozario erecta no anno de 1652.
8. Ao outavo - O paroco desta igreja he cura amovivel aprezentado pelo Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Arcebispo deste Arcebispado de Evora ou pello Illustrissimo e Reverendissimo Cabido sede vacante. Tem o paroco de renda certa quatro moys e vinte alqueires de trigo e dois moys e dez alqueires de cevada, estabelecidos por antiguidade de tempo, e pagos pelas herdades desta freguezia para o que estão lotadas cada huma em certo numero de arados mais ou menos conforme a bondade dellas, e entre todas fas o compoto de sessenta e sinco arados numero fixo, e por cada arado se paga quatro alqueires de trigo, e dois de cevada, que vem a emportar nos ditos quatro moyos e vinte alqueires de trigo e dois moyos e dez alqueires de ceveda, cujos moyos pagão os lavradores que trazem as herdades de renda, ou os senhorios das herdades quando as não trazem arrendadas, ou qualquer pessoa, seja de que qualidade for que trouxer de posse as herdades. Tem mais de renda contigente hum alqueire de trigo, que paga cada vezimho que morar na freguezia não sendo lavrador que nella tenha herdade sua ou de renda; chamo, a este rendimento contigente porque pode acontecer não // haver vezinho cazeiros na freguezia, e assim fica so o rendimento das herdades. Mas porque agora morão na freguezia duzentos e vinte e sete vezinhos cazeiros (excepto os lavradores) tem o paroco de renda duzentos e vinte e sete alqueires de trigo pagos pelos mesmos cazeiros, alem dos sobreditos quatro moyos e vinte alqueires de trigo e dois moyos e dez alqueires de cevada pagos pelos arados das herdades. E vem a somar toda esta renda em quatro centos e oitenta e sete alqueires de trigo e cento e trinta alqueires de cevada por tudo; cujo rendimento se chama bollo, ou congrua para sustento do paroco. E o pé de altar rende trinta mil reis huns annos por outros. Rende tambem esta igreja ao sanchritão della hum moyo, e sinco alqueires de trigo renda certa, e estabelecida nos sobreditos sessenta e sinco arados das herdades por cada arado hum alqueire, e mais cento e treze alqueires e meyo de trigo renda contigente que pagão os duzentos e vinte e sete vezinhos que tem a freguezia; cada cazeiro e vezinho não sendo lavradores paga meyo alqueire, e assim vem a emportar ao tudo em cento e setenta e oito alqueires de trigo e meyo e do pé de altar rende dez mil reis huns annos por outros.
9. Ao nono - Esta igreja nao tem beneficiado algum, nem coadjutor, mas somente o paroco.
10. Ao decimo - Esta freguesia não tem convento algum.
11. Ao undecimo - Nao tem hospital.
12. Ao duodecimo - Não tem Caza de Misericórdia.
13. Ao decimo terceiro - Tem so huma ermida de São Sebastião,3 a qual esta fora desta aldea huma legoa na Quinta da Herdade da Fonte Coberta; e pertence a Antonio Machado Borges da villa de Mértola deste Arcebispado e a Joze Alvaro da Camara da cidade de Evora, os quaes são obrigados ao ornato e conservação da dita ermida.
14. Ao decimo quarto - Não acode a esta ermida // romagem, so por acaso algumas pessoas sem ser em dia determinado.
15. Ao decimo quinto - Os frutos da terra que os moradores desta freguezia recolhem em mais abundancia são trigo, alguma cevada e centeyo.
16. Ao decimo sexto - Esta freguezia nao tem juis ordinario, nem camara, e so tem juis e escrivão chamado vulgarmente da vintena, os quais aprezenta a camara da cidade de Evora; e as justiças da mesma cidade he esta freguezia subjeita.
17. Ao decimo setimo - Esta freguezia não he couto, cabeça de conselho, honra, nem behetria.
18. Ao decimo outavo - Não ha memória que nesta freguezia florecessem, nem della sahissem homens insignes em virtude, letras ou armas. Só me dizem que o Reverendo Balthazar Coelho Monteiro, que foi paroco desta igreja trinta e oito annos e faleceu no anno de mil seis centos e trinta e quatro, tem seu corpo inteiro na sepultura em que foi enterrado na capella mor desta igreja para a parte e lado esquerdo, e tem sua campa de marmore com letreiro, que declara ser aquella sua sepultura, e que não se enterre nella mais ninguem para o que deixou á fabrica humas cazas na cidade de Évora, e huma courella de terra e huma lampada de prata que tem esta igreja, e a dita caza e terra rendem agora sete centos e vinte de foro para a fabrica; o dito reverendo foi o que reformou com sua deligencia concorrendo os freguezes esta igreja refazendo-a de novo no anno de mil seis centos e vinte e quatro, e demolindo a antiga, que na verdade antiga era, pois era feita no anno de mil e duzentos e vinte e hum conforme consta de hum padrão e letreiro que está sobre a porta // principal desta dita igreja; e com effeito ninguem se tem enterrado na dita sepultura, nem eu sei com certeza se a tem aberto alguem para averiguar se o corpo do dito reverendo está ou não inteiro.
19. Ao decimo nono - Não ha feira alguma nesta freguezia.
20. Ao Vigessimo - Não tem correyo esta freguezia e se serve do correyo da cidade de Evora, que dista duas legoas.
21. Ao Vigessimo primeiro - Esta aldea dista da cidade capital que he Evora duas legoas; e da cidade capital Lisboa do Reyno dista vinte e huma legoas.
22. Ao Vigessimo segundo - Consta-se que o senhorio da herdade de Bosalfão a sima nomeado tem o privilegio das taboas vermelhas (?) do qual se tem valido a parte dos moradores desta aldea que na dita herdade tem cazas, e não sei que haja nesta freguezia mais privilégios, ou antiguidades dignas de memoria.
23. Ao vigessimo terceiro - Não me consta que nesta freguezia nem perto della haja fonte ou lagoa celebre, nem agoa de especial qualidade.
24. Ao vigessimo quarto - Não ha porto de mar, antes fica muito bem longe delle esta freguezia, pois o mais perto que dista he daqui a Alcacer do Sal, que fazem daqui onze legoas.
25. Ao vigessimo quinto - Esta aldea não he murada, nem praça ,de armas, nem ha nella, nem no seu destricto castello, nem torre antiga, ou moderna.
26. Ao vigessimo sexto. - Não padeceu esta aldea e freguezia ruina alguma no estupendo terremoto de mil setecentos e sincoenta e sinco em dia de todos os Santos. Somente na igreja abriu algumas pequenas rachas, que ao prezente estão reparadas, e só lhe ficou huma racha ao cumprido pelo tecto da abóbada a qual racha // ja a tinha antes deste terremoto e se suppoem abriu quando assentarão as paredes e abobedas, ou em outro terremoto, mas não cauza pirigo, nem em este terremoto fes mayor abertura do que antes tinha.
27. Ao vigessimo setimo - Não me consta haver nesta freguezia mais couza alguma notavel, ou digna de memoria.
E pelo que respeita aos interrogatorios da serra respondo:
Nesta freguezia não ha serra e só tem alguns outeiros, e delles o que he mais levantado he o outeiro que está na herdade de Bativelhas (?), a qual chamada impropriamente a Serra de Bativelhas, tem de comprimento meya legoa, e de largura hum quarto de legoa e na ponta do dito outeiro para a parte da herdade da Fonte Coberta estão uns foços, ou covas grandes aonde parece se cavou antigamente alguns metaes, porem não consta de que qualidade, e por alguns vestigios, se julga, seria ferro. Não me consta que neste outeiro haja couza especial que declare sobre os interrogatorios; o dito outeiro cria mato de esteva que se rossa e a terra assim rossada produz trigo e centeyo; tambem há nelle bastantes arvores agrestes azinheiras e sobreiras que produzem bolota com que engordão os porcos; há bastante salva brava, ruta brava, que se dis serem medicinaes; e por outras partes da freguezia se crião raizes de escorcioneira para fazer doces; e assim o dito oiiteiro, como os mais sitios da freguezia produzem bastante esteva aonde se crião coelhos, perdizes e lebres, e rapozas em suffeciente quantidade // e tambem há bastante creação de ovelhas, cabras e boys, e porcos; e não sei que haja couzas que dizer com especialidade sobre os interrogatorios mais do que tenho dito enquanto á serra.
E pelo que respeita aos interrogatórios do Rio respondo:
1. Ao primeiro - Ha nesta freguezia dous rios, hum se chama o Dejebe, o qual nasce no sitio das Simalhas na herdade da Capella freguezia de Nossa Senhora da Consolação da Igrejinha termo da villa de Arrayolos; e outro se chama a Ribeira de Machede, o qual nasce na herdade da Fuzeira freguezia de S. Miguel de Machede deste termo, e tambem nasce do Castelinho ,junto á herdade de Castello Ventozo freguezia de São Bento do Matto deste termo da cidade de Évora.
2. Ao segundo - Nenhum destes dous rios nasce caudalozo, nem corre todo o anno, porque só quando há chuvas correm.
3. O terceiro. - Só no rio Dejebe entrão a sobredita ribeira de Machede dentro desta freguezia; e fora della entrão huma ribeira chamada da Fonte Boa das Vinhas no sitio das Vinhas da cidade de Evora e outra ribeira de Pardiellas no sitio do Chainho (?) freguezia de S. Manços deste termo.
4. Ao quarto - Nenhum destes rios he navegavel.
5. Ao quinto - Ambos os sobreditos rios são de curso quieto.
6. Ao sexto - Ambos correm de Norte a Sul. 7. Ao setimo - O Rio Dejebe cria varios peixes meudos // como são pardelhas, bordallos e barbos em igual abundancia. E o outro rio chamado a ribeira de Machede não cria peixes, porque de Verão se seca e só lhe ficão alguns charcos aonde se não conserva criação de peixe; porém no tempo em que há agoas correm para este rio daquelles peixes meudos do outro rio Dejebe.
8. Ao oitavo - Em todo o tempo do anno se pesca no dito rio Dejebe, principalmente no tempo do Verão pois lhe ficão bons pegos em que se pesca com redes, porém na ribeira de Machede só se pesca quando correm as agoas e então é com cana ou tarrafa.
9. Ao nono - As pescarias são livres para todos.
10. Ao decimo - Nas margens dos ditos rios se cultivam trigos e cevadas, e não há árvores manças, e só sobreiros e azinheiras bravas, em partes.
11. Ao undecimo - As aguas destes rios não tem virtude particular, antes me parese, são nocivas aquem nellas de entra.
12. Ao duodecimo - Estes dois rios conservão em toda a sua distancia o mesmo nome, nem há memoria tivesem outro nome.
13. Ao decimo terceiro - O rio Dejebe morre no rio chamado Agodiana no sitio chamado o Roncão e a ribeira de Machede morre no dito Dejebe no sitio chamado as juntas da ribeira dentro nesta freguezia.
14. Ao decimo quarto - Ambos os rios tem açudes com levadas para engenhos de moinhos; a ribeira de Machede tem dois, hum he o assude do moinho de Caetano Dias e o outro açude do moinho de // Francisco Rodrigues Bacaro, juntos a esta aldea. O Dejebe tem mais assudes, eu sei de sete, o primeiro no sitio do alagar derobado junto da ponte, o segundo he o moinho do Freyxial, o terceiro o moinho de cento e dez, o quarto o moinho do Silveira, o quinto o moinho da corte, o quinto (sic) o moinho de João Poteira, o sexto o moinho do gatto, o setimo o moinho da Tisoureira, e ainda dahi para baixo me consta há mais moinhos athe entrar no Godiana.
15. Ao decimo quinto - O rio Dejebe tem quatro pontes de pedra de cantaria e cal, a primeira no sitio da herdade do alagar derobado na estrada que vem de Estremoz para Evora; a segunda no sitio das vinhas de Evora na estrada que vem de Villa Viçoza para Evora, a terceira no sitio do Chainho na estrada que vem da villa de Montoito para Evora, e a quarta no sitio da herdade do Albardão na estrada que vem da villa de Monsaraz para Evora.
16. Ao decimo sexto - Ambos os rios tem varios engenhos, de moinhos como assima ja disse, e não sei tenhão outros engenhos.
17. Ao decimo setimo - Não consta que das areas destes rios se tirasa ouro, nem ao prezente se tira.
18. Ao decimo oitavo - Os povos uzão livremente das aguas destes rios sem pensão alguma, porém nesta freguezia não utilizão para cultura dos campos, porque não se rega campo algum com ellas, nem correm de Verão quando melhor podião utilizar.
19. Ao decimo nono - O rio Dejebe tem nove legoas desde o seu nascimento athe onde acaba, e a ribeira de Machede tem legoa e meya desde o seu nascimento athe onde morre; não passão por povoações, e só perto desta aldea he que passão. //
20. Ao vigessimo - Não me consta de couza alguma notavel que possa dizer nestes interrogatorios, nem fora do que elles conthem.
Tudo o que tenho respondido me paresse verdade, e por assim ser me asigno. Nossa Senhora de Machede 21 de Mayo de 1758, O Paroco da Igreja, Manuel Ferrão
(1) Actual freguesia rural do concelho de Évora. No censo de 1864 figura apenas Machede (Natividade). No censo de 1878 figura Machede (Nossa Senhora da Natividade). A partir de 1911 figura Machede - Nossa Senhora da Natividade - Valongo. Pelo DL nº. 27 424, de 31/12/1936 passou a denominar-se Nossa Senhora de Machede. Situa-se a cerca de 12 km de Évora, para Nascente. Área: 18 534 ha. População presente (Dados preliminares - Censos/91): 1 277 habitantes. Não se conhece concretamente a data da fundação da freguesia ou da povoação, no entanto, sabe-se que tem uma origem muito remota e a sua área englobava também as das freguesias de S. Miguel de Machede e S. Bento do Mato. Há quem defenda que Machede é uma alatinação do termo árabe "madchas", que significa terra do Senhor ou lugar santo.
(2) O edifício actualmente existente remonta a 2 de Fevereiro de 1624, que substituiu um anterior sagrado em 1221, conforme o testemunha uma lápide existente na sua fachada. É composto por uma nave contrafortada, de três tramos, com bolas decorativas na platibanda e alpendre de três arcos de abóbada de aresta, sobrepujado por dois pitorescos campanários de sinos de bronze com frontões de enrolamento. No seu interior, as paredes estão cobertas com painéis de azulejos representando temas e personagens bíblicas e mitológicas. Na capela-mor, de planta rectangular e pouco profunda, existe um retábulo rococó de talha dourada com a imagem da Padroeira. Túlio Espanca, Op. Cit., pp. 164-166.
(3) Situa-se esta adulterada construção religiosa, na quinta das vastas terras que constituiram cabeça de morgadio de Lopo Álvares de Moura, em tempos remotos, representado noano de 1766 pelo lavrador fidalgo Verissimo António Limpo de Moura, e que, desde finais do século XV já tinha a denomina- ção de Fonte Coberta.
Transcrição: Maria Ludovina Grilo Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758 (I Parte). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 1ª Serie, nº 71 (1988), pp. 187- 212.
1758 Maio 28 - Nossa Senhora da Tourega Memória Paroquial de Nossa Senhora da Tourega, Évora [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 37, nº 87, pp. 951 a 965]
Notícia e [ge]ografia da Freguezia de Nossa Senhora da Assumpção da Tourega(1) termo da cidade de Évora. Na Provincia do Alentejo comarca termo e Arcebispado de Évora cidade que hé de El Rey Nosso Senhor Dom Jozé primeiro, que Deos guarde , em campina raza, na distância de duas legoas para a parte do poente e dezanove a capital do Reino , sítio donde se descobre a Villa das Alcaçovas e a Villa de Vianna que lhe [dista] três legoas a parte do Sul e Sudueste está situada a Freguezia de Nossa Senhora da Assumpção da Tourega, Parochia que comprehende trinta e quatro herdades, cinco quintas , sete moinhos de água e doze fornos que estão a ocupar cento e doze vizinhos e noventa e sete são os cazeiros que vivem nas herdades em que não moram os [lavradores] porque as cultivão da cidade e de outras partes os que as [trazem por sua conta]. Tem pessoas maiores quatrocentas e vinte e duas e menores trinta e três. O seu districto tem de comprido duas legoas e meya, e de largo duas legoas. Vezinha da parte do Nascente tem a freguezia da Sé de Évora, da parte do Norte com a de S. Mathias, que lhe dista legoa e meya, a Poente lhe ficão a freguezia de Nossa Senhora da Boa Fé e a de S. Brissos huma legoa a de S. Braz do Regedouro à parte do Sul huma legoa, e a matriz da Villa de Aguiar duas legoas a Sueste e outras duas a freguezia de S. Marcos da Abóbeda. Hé huma das mais antigas freguezias de todo o termo da cidade de Évora. O Pároco tem o nome de cura [...] apresentação do Excelentíssimo e Reverendissimo Senhor Arcebispo de Évora. Dão os freguezes ao cura huma congrua [de sustentação arbitrada] // e posta nas herdades e prédios a que chamão bolo do pároco e este bolo são obrigados a pagar os lavradores que cultivão as herdades ainda que nelas não morem e não tendo lavradores o pagão os mesmos senhores delas. Hé o bolo que se paga das herdades trêz moyos e quarenta e oito alqueires de trigo, de cevada pagão hum moyo e quarenta e nove alqueires que faz cinco moyos e vinte sete alqueires de trigo e cevada das herdades. Pagão mais cada hum dos cazeiros dous alqueires que faz o bolo ao todo com a cevada oito moyos e nove alqueires. Junto à Igreja e Cazas do Pároco há hum passal a que chamão a [Calada] que semeão os párocos que della estão emposse tão antiga, que quando o Sereníssimo Cardeal Rey Senhor D. Henrique deu cinco herdades desta freguezia para património do Real Collégio da Purificação (em huma das quais está o dito passal) e dellas são administradores os Reverendos Padres da Companhia do Collégio da Cidade de Évora, já estavam os párocos de posse e nella se tem conservado e conservão. Tem mais humas cazas na rua dos Mercadores da dita cidade que lhe deixou Maria Ferreira para pouzada do dito pároco, que hoje estão com obrigação de quatro missas que se dizem por alma da mesma que deixou hum [cruzado] para as quatro missas em huma vinha de que não há notícia de quem a possue e como possue o paroco as cazas diz as quatro missas. Nesta Igreja há hum benefício simples com o títullo de Prestimonhio sem evidência nem penção, cuja aprezentação he humas vezes dos Excelentíssimos e Reverendissimos Arcebispos de Évora, e outras do Papa por ser a data alternativa. Cobra o beneficiado que o possue a renda da herdade do Freixo desta freguezia a de hum pomarinho que esta na mesma herdade. Rende esta cento cincoenta alqueires de trigo e setenta alqueires de cevada e varias pitanças, rende o Pomarinho dez mil reis e desta renda se tira o [...]. He o orago desta freguezia Nossa Senhora da Assumpção com titulo da Tourega que parece tomou este nome com pouca correição da cidade de Tourigia que dizem aqui foy situada nos tempos antigos hoje commumente se chama Ourega(2). He a Igreja(3) de huma nave, tem três altares, o altar mor he fechado por cima a dita capela com huma abobeda de feitio de concha; nele está collocado o tabernáculo do Santissimo Sacramento feito de talha e madeira dourado, o retábollo hé taobém de talha, mui antigo e dourado com seu nicho donde está a soberana e bem feita imagem de Nossa Senhora da Assumpção estofada de ouro com sua coroa imperial. A parte da Epístola está huma linda imagem de Santo António com o Menino Jesus sobre o livro estofado de ouro com sua diadema de prata e da mesma parte a imagem de S. João de Deos da parte do Evangelho está a imagem do menino Deos de vestidos com sua coroa de prata e o gloriozo São Sebastião. Nas faces do arco da capella mor e dentro do cruzeiro aquem formão humas fortes e bem feitas grades de ferro estão duas capellas collateraes ambas com retabolos de talha dourada. Da parte do Evangelho esta huma perfeitissima imagem de Christo Crucificado com seu resplendor de prata. Neste altar da parte do Evangelho está a imagem do glorioso Archanjo S. Miguel estofado de ouro muito bem feito e no meio do altar a gloriosa Santa Comba e da parte da Epístola a imagem de Santa Catherina de estofo dourado; estão estas trêz imagens sobre a banqueta. Na outra capela da parte da Epístola fica o altar do Rozário que em hum nicho tem a imagem de Nossa Senhora do Rozário estofada de ouro, com sua coroa de prata e o seu menino Jesus que tem nos braços. Tem na parte do Evangelho huma perfeitissima imagem do Menino Jesus com sua coroa imperial de prata, e da parte da Epístola o Senhor S. Jozé // (S. Jozé) muito bem feita e estofada de ouro. A irmandade que ha nesta Igreja he prezente de Nossa Senhora do Rozário. A parte principal da Igreja fica ao poente, a porta travessa a nascente ambas debaixo de huma alpendroada de telhado de madeira sobre treze colunas de pedra parda e algumas de mármore com suas bazes e capitéis que se diz forão dezenterradas deste sítio como tãobem huma pedra de mármore enforma de campa de sepultura(4), de que faz menção o P. Rezende. Tem a inscrição em letras romanas ou latinas na forma seguinte:
D. M. S. Q. lulio Maximo V. Quaestori Prov. Silicia Trib. Pleb. Leg. Prov. Narbonens Galia Prat. Disig. anno XLVIII Calpumia Sabina Manto optimo Q. Iulio Claro C. V. IIII viro viarum Curandarum Anno XXI Q. Iulio Nepotiano C. I. IIII viro viarum curandarum anno XX Calp. Sabina Filis
Sahindo do dito alpendre para a parte do noroeste em distancia de duzentos passos estão humas ruinas de edificios antigos, que hoje chamão as Martas(5), mostrão que foram antigamente lagos ou tanques de banhos que uzavão os romanos; porquanto a sua forma he de tanques grandes e piquenos, o mayor tem cento e vinte palmos de comprido e de largo vinte e dous; os mais os cercão de redor, todos argamassados de seixinhos e não se lhes conhece porta, contígo aos tanques que se ve as ruinas de huma torre e parece foy arruinada com polvra, em circuito de todas estas ruinas se mostrão e discobrem os alicerces de cazas como tãobem quantidade grande de bocados louza argamassas queimadas que se parecem com escumalha de ferreiros. Para este sitio em distância de duzentos passos para a parte // (A parte) do norte está huma fonte o mays do anno prene, que tem o nome Fonte de Santa Innominata(6) para a qual vem agoa por hum cano subterrâneo e corre em hum ambito de ferro da fonte quadrado de pedras de cantaria que bem mostra a sua antiguidade, por muito gastas que estão da mesma agoa. Da igreja para a parte do nascente em distancia de quatrocentos passos está a Irmida da glorioza Santa Comba(7), não muito grande, he de huma nave, tem somente hum altar e nelle a imagem de Santa Comba de gloria estofada de ouro com seu diadema de prata dentro em hum nicho com huma fina vidraça; o retabolo he de talha dourado. Ao lado direito fica seu Irmão o gloriozo S. Jordão Bispo que foi de Évora, e a parte esquerda está sua irmã Santa Inominata ou Anónima, em pintura bem feita nas próprias taboas do retabolo. A porta desta Irmida fica para o Poente com seu alpendre de tres arcos e frontespicio com hum campanário e seu piqueno sino, aos lados da porta tem duas janellas com grades de ferro por onde se ve o altar da Santa, em que já dito estão em pintura os dous Irmãos da glorioza Santa Comba, glória e honra desta freguezia pois nella nascerão e forão martirizadas as duas irmãs em tempo da persecução de Daciano no anno de trezentos e tres da Redempção, cuja verdade a tem das memórias que [...] a comprova o Auctor do Agiólogo Lusitano, principalmente o autor do seu comento em o primeiro dia de Mayo, em que trata do martirio dos nossos Santos. Confirmase com o testemunho do M. Rezende in Epist. [ad Barth Kebedium] fl. 15. O Padre António de Vasconcellos [...Lusitanae] pag. 553 n°. 14. Francisco Luiz dos Anjos no Jardim de Potugal [...] os 20 de Julho pag. 183. O Padre Alvaro Lobo Cap. 14. O Licenciado Jorge Cardozo […] Luzitanos 16:1°. Cap.8 // e finalmente huma relação breve in certi Authory impressa em Lisboa no anno de 1644. Corroborase com os milagres que Deos Nosso Senhor tem feito e faz por intercessão destas gloriosas Samtas a todos os que se vallem do seu patrocínio de que são testemunhas as paredes da sua Irmida que estão cubertas de milagres, como trofeus da sua glória. Alguns tempos foi muy frequentada esta romagem, hoje se acha muito deminuta. Por dita de hum pobre romeyro que veyo vizitar a Santa Comba no anno de 1704 se descobrio entre huns penascos huma vaya de agoa que mostra vir dos alicerces da Irmida que lhe dista secenta passas, descuberta a fonte em hum pequeno charco ou cova se conservou por algum tempo, levando agoa a varias doentes, forão evidentes os seus milagres renovandose a devoção começarão a concorrer romeyros e augmentarse os prodigios. Hoje está feita huma fonte no sitio aonde se descobria a agoa das mays bem feitas que se vem nos campos; está debaixo de huma abobeda quadrada com sua cúpula ou claraboya, servindo-lhe de entrada hum arco sobre o qual tem formado seu frontispicio, está a agoa no meyo da caza com hum bocal de pedras lavradas, e a caza ladrilhada, e corre por bayxo do ladrilho por hum cano para hum tanquinho, que está de fora do arco, tendo de roda hum como atrio para onde se desce por dois lanços de escadas. Na distancia de hum quarto de legoa desta Igreja, indo della para a cidade de Evora fica a Herdade do Barrochal que he huma das cinco que já disse: são administradores os Reverendos Padres da Companhia do Collegio de Évora. Tem hum sumptuoso e bem feito edificio em quadro; nelle assistem com rezidência material dous padres do mesmo Collegio que (al) // alternativamente vem estar nesta nova residência pessoal(8). Tem huma admirável e bem feita capella de regoroza e moderna talha dourada e pedra primorozamente fingida, em que está collocada a imagem de Nossa Senhora da Conceição feita com todo o primor da arte de escultura estofada de ouro com sua coroa imperial prata da parte do Evangelho tem o gloriozo S. Jozé e da parte da Epístola S. Ignacio tãobem feitas e estofadas como a Senhora. Junto a este edificio tem huma nobre e singuliar quinta cercada de hum alto muro que dentro em si tem vinha tão grandina que alguns annos passa de dar dous mil almudes de [mosto] e continuão com grande quantidade de novo bacello. Tem varias e muitas árvores frutíferas de toda a casta e por fora deste tem feito outra grande tapada de soubro portada de estacas de oliveiras e zambujeiros e pegadas a estas duas tapadas tem huma de bastante grandeza a que chamão orta com muitas plumagens novas que nella se vão criando com as esperanças de hum bom pomar. Na mesma estrada que vai desta freguezia para a cidade de Evora, mais adiante do Barrochal hum quarto de legoa fica a quinta do Pomarinho que he da Caza do Meretissimo e Excelentissimo Marquez de Valença; entrase por huma espaçoza porta de cantaria para hum grande pátio, que tem no meyo huma bem feita fonte de mármore. que he suposto hoje se vejão desconcertadas as suas pessas, são de vistoza arquitectura, para a qual vinha ágoa por hum cano de repucho de huma fonte que está em huma grande tapada, povoada de azinheyras, e oliveiras. Fica a tapada a parte do norte da quinta e as portas en conrrespondência huma de outra, e entre ellas passa a estrada que vem da Cidade para esta Igreja e para a Villa das Alcaçovas(9) Tem a quinta humas nobres cazas junto às quaes (den) // dentro as quaes digo dentro da mesma quinta está hum grande tanque para o qual vem agoa de fonte da tapada que já disse. Tem huma grande nora com abundancia de agoa, que se tira para o mesmo tanque e com ella se rega hum laranjal que tem e algumas árvores de outros frutos, algumas oliveiras e seus pinheiros. Em distancia de meia legoa desta freguezia a parte do norte está a quinta de Valverde(10) que he dos Excelentissimos e Reverendissimos Arcebispos de Évora; he sitio na verdade delicioso enobrecido com hum grande Pallacio formado de salas e galerias. obra do Serenissimo Senhor Cardeal Rey e augmentada com outros edificios pelos Excelentissirnos Arcebispos, Cabido em Sé Vacante, e novamente edificado pelo Excelentissirno Reverendissimo Arcebispo Dignissimo D. Frei Miguel de Távora. Forma hum espaçozo pátio pera o qual se entra per huma porta de bayxa de ayroso frontespicio tem neste pateo huma fonte prene todo o anno, e tem defronte da porta do Pallacio em distância de vinte passos, he de mármore e de primoroza architetura, tem sobre huma bella tassa hum escudo de armas do Excelentissimo Arcebispo D. Frei Domingos de Gusmão, sobre elle assenta hum chapeo Episcopal e da parte superior da capa sabe agoa, que cahindo por toda a circunferência das abas, forma hum vistozo chuveyro, que cahindo sobre a taça por quatro bicas, se recolhe em tanque da mesma e sahindo desta por hum cano sobterraneo vay fertilizar hum jardim interior do Palacio, laranjeiras da China e limoeyros que em si tem. Em distância de seis passos estão em correspondência de huma e outra parte, ficando a fonte no meyo, duas pedras de mármore de figura quasi quadrada com notaveis mulduras, tem nas faces que estão para a fonte humas inscripçoens romanas em letras latinas, de que falla o P. Rezende. A Igreja ou Capella do // (ou Capella) do Palácio tem a porta para o dito pateo e em huma das ditas fica huma tribuna para a Capela que he de abobeda com hum bem feito arco, que lhe devide a capela mor que tem retabolo de talha dourada antiga, e nelle huma bem feita cruz. Tem por orago a Santa Cruz, da parte do Evangelho está a imagem de Santa Roza de Lima, e da parte da Epístola a de S. Jacinto, ambas de glória estofadas de ouro. Tem a quinta três capellas, huma a que chamão Santo João do Dezerto, porque nela se venera a imagem de S. João do Dezerto. He esta capella muy bem feita e ayrosa de abóbada. Na distância de quarenta passos está outra capella fundada sobre huma lagem e dentro da Capella a imagem de S. Theotónio. Mais adiante na distância de quinze passos se vem humas capelinhas formadas entre rochas com singular architectura, huma dellas he pequena em forma redonda, não tem sinal de ter tido altar he como gruta. Tem a entrada dous nichos, como que servião de ter nelles algumas imagens, por cima he cuberta de grandes penedos em forma de penhasco. A outra capella he sobterranea, a entrada della he per entre penhas bem apertadas; e na primeira penha está hum globo de pedra marmore que [...] se move em redondo figura do Mundo, que mostra deve deixar quem entra para o dezerto. Assim se chama o sitio desta capella. Antes de entrar nella está huma bem feita porta a que serve de patim hum reducto de quatro arcos, que fazendo debayxo delles concavos fechados de abobadas com muitos buracos para cima formão huma agradável vista; e entrando por hum tranjeto entre rochas tão apertado? que em trabalho cabe hum homem, se ve a capella que he redonda tem huma tão singular abobada em forma de concha com relevos muy fundos, tem huma larga janella para o norte com // (com) suas grades de ferro. No altar desta Capella está a imagem do gioriozo S. Miguel, a qual mandou fazer e collocar nesta capella o Excelentissimo e Reverendissimo Senhor D. Miguel de Távora, e mandou reedificar todas estas capellas que estavam muito arruinadas e sem culto e outras mais obras que de novo mandou fazer na quinta. Tem esta quatro lagos ou tanques de bastante grandeza, hum delles que está junto a hum quarto do Palácio, he de forma redonda com fortissimas paredes, tem de circuito cento e vinte passos e de fundo quatorze palmos; no meyo do qual fica huma como colluna cercada de quatro satiros de mármore e faz da fonte de quatro bicas huma boa prespectiva. A este lago se ajuntão as agoas, que de diversas e várias fontes que estão fora da quinta em dystancia de mais de mil passos, se conduzem, por aquaductos sobre arcos, e alguns de cantaria, até chegarem ao dito lago; como tãobem a agoa de hum argo poço de cantaria, que tem a quinta com hum engenho de nora, que lança agoa a huma grande altura da qual busca o aqueducto dos are os que trazem agoa das fontes ditas ate o lago, donde para outros se reparte para milhor ser regada a quinta, cujo âmbito he muitas vezes grande. Cruzão várias ruas de arvoredos e latadas de parreyras que a devidem em quadras de laranjas, vinhatarias e árvores de vários frutos e silvestres; destas há huma espaçoza rua cercada de altissimos freyxos, que de huma a outra parte a povoão sem desconcerto de deziguaes. Fronteira à porta do páteo do Palácio em distância de duzentos passos fica a porta de huma grande tapada cercada de altos muros, segue as margens da ribeira de Valverde em bastante distância e volta cercando huns altos montes em o mais alto delles fica hum grande pinheiral; e mais centro da tapada he matos silvestres. Por coroa deste delicioso sitio se ostenta o Convento dos Religiozos da Província da Piedade que tem por Orago O Bom Jesus de Valverde, obra tão regullar na architetura, que ainda que pequena, não tem a arte nas obras claustrais, em que possa por nota na sua fabrica. He a da Igraja unica por singular no Reyno da architetura: Compoemse de cinco zimbórios formados sobre trinta e duas colunas de pedra mármore e forma huma regullar figura de cruzeiro de tal sorte, que de qualquer parte que se veja se acha no feitio a mesma correspondência. Tem o zimbório do meyo mais levantado o seu ponto, na sua cupula, e sobre ella huma claraboya com seis luzes resgadas de vidraças de que a Igreja recebe luz. Fica a capela mor a parte do poente ocupando o âmbito de hum zimbório e os colateraes os dois da silharga e o do meyo com que fica ao nascente compoem o Corpo da Igreja; deste se devidem as capellas com humas bem feitas grades de páo, que feichão em oito colunas, Tem no altar mor de finissima pintura huma devotissima imagem de Christo Crucificado com a Sagrada invocação do Bom Jesus de Valverde, de tão devoto aspecto, que infunda devoção a quem o ve. Neste mesmo altar está o tabernáculo do Santissimo Sacramento. Da parte do Evangelho está o Patriarca S. Francisco e da Epístola S. António. No colatral da parte do Evangelho está hum retábulo da mesma pintura a Ascenção de Christo Senhor Nosso e a imagem de Nossa Senhora da Conceição e na outra Capela no retabolo pintada a Adoração dos Pastores e em vulto a imagem de Nossa Senhora da Esperança e outro do Menino Jesus(11) He esta obra tão singular, que nella mostrou //o braço régio do seu fundador Padroeyro o Serenissimo Senhor Cardeal Arcebispo D. Henrique, que depois foy Rey que em área tam pequena pode acumullar grandeza tanta sendo tanto do agrado de Deos este Conventinho que somente tem quatorze cellas em trez dormitorios, tudo de abobadas, que por serem continuas nos religiozos as enfermidades a dezempararão por mandado e ordem do seu Provencial que então era a instancia de huma carta que escreveu o Arcebispo de Évora o Senhor D. Alexandre filho do Duque o Senhor D. João e da Senhora D. Catharina, a hum capitulo que se celebrou em o Convento de Santo António de Coimbra pelos annos de 1607 pedindo quinzesem deixar aquella Caza de Valverde tirando della os Religiozos. Admitirão os frades o concelho, o que logo se poz em effeito, largando no mesmo anno a Caza. Sentia isto grandemente a Cidade de Évora, pois era a gente della a que vinha muitas vezes em romaria ao Bom Jesus de Valverde pela muita devoção que lhe tinha e pedia muito e suplllicava que tornasem os Religiozos para o Convento de Valverde e accrescentou mais esta supplica da Cidade hum repetido prodigio que os pastores daquelle sítio contavão. Dizião estes que muitas vezes ouvirão tocar a matinas a sina e rezarem-se no curo pela meya noite ao mesmo tempo que os frades as rezavão que então alli moravão. Huma noite ajuntandose huns poucos, quizerão examinar este prodigio e supposto que quando chegarão à porta do Convento ouvirão que se regava no coro, subindo acima parou a reza e ninguém virão […] assim esteve o Convento desemparado até que aos contínuos rogos e supplicas da cidade se ajuntou huma carta do Bispo de Miranda D. Diogo de Souza, primeiro do nome [...] já Arcebispo de Evora por morte do Senhor D. Alexandre, o qual pedia // pedia ao Provincial que então era Frei Pedro da Penalva, quizesse outra vez povoallo de frades; porque não era bem se esquecesse huma devoção tão particular como o Cardeal D. Henrique nelle tinha, nem tãobem deixasse de continuar tanto serviço de Deus, quanto se lhe fazia naquelle ermo. Por todas estas razões, em hum capitulo que se fez em Évora no anno de mil seiscentos e dez, o tornaram a aceitar. As ruinas que nesta freguezia se padecerão foy a maior em hum pedaço de parede que cahio sobre a capella mor [...troirnento] dos telhados e varias raxas nas paredes da Igreja e do Convento de Valverde, e Palácio de quinta, e em muitas mais cazas da freguezia, o que tudo cauzou o terremoto do primeiro de Novembro de 1755 porem hoje está tudo reedificado. Os frutos que esta freguezia dá em mayor abundancia são de senteio, trigo e cevada, azeita que nos annos da novidade chegão a perto de quatro mil alqueires. Tem huma lagoa de duas varas na herdade a que chamão do Conde, que hoje hé da Caza do Illustrissimo e Excelentissimo Marquez de Vallença , tem mais três herdades de montado, porem pequenas. Todas são de boas pastagens para qualquer qualidade de gados. As cinco quintas que são Barrochal, Pomarinho, Valverde, da Ponte e das Almas dão bastante vinho, especialmente a do Barrochal, que só por si dá mais que nas mitras todas desta freguezia. Nos confins desta freguezia a parte do norte meya legoa fica a Serra de Montemuro, que disto da Cidade de Evora a parte do poente legoa e meya; he […] do Concelho da mesma cidade e como os parocos que vizinhão commigo, tenhão nesta montes da sua jurisdição, e a elles toca, ou pertençe, a discripção desta Serra e so me parece poderey entrar nesta com a do Castello Giraldo, por estar este muito próximo do sitio de Valverde desta freguezia. // He o Castelo Giraldo na sua architectura parte fabricada pela natureza pois da parte da cidade lhe serve de muralha huma alta rocha que se levanta a prume e continua em circuito supprindo as suas falta huma parede de pedra e barro da largura de três varas, e tem de circuito trezentos passos, cercão a este Castello ordenados reductos, como fossos, desvelho de muralhas grandes penedos em rochas que juntos huns com outros constituem as suas muralhas. Ha tradição que neste Castello se fazia forte e refugiava o valente e intrepido Giraldo coni seus companheiros de quem o Castello tomou o nome(12) Correm pelo districto desta freguezia trêz ribeiras huma a que chamão o Charrama que não perde o nome senão [...] Peramanca, que conserva o nome até o Diege que começa com este nome na freguezia de S. Braz do Regedouro, distância desta de huma legoa à ribeira da Tourega que passando por aqui assim se chama por Valverde de Valverde, por a freguezia de S. Mathias de S. Mathias e metendose na ribeira do Diege nella perde os mais nomes; o principal della he da freguezia da Graça do Divor, que fica desta freguezia a parte do Norte na distância de duas legoas e meya; o Charrama em toda a parte a parte que tem nesta freguezia, não tem ponte alguma. A da Peramanca a tem de bom arco de cantaria na estrada que da cidade de Évora vem para esta freguezia e para a Villa das Alcaçovas. A ribeira da Tourega, que assim tem o nome emquanto aqui passa e a de Valverde por correr por esse sitio em o qual tem na estrada que da cidade de Évora vem para Alcaçovas huma ponte de quatro arcos [bayxos …] que facilmente se cobre com os enchementos das agoas. // Tem esta rio districto da freguezia seis moynhos , são as suas agoas livres e em todas se cultivão parte de suas margens de trigo ou senteio. Não são tapadas de arvoredos, nem de fruto, nem silvestres. O Charrama tem bom moinho.
Aos mais interrogatórios não tenho nesta freguezia que dizer; e por isso nada mais digo ao que he ordenado na carta que recebi de Vossa Excelência e Reverendissima que Deus guarde. Nossa Senhora da Assumpção da Tourega. 28 de Mayo de 1758. O Paroco Antonio Pires da Silveyra
(1) Nossa Senhora da Tourega: Freguesia rural do Concelho de Évora. O principal núcleo populacional sede da Freguesia é Valverde. O acesso é feito pela EN 380 (Évora- Alcáçovas). Em 1864, sob a designação da Ourega, a freguesia possuía 576 habitantes; em 1878, já figura com a denominação de Tourega (Nossa Senhora da Assunção) e possuia 688 habitantes. Nos anos de 1911 a 1920 a freguesia esteve anexa à de Nossa Senhora da Graça do Divor, tendo, na entanto, sido desanexada em 18/ 10/ 1926 (DL n°. 12 509); assim no Censo de 1930 possua já 1186 habitantes. Em 1936 (DL n°. 27 - 424) passou a englobar S. Brás do Regedouro.Área: 19 420 ha. População presente: 859 hab. (Censos 1991).
(2) Esta região é povoada desde tempos remotos, conforme o comprovam os numerosos e signicativos vestígios arqueológicos existentes. A origem do seu nome é, provavelmente, romana. “Do nome Turibrici […] de uma divindade local, há formas aproximadas como Turobriga (inscrições da Mérida e Medelin) […]” - Gabriel Pereira, Estudos Eborenses, Vol. I. pág. 52. “Ourega, dizem alguns, e em documento dos últimos séculos assim aparece por vezes designado este sítio. Nos documentos mais antigos diz-se Tourega. D povo hoje diz Tourega; mas uma vez um pastor disse-me: Tourega é na Charneca, Ourega na Serra.” - ldem, Vol. II, p. 312. Muitas tradições antigas e populares, modificadas pelos eruditos, andam ligadas a este local.
(3) A Igreja Paroquial é um edifício quinhentista de que subsiste apenas com merecimento artístico a capela-mor, com interessante retábulo de talha dourada; encontra-se arruinada. Frei Agostinho de Santa Maria diz “Esta egreja da Senhora é a mais antiga de todas as do termo de Évora, e querem alguns que seja mais antiga que a mesma sé da cidade [... ] – Santuário Mariano, Vol. 7°., pág. 539.
(4) “S. Viário”: “Na igreja estava um altar sustentado sobre quatro colunetas, e dizia-se ser o túmulo de S. Viário, bispo. Em 1540, o cardeal bispo D. Afonso teve curiosidade de saber ao certo que santo era este, e mandou André de Resende examinar o local, a inscrição, o altar; e o notável arqueólogo declarou que não havia tal santo e mandou entupir o altar.” (Idem, pág. 311). Tratava-se de uma lápide dedicada pela dama Calpurnia Sabina à memória do marido e dos dois filhos.
(5) Junto à Igreja Paroquial existem importantes vestígios de ocupação romana, que estão a ser alvo de estudo arqueológico. Existem notícias destas ruinas (“as Martas”) desde o séc. XVI; André de Resende, Diogo Mendes de Vasconcelos, Manuel Severim de Faria, Manuel Fialho, Cunha Rivara, Gabriel Pereira. A. F. Barata. Túlio Espanca, entre outros.
(6) “Caminhando para o norte a partir dos tanques, desce o brando decliva da colina e, percorridos cem metros a “fonte romana”, designação talvez de origem erudita, ou de “Santa Dominaa, dizer que revela tradicão antiga; “Dominata”, “Inominata”, a “Anónima”. É uma escavação defendida por umas pedras sem feitio; a água vem por um cano subterrâneo, e tem na crença local virtudes medicinais, salutar principalmente nas doenças dos olhos. Que alguns desses silhares de granito estão ali há longos séculos, e foram em tempo muito usados (de há muito que é rara a frequência naquela fonte), parece certo pela gasto de suas arestas.” - Gabriel Pereira. Idemn. pág. 316.Nas proximidades da arruinada Ermida de Santa Comba encontramos a Fonte Santa ou de Santa Comba, onde, segundo a crença popular tombaram as cabeças degoladas de Santa Comba e de sua irmã Santa Inominata.
(7) A Ermida de Santa Comba está completamente arruinada. Era uni pequena edifício do séc. XVI. de estilo barroco, com a fachada voltada a ocidente.
(8) O Barrocal pertenceu ao património da Fábrica da Real Colégio da Purificação, cujos administradores eram os padres da Companhia de Jesus. Com a expulsão dos jesuítas, a Coroa cedeu a propriedade aos condes-barões de Alvito.
(9) A Quinta do Pomarinho pertenceu aos Condes de Vimioso e Marqueses de Valença, todavia, poucos vestígios existem actualmente da grandeza do antigo edifício rural.
(10) Nos princípios do séc. XVI a Mitra Eborense instituiu uma quinta e paço para descanço e retiro espiritual em Valverde. Em 1554, D. Henrique fundou um convento capucho que designou por “Bom Jesus”. Anexa ao paço encontra-se o “Jardim de Jericó”, onde existe um grande lago circular, adornado por bandeiras recurtadas, intervaladas pelos bustos marmóreos, dos profetas Abraão e Elias, e ao centro a estátua de Moisés. O Convento de Bom Jesus, cuja portaria é antecedida por um alpendre do séc. XVI, possui uma bela igreja renascentista, de estilo dórico; o templo é formado por cinco capelas octogonais cobertas de cápsulas esféricas, das quais a central assenta num tambor.
(11) Veja-se o recente estudo de Manuel Branco, “A fundação da Igreja do Bom Jesus de Valverde e o tríptico de Gregório Lopes” in Boletim A Cidade de Évora, n°. 71-76, pp. 39-71.
(12) Povoado neolítico/calcalítico. A este local andam associadas várias lendas, como a de ter sida este “Castelo” o local de refúgiu de Giraldo, “Sem Pavor” e seus companheiros, antes da reconquista da cidade de Évora aos mouros; ao lado desta lenda medieval, há outras de tesouros escondidos, guardados ou não por mouras encantadas: “No Castelo do Giraldo há uma mina cheia de ouro, cuja entrada está oculta por uma grande pedra. A pessoa que quiser tornar conta de toda aquela riqueza precisa sonhar com ela três noites seguidas e depois ir lá à meia noite, levando consigo um alqueire de milho, que principia a espalhar pelo chão desde a base até ao alto da monte, aparecendo logo um galo preto que começa a comê-lo com grande voracidade. Todo o trabalho de subida ao Castelo, procura e desobstrução da mina, bem como a recolha do ouro tem de ser feito antes que o galo coma o último grão, caso contrário sai de dentro uma serpente que a mata” - Afonso do Paço e José Fernandes Ventura, Castelo do Giraldo (Évora). I - Trabalhos de 1960, Guimarães, l961, pp. 6-7.
Transcrição: Maria Ludovina Grilo Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758 (Conclusão). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 2ª Serie, nº 1 (1994-95), pp. 89- 156.
1758 Junho 6 - Nossa Senhora da Graça do Divor Memória Paroquial de Nossa Senhora da Graça do Divor, Évora [ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 13, nº 18, pp. 107 a 110]
Respondendo aos interrogatorios para Sua Magestade Fidelissima foy servido enviar a Vossa Excelencia Reverendissima pella Secretaria do Estado do Negocios do Reyno respondo ao pertencente a esta Freguezia de Nossa Senhora da Graça do Divor termo da cidade de Evora legoa e meia distante da mesma cidade
Interrogatorios
ao 1º. Fica esta Freguezia de Nossa Senhora da Graça do Divor(1) na Provincia do Alentejo, e pertence ao Arcebispado de Évora, e todo o território desta Freguezia he, e esta dentro do termo da mesma cidade de Evora da que dista legoa e meia;
ao 2º. He o territorio desta freguezia da jurisdição real assim, e da mesma sorte, que a cidade de Évora da qual hé termo, e compoem-se o ditto territorio de sincoenta, e duas herdades, ainda que pequennas, e demenutas algumas, e sam de certos e particulares senhores.
ao 3º. Tem ao prezente cento e sincoenta e sette vezinhos, ou moradores, que vivem em cazas suas, ou em herdades de lavradores entrando em este número lavradores com suas famillias, e criados, homens cazados, solteiros, veuvos que todos, ou cada hum destes com suas famillias fazem a quantia setecentos e doze pessoas maiores ao prezente;
ao 4º. O território desta freguezia he em huma campina, que comprehende, e tem em si varios valles, em que se produz mais quantidade, e porçam de trigo, que senteio, e sevada, avista-se desta igreja e freguesia a villa de Estremoz, que dista desta igreja seis legoas e a villa de Arraiolos, que dista legoa e meia;
ao 5º. Ao segundo interrogatório se dice se compunha esta freguezia e seu território de sincoenta e duas herdades, que comprehende cento, e sincoenta, e sete pessoas que sam o numero digo cazeiros, ou moradores, que fazem, por todos o numero de setecentos e doze pessoas, que sam os fregueses desta mesma freguesia, e nam contem em si mais lugar, que huma aldeia pequenna, chamada o Pumar do Lobo(2) sita junto a esta igreja em a herdade // das Figueyras do Lobo cuja herdade he de hum morgado de Montemor o Novo chamado Felipe Lobo e as cazas da sobreditta aldeya sam de varios e particulares pessoas que pagam seu foro anual ao proprio senhorio da mesma herdade;
ao 6º. Está a igreja(3) desta parochia de Nossa Senhora da Graça do Divor legoa e meya distante da cidade de Évora da qual esta freguesia he termo como dice, em o primeiro interrogatorio;
ao 7º. He o orago desta parochia de Nossa Senhora da Graça do Divor; tem tres altares, o altar mayor he da Senhora da Graça, hum dos collatraes he da Virgemm e Senhora do Rozario,e outro he do Gloriozo Santo Antonio, nam tem naves esta igreja por ser estereita, tem duas Irmandades huma da Senhora do Rozario e outra das bendittas Almas do Purgatorio;
ao 8º. O sacerdote, que governa no espirituall os freguezes desta parochia ao prezente he parocho encomendado pello Excelentissimo Arcebispo de Evora, do qual he tambem a sua datta, e aprezentaçam amovivel, e sem colaçam, asim como outras muntas que ha deste genero, e della nam recebe, o parocho dizimos, porque pela sua congrua lhe pagão os freguezes certa porção de trigo, e asim se acha estar lotada em trezentos e trinta alqueires de trigo, e cento e sete alqueires de sevada ficando os dizimos reservados a quem por direito antes da sua instituiçam pertencião;
ao 9º. Não tem beneficiados.
ao 10º. Não tem conventos.
ao 11º. Não tem hospittal.
ao 12º. Não tem caza de Mizericordia.
ao 13º. Tem esta freguezia de nota em seus limites varias capellas, que sam de particulares senhores, como he huma em a herdade da Oliveira(4) cuja he de Antonio Saldanha de Oliveira, morgado asistente em a corte e cidade de Lisboa // com o titullo de Nossa Senhora da Asumpsam com missa quotidianna e capellam e se lhe faz festa em o dia quinze de Agosto por mandado do ditto morgado. Ha outra capella sitta em a herdade do Monte de Pinheiros com o titulo de Nossa Semhora da Nazare cuja herdade e capella he do morgado Francisco Joze Cordovil morador em a cidade de Evora(5) Ha outra em a herdade de Vale d’El Rey de Sima munto antiga com o titulo de Nosso Senhor Romão de cuja nam memoria a quem pertença a qual festejam os moradores e freguezes desta freguesia por devoçam em o dia proprio a nove de Agosto(6) Ha outra cuja he dos Reverendos Conegos Regrantes em huma herdade sua chamada a Abegoaria com o titulo de Nossa Senhora dos Remedios. Ha outra em a herdade da Sempre Noyva com o titulo de Nosso Senhor Joze Cuja herdade e capela he e pertence ao Excelentissimo Marques de Valenssa, e esta é (?) a dos Reverendos Conegos Regrantes. Nam tem festa e a nenhuma acode romagem(7)
ao 15º. Os frutos que os moradores e freguezes desta freguezia colhem e recebem em maior quantidade hé trigo, senteyo e sevada, mais trigo que senteyo, e mais senteyo que sevada, em alguns annos bastante porçam de tremes mas em outros annos como hé o prezente quaze nada.
ao 16º. Não ha em esta freguezia villa luggar, em que haja juis ordinario nem camera, e como so dista legoa e meya da cidade de Evora tem juis de ventena, e asim está sugeita a justiça de Evora.
ao 18º. Fica respondido em o primeyro interrogatorio como ja se dice.
ao 19º. e 20º. Nao tem esta freguesia que responder a elles.
ao 21º. Fica distante esta freguesia da cidade de Evora legoa e meya e da cidade de Lisboa vinte e nove legoas.
ao 22º., 23º., 24º., 25º., 26º., 27º. Nam ha em esta freguezia que dizer a elles.
O que se procura dessa serra he o seguinte
Entre o numero de sincoenta e duas herdades, de que consta esta freguezia como se dice em o segundo interrogatorio se acha huma com o nome de Mogos, que he dos religiosos de São Hieronimo extramuros da cidade de Evora em a qual esta // hum elevado alto chamado a Serra de Mogos breve na extensão, porque apenas se lhe sobe ao cume se descobre todo por nam ter cumprimento nem largura ao que os moradores e freguezes desta freguezia nam dão mais noticia nem em elle se acha mais couza alguma que dizer ao interrogatorio da serra.
O que se procura saber desse rio he o seguinte
Em o territorio desta freguezia tem principio alguns rios, ou ribeiras cujos em os seus nascimentos não teem nomes por pequenos, em a herdade chamada as Figueiras do Lobo tem principio o rio ou ribeiro por nome Divor e este se conserva e nomea sempre por elle, nam nasce caudellozo, corre para o nascente, tem hum moinho em a herdade da Abegoaria, que he dos reverendos conegos regrantes de São Joam Evangelista, e desta freguesia para a freguesia da Igrejinha termo da villa de Arraiolos donde conserva o mesmo nome. Nasce outro em a herdade da Valeira para o Sul a que chamão a ribeira de São Mathias por se emcaminhar, e passar medinto(?) a sobredita Igreja de São Mathias termo da cidade de Evora. Nasce outro em os altos da herdade de Metrogos para o Nascente, e se emcaminha para os coutos, e fazendas da cidade de Evora donde o nomeão por Val Covo, e de todos estes nam ha que dizer ao seu curso nem mais interogatorios pertencentes porque apenas quando chove correm, principiando os calores e rigores do Sol teem acabado suas correntes. Ha sim outro rio mais excelente, que nascendo de varias fontes correntes para o Nascente do Sol os antigos o encaminharão para o Sul, e he a notavel Arquitectura dos Cannos da Agoa da Prata da cidade de Evora(8), que tem seu primeiro principio em a sobredita herdade das Figueiras do Lobo de que se fallou em o quinto interrogatorio e este por mais herdades sitios quintas e fazendas que passe sempre conserva o primeiro e principal nome de Arquitetura da Agoa da Pratta, e como os fregueses desta parochia o teem em a conta dos rios nascentes desta freguesia tratto delle como rio e nam como fonte, e aos mais interrogatorios asim da terra, serra, e rio nam se achou mais clareza alguma, nem couza notavel que dizer nem digna de memoria desta freguezia e parochia de Nossa Senhora da Graça do Divor termo da cidade de Évora.
Findo aos 6 de Junho de 1758 annos.
O Parocho Encomendado Joam Rozado Ramalho
(1) Freguesia rural do Concelho de Évora. Nos anos de 1911 e 1920 tinha anexadas as freguesias de S. Sebastião da Giesteira, Nossa Senhora da Boa Fé, S. Brás do Regedouro, S. Matias, Nª. Srª. Tourega. Pelo decreto nº. 12 509, de 18/10/1926 foram desanexadas, excepto a de S. Matias. Pelo DL nº. 27 424, de 31/12/1936, S. Matias passa a fazer parte desta freguesia. No Censo de 1864 figura com a designação de Divor e a partir de 1878 figura Graça do Divor. Pelo DL nº. 39 448, de 23/10/1953, passou a ter a actual designação. Situa-se a cerca de 12km de Évora. Área: 8 566ha. População presente (Dados preliminares Censos/91): 436 habitantes. Segundo o Padre F. Fonseca, Op. Cit., p. 222, os romanos chamavam aquela zona "campos elíseos" ou "campi divorum".
(2) Existe no rocio da aldeia da Graça do Divor um edifício de configuração oblonga, denominada a Casa Antiga do Pomar do Lobo, em cuja fachada principal existe o brasão de mármore dos donatários - os Lobos. A frente para o pomar, de alteroso arco para passagem da carruagem de lavoura, com outras aberturas de ombreiras de pedra e bancos antigos, embora construída sem preocupações estéticas, tem mais carácter e dignidade rural. Sobranceiros ficavam os jardins e horto, onde se veêm elementos do século XVIII, compostoos por canteiros e bancos de repouso, semi-circulares, em obra de estuque; uma fonte de planta rectangular com pilastras de massa e cobertura em tecto de remate piramidal; fragmentos de cantaria aparelhada, e vasto tanque de lagedo no rebordo, que pode remontar ao século XVI. Túlio Espanca, Op. Cit., p. 106
(3) Esta Igreja é da primeira metade do século XVII e substituiu uma que já existia em 1536, não se conhecendo a data da sua fundação. O pórtico tem 3 arcos de volta perfeita e duas portadas rectangulares; tem um frontão entrecortado e um nicho composto pela imagem da padroeira. No interior as paredes da nave estão revestidas a azulejo rematados por uma curiosa barra de sereias amparando medalhões florais de reminiscência renascentista. No cruzeiro existem dois altares colaterais em talha dourada, de estilo barroco, e as paredes laterais estão revestidas de pinturas a fresco com figuras agiológicas. A capela-mor tem altar de talha dourada, é encimada por abóbada de caixotões polícronos de estuque com figuração antropomórfica e vegetal.- Dossier sobre as Freguesias Rurais de Evora. Textos. Feira de S. João/92
(4) O Morgadio da Oliveira foi instituido em 13 de Agosto de 1268, pelo Arcebispo de Braga D. Martinho de Oliveira, eborense e antigo cónego da Sé de Évora, mestre do príncipe D. Afonso, primogenito de D. Dinis, grande erudito e embaixador nas cortes de Roma e Espanha. A instituição deste Morgadio tinha a condição de "[...] que mulher nenhuma do meu linhagem nem estranha nunca seja erdeira na Oliveira nem em estes herdamentos de usso ditos." No reinado de D. Manuel pertencia ao fidalgo Martim Afonso de Melo de Miranda e era seu administrador Henrique da Mota, que nela recebeu algumas vezes os infantes D. Henrique e D. Duarte. Em meados do século XIX o edifício sofreu obras de ampliação, que não chegaram a ser concluidas, pelo que actualmente se encontra num estado muito ruinoso. Subsistiram do primitivo solar alguns portados de granito, cunhais de cantaria, lavrados, escadas exteriores e várias salas do rés-do-chão. A capela está ligada a este solar, tem planta rectangular e foi completamente renovada em finais do século XVIII. Túlio Espanca, Op. Cit., pp.96-98.
(5) "As vastas propriedades deste nome, designadas originariamente por Pinheiros de Santarém [...]", pertenceram durante séculos aos Morgados Cordovis, família de apelidos Barbosa Aborim da Gama Lobo de Brito, em cuja posse entraram em 1615 por compra feita por Diogo de Brito ao Bispo do Algarve e Reitor da Universidade de Coimbra, D. Fernão Martins Mascarenhas, futuro Inquisidor Geral do Reino. A capela sofreu obras muito significativas, nada restando de outros tempos.
(6) Ermida de S. Romão: situada na região denominada "a Valeira" na herdade de Vale de El-Rei de Cima, na qual, nos finais do século XV o fidalgo Gil Gonçalves Magro instituiu um morgadio. Em 1776 estava na posse de D. Miguel de Melo e de D. Manuel Vieira Teles, descendentes do instituidor, com partes aforadas aos conventos de S. Domingos e do Paraíso. Actualmente, encontra-se em total ruína.
(7) Solar da Sempre Noiva: construção de finais do séclo XV, considerada pelos estudiosos de arte como um dos mais representativos e notáveis exemplares de arquitectura civil do manuelino-mudejar. A capela foi secularizada. As terras desta herdade pertenceram desde o reinado de D. Dinis à família eborense Drago, sendo escambadas em tempo de D. Afonso V entre o Bispo D. Afonso de Portugal e Manuel Drago, por um morgadio no Algarve. Foi D. Beatriz, filha daquele bispo eborense quem instituiu o morgadio da Sempre-Noiva, na quinta e passal de herdamento e seu vínculo na pessoa do irmão primogénito D. Francisco, 1º. Conde de Vimioso. Apesar de se tratar de um edificio classificado como Monumento Nacional, encontra-se muito arruinado, e as dependências do r/c a servir de estrebaria. Muitos escritores e artistas deixaram-nos as suas impressões sobre este monumento, como Teófilo Braga, Gabriel Pereira, Alberto Haupt, Reinaldo dos Santos, entre outros. Não se conhece a origem deste topónimo, porém há quem defenda ser uma alusão a D. Deatriz de Portugal ou ser a corrupção do nome de uma planta denominada centinodia, que abunda por estes sítios (Gabriel Pereira, Serões, nº. 5, Vol. I, p. 199, nota 1).
(8) Trata-se do Aqueduto da Água da Prata, mandado construir (ou reconstruir, sob o traçado de um antigo aqueduto romano) por D. João III, cuja inauguração ocorreu na tarde de 28 de Março de 1537.
Transcrição: Maria Ludovina Grilo Revisão: Francisco Segurado
GRILO, Maria Ludovina B. – O Concelho de Évora nas Memórias Paroquiais de 1758 (I Parte). A Cidade de Évora. Évora: Câmara Municipal. 1ª Serie, nº 71 (1988), p. 187- 212.
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